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Por que é importante ler escritores brasileiros? #VAM12L

27.12.14Paulo V. Santana

[Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro]

O ano pode estar quase acabando, mas ainda dá tempo de fazer um passeio pela literatura mundial com o Volta ao Mundo em 12 Livros. Vem com a gente!

Depois de algumas turbulências no percurso, a parada final dessa grande viagem é aqui, no nosso país.  Mas… por que é tão importante assim ler literatura brasileira?

Lá atrás, há quase dois anos, eu (Paulo) e a Dana fizemos um post que levantava a seguinte questão: quantos livros de autores brasileiros você tem na sua estante? Imagino que, assim como nós dois, você também não deve ter muitos. Na época, a minha justificativa era que eu não me importava se o material era nacional ou estrangeiro, eu me interessava pela qualidade do produto. De certa forma, isso continua sendo verdade, porém, agora tenho consciência que essa discussão não se resume a uma escolha ou gosto individual. Será mesmo que a nacionalidade de um escritor é tão irrelevante assim? E nós somos livres para escolher os livros que lemos?


A resposta para a primeira pergunta é simples: não. Por mais similares que pareçam dois romances escritos por pessoas que não são conterrâneas, há alguma marca que revela que elas são fruto de construções socioculturais distintas. Livros YA, por exemplo, costumam ser tratados como todos iguais, quando, na verdade, é possível identificar dissemelhanças entre aqueles que vêm de países diferentes. Cada um de nós é moldado de acordo com o contexto em que está inserido, criando um indivíduo único, que compõe um grupo com características próximas. Assim, países diferentes produzem escritores diferentes, e há diversidade dentro das próprias nações.

No entanto, não é preciso se esforçar muito para perceber como a hegemonia norte-americana atua também na literatura, tanto na produção quanto no mercado literário. Além da influência cultural que os Estados Unidos exercem em praticamente todos os países do globo, há uma predominância dos escritores de língua inglesa - incluindo aqui não apenas os estadounidenses - nos mais vendidos e nos lugares de destaque nas livrarias, como a Dana apontou no texto a que me refiro no início deste. Dos oito escritores de ficção que aparecem na lista dos mais vendidos do jornal “O Globo” publicada hoje, sete escrevem em inglês, sendo um australiano, um britânico e cinco americanos.

Quantos brasileiros você vê nesta mesa? [fonte da imagem]

Foi a partir de toda essa questão que surgiu o Volta ao Mundo em 12 Livros, o projeto literário que nos acompanhou em 2014. Nós percebemos que passavam vários balanços de leitura e uma situação sempre se repetia: vários livros lidos, quase todos de mesma origem. Precisávamos mudar isso, então criamos uma lista com doze escritores de nacionalidades distintas como uma forma de estimular a diversidade e a descoberta de novas culturas. Infelizmente, acabei abandonando o projeto logo no início e não obtive o resultado esperado, porém eu me tornei consciente sobre as escolhas de leitura que faço e a importância de conhecer visões de mundo fora do padrão norte-americano.

Aliás, apesar de não estar seguindo o VAM12L, tenho lido mais escritores brasileiros; o número total ainda não é grande, mas é um aumento considerável em relação ao que eu lia antes (...nada). Ainda busco “conteúdo de qualidade”, contudo, agora me abro para todas as oportunidades que a literatura pode me oferecer, não apenas para os mais vendidos. E somente após ter construído uma nova visão sobre esse assunto é que entendo a importância de ler os nacionais. 

Não sou de ler poesia, mas aos que leem: leiam os brasileiros.

Além de ser uma forma de resistência ao material de consumo quase obrigatório (muitas pessoas comentando, marketing intenso etc.), ler brasileiros é um meio de valorizar e conhecer aquilo que é produzido por pessoas como você. O leitor e aquele que escreve podem ter mil diferenças, mas compartilham uma mesma origem, uma mesma nação. Para mim, ler bons livros nacionais, além de prazeroso, se tornou empoderador. 

E é por isso que é tão importante apoiar a produção literária brasileira. Leiam John Greens, J. K. Rowlings e Agatha Cristies. Mas também leiam Carol Bensimon, Eduardo Spohr, Bárbara Morais, Raphael Montes, Fernanda Torres, Paulo Leminski, Iris Figueiredo, Michel Laub, Dayse Dantas, Danilo Leonardi, Paula Pimenta, Eric Novello, Luiza Salazar, Jorge Amado, Carolina Munhóz, Luís Dill e tantos outros brasileiros fantásticos. 

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7 comentários

  1. Muito bom o texto , me fez refletir muito sobre uma coisa aqui. A hegemonia americana e a alienação dos jovens em relação a leitura conseguem afogar escritores talentosíssimos( não só brasileiros, mas de outros países também). Mas a sensação de profundidade é maravilhosa quando pegamos um escritor desconhecido e nos damos conta de que existem tantas coisas que ainda não analisamos.

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  2. Adorei! Tava escrevendo um post nesse sentido agora, mas um pouquinho diferente (basicamente sobre como eu gostaria que autores brasileiros usassem mais nosso país e nossa cultura nos seus livros - o que nem sempre acontece: tá cheio de nacional que se passa em High School). Mas enfim, graças ao blog, aumentei MUITO a quantidade de nacionais na minha estante. Antes eu só tinha os clássicos e mais famosos, agora tenho uns um pouco mais ~obscuros~, digamos assim. Ótimo post, como sempre :)

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  3. Ótimo post! Eu já pensei que devia apoiar mais a literatura brasileira porque quero, um dia, lançar um livro, e como ia poder querer que as pessoas lessem esse meu livro se eu não lia nacionais? Mas aí eu percebi que, como você Paulo, eu 'tava mesmo era buscando qualidade. Mas parece que só encontrava em livros estrangeiros... Então me abri um pouco para os nacionais. E acabei vendo uma onda de "Eu leio nacional", "Nacional é isso, é aquilo, e estrangeiro só nos desvaloriza" e criei birra com isso. Minha resistência foi contra esse movimento, e eu queria ler e sentir que estava lendo uma história boa, sem fazer parte de algo que queria diminuir livros estrangeiros (a maioria deles em inglês, é) e supervalorizar os nacionais — e alguns nem me pareciam tão bons assim!

    (Agora isso mudou e eu procuro equilibrar as leituras; ainda procuro qualidade, mas tento encontrar isso no meio de títulos nacionais. Mas tem alguns autores que sinto que nunca vou ter coragem de ler, por causa dessa birra-barra-trauma, não consigo superar a pressão que eles faziam/fazem)

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    1. Gih, eu vou tentar explicar por que eu apoio esse movimento "Eu leio nacionais". A questão é refletir sobre quem te ensinou o que são boas histórias e se não é válido desconstruir isso e se abrir a novas experiências. È que nem a questão da aparência. As revista de beleza valorizam mulheres brancas de cabelo liso, e daí vemos diversas mulheres negra alisando. Agora, elas alisam por que querem ter o cabelo liso ou por que foram ensinadas que cabelo crespo é "ruim"? É muito difícil ter uma resposta objetiva sobre esse assunto, mas a influência externa é inegável. A lógica é a mesma nos dois casos. Por que literatura nacional não vende tanto quanto a americana? Por que olha, NÃO é questão de qualidade. Isso eu me recuso a aceitar. Eu leio literatura nacional aos montes e tem tanta, mas TANTA coisa boa por aí!

      Então eu SEMPRE apoio os livros nacionais, me preocupo em ler um bom número deles, de estar a par do que está sendo lançado para ver o que pode me interessar, etc. E isso não é a realidade de muitos, sabe por que? Por que Jogos Vorazes recebe uma mídia do caramba, enquanto A Ilha dos Dissidentes é um livro que as pessoas geralmente nem sabem que existe, por que a autora é brasileira. Ambos são distópicos YA muito bons, então por que esse desnível?

      Em um universo ideal em que toda a literatura tivesse um peso igual eu concordaria que o que importaria era simplesmente ler boas histórias, mas a questão é que há muitas boas histórias que não chegam até a gente por que o material nacional simplesmente não tem divulgação, e se nós queremos ver o mercado interno crescer, isso tem de partir de uma mudança nas nossas próprias atitudes em relação a ele também, sabe?

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  4. Eu tive uma experiência de ~aprendizado~ com nacionais quando quis aprender mais sobre comédias. Temos tantos comediantes bons e famosos, deveríamos ter escritores também, né? Descobri livros muito divertidos. E o tipo de humor do brasileiro é muito diferente do humor americano (que também é diferente do humor inglês).

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  5. Amo os meus nacionais ♥ Claro, um ou outro não é tão bom (assim como os estrangeiros), mas aqui no Brasil temos uma diversidade muito grande de gêneros, e muita qualidade! :D #Euleionacionais ♥

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    1. siiim! e isso é muito bom <3

      Obrigada pelo seu comentário!

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