A Assombração da Casa da Colina CCLivros

A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson

16.9.18Taiany Araújo



E quem iria imaginar que Taiany estaria lendo histórias de terror? Eu com toda a certeza não. Principalmente essa, que é considerada uma das melhores histórias de terror do século XX. No entanto, depois de ter me fascinado com Sempre Vivemos no Castelo, Shirley Jackson passou a ser uma escritora que quero ler apesar de morrer de medo desse tipo de gênero, ainda mais por ser alguém aclamada por nomes como Stephen King e Neil Gaiman - do primeiro passo longe, o segundo é alguém que gostei de tudo que li. 

Antes de mais nada é preciso dizer que A Assombração da Casa da Colina não é um terror com fantasmas, espíritos e coisas sobrenaturais, se é isso que se espera (ainda bem que eu não estava esperando nada) o leitor pode vir a ficar decepcionado. Porque, apesar do nome, a assombração nada mais é que a própria casa por assim dizer, ou melhor, é aquilo de mais sombrio que temos dentro de nós mesmos. Toda a história é construída através de um terror psicológico escrito de forma a deixar o leitor incomodado e curioso com a estranheza de tudo.


Logo de início somos apresentados aos personagens. Quem são? Como pensam? De onde vieram? Porque estão indo para essa casa? Sendo uma narrativa em terceira pessoa, confiamos no narrador e nos fatos que ele nos conta, entretanto, ao longo da leitura começamos a nos questionar sobre quem realmente está contando essa história. É confiável mesmo? Fiel aos acontecimentos? Estamos também nós enlouquecendo? Não vou mentir, tudo vira uma confusão tão grande que eu não sabia como me senti em relação às coisas que lia. Parecia uma alucinação extremamente perturbadora. Nada fazia sentido e tudo era muito louco. Ou seja, mérito para a autora que conseguiu cumprir o objetivo, a casa da colina nos alcançou. 

"Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até as cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho."

A Casa da Colina é uma construção de 80 anos que todos acreditam ser assombrada. Dessa forma, o Dr. Montague aluga a casa pelo verão e convida pessoas que já experimentaram atividades paranormais para lhe fazer companhia, em busca de estudar os fenômenos que ocorrem na casa para publicar um livro sobre o assunto que seja, finalmente, aceito pela comunidade científica. Para isso, ele se junta a três pessoas aparentemente aleatórias e vão para a casa: Theodora, uma artista excêntrica; Luke, o herdeiro da casa; e Eleanor, uma mulher que passou a vida inteira cuidando da mãe, morta há poucos meses. Em poucos dias, essas quatro pessoas passam a vivenciar sentimentos perturbadores sobre elas próprias e os outros moradores.

Não é absurdo dizer que a protagonista dessa história no fim das contas é a Casa, que de tão mencionada torna-se quase como um quinto morador, sendo uma presença tão palpável quanto as pessoas que nela se hospedaram. Construída de forma assimétrica, mórbida até, nada nela soa agradável ou convidativo, de certa medida parece que ela foi feita para aprisionar quem ali adentra. 


Com esse livro, Shirley Jackson argumenta que uma assombração não é algo que faz um mal físico, que trás qualquer perigo quanto a integridade corporal. Ela é mais letal, descobre sua fraqueza mais escondida, aquilo que talvez você nem saiba que exista e usa-o para atingi-lo. Quando enfim se percebe algo de errado, já é tarde demais, algo maligno nos encontra e vai, aos poucos, interferindo na nossa sanidade, quase de forma imperceptível, até não sobrar mais nada.

“Tudo é pior quando você acha que tem alguma coisa te olhando.”

Durante a leitura os diálogos por vezes parecem infantis e sem propósito, mas isso faz parte da insanidade de tudo que cerca essa casa. Assim, percebemos uma escrita simples, mas confusa, que pode desagradar a muitos. Por essas e outras, bato palmas para a tradução feita pela Débora Landsberg que conseguiu captar de forma certeira a ciclagem da autora entre diálogos e narrativa, e entre uma linguagem coesa e delirante.

A edição desse livro, como a do Sempre vivemos no castelo, também publicado pela CIA das letras é lindíssima, com capa dura, miolo em papel Pólen Soft, um design primoroso e uma diagramação confortável aos olhos.

Nota:

Ficha Técnica:


- Autora: Shirley Jackson

- Editora: Sumo de letras

- À venda em: Amazon - Saraiva - Submarino 







Obrigada Companhia das Letras (sob o selo da Suma de letras) por ter cedido um exemplar do livro pra gente <3



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