Castiel CCAnálise

Afinal, Destiel é ou não queerbaiting?

21.4.18Colaboradores ConversaCult


Para falar de queerbaiting em Supernatural precisamos primeiro fazer uma pequena revisão para que você saiba o que é esse termo.
Aposto que já assistiu uma série na TV que você começou a suspeitar de um determinado personagem não ser aquilo que todo mundo estava dizendo. E quando eu falo isso, eu digo heterossexual. Ponto.

Seja por olhares, seja por piadas, seja por nervosismo com homens ou mulheres. Algo naquele personagem atiça seu sensor. Aí esse personagem começa a se relacionar com outro personagem do mesmo sexo e você fica... Eles se gostam? Eles são melhores amigos e nada mais? Não, eu acho que eles se gostam. E as vezes é tão forte esse sentimento que até quem não é acostumado a shippar casais LGBT nota. Eu não assisto Teen Wolf, mas meu irmão assiste. E nos pouco episódios que eu sentei para ver com ele. Ele me disse que achava que o Styles era gay ou algo assim. E eu fiquei "Bom, eu já vi que as pessoas shippam ele com o Derek, mas não faço a menor ideia se ele realmente é" e essa foi uma das conversas mais engraçadas que tive com meu irmão, porque ele sempre me falava de algumas cenas da série e eu como uma pessoa de fora, achava engraçado o fato de EU ser a quem procura ships LGBT e vai shippar casais se eles forem bons e ELE alguém totalmente FORA dessa bolha notar algo estranho.

O que nos leva a Supernatural.

Dessa vez ele que foi a pessoa de fora, assim como minha outra amiga. Eles não sabem nada do contexto da série e eles viram coisas estranhas quando eu falava sobre Dean e Castiel. Mais a minha amiga. Deixei meu irmão em paz porque ele não parece querer se aventurar nesse mundo tanto quanto eu. Eu sou praticamente a Elena de ODAAT (One day at a time). Onde tiver filmes e séries eu já estou procurando um possível casal.

E queerbaiting infelizmente faz parte da nossa realidade.

E o que é, você realmente não falou ainda?”

Primeiro precisamos saber o que NÃO é queerbaiting para saber o que é. Acho que fica melhor desse jeito.

Casais canon LGBT que morrem, que ficam doentes e morrem, que não dão certo e se separam e que acabam virando vilões (vilões como num relacionamento abusivo) ou algo desse tipo.

Não é queerbaiting, por mais ruim (ou triste) que seja essa representação. Por mais que tenha deixado um gosto amargo na boca ao ver eles dois. Quando é definitivo que eles são um casal, mas alguma tragédia está envolvida. Isso é só mais um clichê LGBT. A morte ou a tragédia. Não impedindo a retratação. Não acho que precisa parar também de produzir filmes assim, apenas acredito que existem um bocado de filmes de casais não LGBT com finais satisfatórios, inclusive filmes não focados na sexualidade de nenhum dos personagens, filmes de ação que por acaso o protagonista termina com uma menina. Filmes de super-heróis que mesmo o romance não sendo o enfoque, em algum momento tem um tipo de diálogo que mostra a pessoa que esse personagem gosta. Se a sexualidade dos personagens fosse normalizada em todos os filmes, teríamos uma representação muito maior do que temos agora.

O filme novo “Love, Simon” é apenas um dos filmes bons por quebrar com esse paradigma que filme LGBT sempre termina em tragédia. Quero assistir esse filme, aliás.

Então está claro que quando sabemos de forma explícita a sexualidade dos personagens e mesmo assim um deles morre. Não é queerbaiting. Pode ser qualquer coisa. Pode ser a famosa Trope Bury Your Gays (Enterre seus gays), que é quando a série faz um casal LGBT canon, consegue a representação que queria e logo depois mata um deles para não seguir com o casal na história. Pode até ser uma representação péssima, ridícula ou todas as ofensas possíveis. Mas não é queerbaiting. É uma representação ruim.

Trope Bury Your Gays

E partindo desse ponto. De se está explicito a sexualidade apaga o queerbaiting da série. O que acontece com o oposto? O que é queerbaiting?

Tirando essa pequena parte do artigo que vi no site da Mundo Estranho, temos aqui:

“Do inglês “queer” (termo antigamente pejorativo, mas que foi retomado pela comunidade LGBTQ) e “bait” (“isca”), o queerbaiting é uma estratégia midiática utilizada na indústria do entretenimento – seja em filmes, séries, livros, HQs, mangás ou animes – para atrair justamente o público que foge do padrão da cis-heteronormatividade. Ele se concretiza quando há alguma espécie de tensão sexual ou romântica entre personagens do mesmo gênero, tendo o intuito de tornar a produção representativa, mas sem desagradar a parcela conservadora da audiência.”

E é aí que entra Supernatural. E Dean e Castiel.

Onde nunca foi dito no canon nada sobre a heterossexualidade de nenhum deles. Pelo contrário até. Já foi muito dito e falado sobre implicações de Dean ser bissexual. As poucas vezes que Dean disse que ele não “jogava pra esse lado” foi para um policial. Uma vez. E sabemos que Dean mente demais. *Taylor Swift e shorts curtos caindo para fora do armário invisível de Dean Winchester*


A bissexualidade de Dean foi até dita pelos próprios escritores e produtores. Repito. Ambos falaram isso. Comprem os DVDs de SPN e se aventurem pelos extras. Eles chegaram a comentar sobre Aaron e Dean de forma séria, não havia tom de brincadeira.

São os comentários disponíveis no DVD da oitava temporada (episódio 13)

E Castiel. Sim, o anjo Castiel que está apaixonado pela humanidade vulgo Dean. Depois de todas essas implicações, mas nunca com uma resposta oficial da parte dos produtores, nenhum amparo no qual podemos nos agarrar com firmeza, restando apenas chorar pelos paralelos, pelas falas, cenas, tropes, tomadas de câmera e até escolha de cores para as roupas e cenas.

Nada é por acaso.

Se você acha que os fãs estão lendo demais é porque você não viu uma ex-estudante de design (Agora formada) que estudou análise atmosférica e de cores no filme Sobrenatural (Aquele de terror). Eu mesma. Só não foi meu TCC, mas fiz um artigo sobre o uso de cores durante a faculdade. Então você não pode virar para mim e falar que eu estou lendo/vendo coisa onde não tem, porque não existe isso no cinema.

Você não põe alguém num ambiente todo azul numa cena num filme apenas porque você gosta da cor azul. Você não põe luzes roxas, azuis e rosas (bandeira bi cof cof) piscando na sala de um anjo (Naomi) apenas para estar na moda, para ser bonitinho. Você não escolhe uma paleta de cores em tons de vermelho para o inferno à toa. Cores trazem sentimento. Não é por nada, mas Supernatural é a série que mais ama colocar coisas para você pensar. Se você não notou isso, é simplesmente porque você só está vendo a série como você quer ver.


Mas voltando ao que eu tinha dito antes. Sem indicação de que eles não são LGBT, porém os produtores continuam a incitar num romance entre ambos? Queerbaiting.

Ainda que os produtores batam o pé no palco e falem “Destiel não é real. Eles só são amigos!!!” Continua sendo queerbaiting.

Eles estão fazendo um péssimo trabalho em manter o sentido platônico de todo esse relacionamento entre Dean e Castiel. Péssimo mesmo. Se Dean e Castiel tivesse a mesma atenção que Sam e Castiel tem, seria bem mais fácil manter tudo na amizade.

Bem mais fácil.

Vi algumas pessoas falando “Ah, mas se eles falaram que não é, você está shippando porque quer” Você realmente não entendeu o problema, né? Se Destiel estivesse no início ainda, talvez, só talvez, tivesse alguma volta. Mas foram anos de tudo isso que eu falei. Anos. Anos “pescando” pessoas para assistir e anos não falando sobre a sexualidade deles ou anos incitando a NÃO heterossexualidade deles.

Se o propósito deles não é fazer canon, por que diabos eles continuam fazendo tudo isso? Pelos fãs? Para não perder view, né? Queerbaiting de novo.

Eu não acho que Destiel está totalmente caído no gráfico de queerbaiting, no sentido de se os produtores moverem um dedo e falarem explicitamente que Dean e Castiel se amam, isso vai salvar eles. Mas só no último episódio vai dá para saber pelo visto. Se os produtores não se salvarem antes...

Se nunca falarem sobre isso e Supernatural acabar e não for canon. É queerbaiting. Fim. Fomos enganados por anos, enganados de todas as formas. Como diz aquela anja sobre Castiel “Quando Castiel encostou a mão em você no inferno, ele estava perdido” parafraseando ficaria mais ou menos “Quando os produtores de Supernatural ‘encostaram a mão’ em Destiel, eles estavam perdidos.”

Por que agora eles só têm duas chances. Ser o melhor desenvolvimento de inimigos para conhecidos para amigos para melhores amigos e finalizando com namorados que uma série poderia dar. Ou... ser apenas mais uma série queerbaiting na lista.

A escolha continua deles.

Se Destiel é ou não queerbaiting ninguém ainda sabe.



***
Sobre a autoria: Jace Oliver, designer e escritora nascida na cidade de Manaus - AM e não no meio de uma tribo na Floresta Amazônica, como muitos acham. 22 anos, aquariana até a ponta do pé. Viciada em filmes, séries e músicas que ninguém conhece. Passa maior parte do tempo divagando sobre quando existirá uma série brasileira de terror decente. Já tem um conto distópico publicado e boatos que começou um canal no YouTube onde posta vídeos falando sobre jogos e histórias.

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