CCSexta lgbt

CCSexta: representatividade além da sexualidade

30.5.15Paulo V. Santana

Quando me candidatei a uma das sextas de maio, em que alguns membros da equipe vieram aqui compartilhar personagens que os representassem, não fazia ideia da jornada de reflexões que eu estava me metendo. Primeiro, eu não sabia que personagens eu indicaria. Já escrevi algumas vezes sobre representatividade LGBT+ aqui no ConversaCult, então imaginei que o assunto seria fácil para mim. Pééén, grande erro. 


No auge da minha dúvida sobre o que escrever, precisei parar, deitar na minha cama e realmente olhar para a questão proposta. Foi aí que me dei conta de algo que parece ser óbvio: representação é complexo.

Percebi que, no meio da minha defesa pela representação de pessoas LGBT+ num meio em que a norma é hétero, eu acabei focando tanto na questão da sexualidade que esqueci de olhar para outros aspectos dos personagens com os quais eu também poderia me identificar. Usando a comparação do espelho que a Dana fez nesse excelente texto, é como se, em vez de eu buscar personagens que refletissem características minhas, eu buscasse personagens que são gays e pronto. 

Com exceção da beleza física, não gostaria de olhar no espelho e ver o Patrick de Looking

É claro que a vivência de personagens LGBT+, quando verossímil, pode se aproximar da minha independentemente de outras características, já que as questões com família, sair do armário, preconceito e relacionamentos são quase universais. No entanto, nenhuma vivência se resume a sexualidade, e foi isso que eu ignorei por algum tempo.

Depois de ter aquele momento de realização ao perceber algo, a pequena lâmpada que acendeu sobre a minha cabeça explodiu: representação é se identificar com características de personagens fictícios, mas… quais são as minhas características? 

Pensando nisso, a primeira coisa que me veio foi o livro Will & Will, do David Levithan e do John Green. Eu não tiro dele apenas um personagem, mas sim os três protagonistas. Do Will Grayson hétero, carrego seu lado menino inteligente um tanto inapto para relações sociais. Do will grayson gay, carrego sua tendência ao pessimismo e à depressão. Agora, com o Tiny Cooper, a relação é mais de admiração. Ao contrário de mim, ele é extremamente extrovertido, mas a forma como ele se aceita e lida com a própria sexualidade e também com seu corpo me inspira. O Tiny é uma figura que, mesmo com suas fragilidades, é forte e consegue transmitir confiança - alguém que eu gostaria de ser.

Essa fanart ilustra bem o que eu sinto: uma mistura dos dois Will

Essa primeira escolha foi óbvia, porque o Levithan tem vários personagens com os quais eu me identifico por serem gays, mas o que pensei a seguir foi ao mesmo tempo uma surpresa e uma escolha que fazia total sentido: Nada Dramática, da Dayse Dantas. O livro retrata bem a vida de estudantes que, como eu, estão no terceiro ano do Ensino Médio, e a Camilla é alguém com quem eu posso me relacionar especialmente. Apesar de vivermos realidades escolares distintas - ela num colégio particular caro, eu numa instituição federal -, todos os sentimentos por conta do vestibular e da busca pelos sonhos são parecidos. A Camilla mostra ainda como os estudos não são a única coisa da vida nesse momento (e em nenhum outro), sempre há questões com amigos, família, interesses amorosos.

Já o terceiro momento dessa minha série de ~reflexões~ foi a percepção de que nem toda representação é de algo positivo. É por isso que escolhi o Patrick, personagem do Johnathan Groff na série Looking, Não, eu não gostava do personagem (e nem mesmo da série, mas mesmo assim assisti todos os episódios… vai entender), mas é uma escolha coerente se você pensar que eu rejeitava nele coisas que eu não gosto em mim mesmo. O Patrick é um cara que simplesmente não consegue ponderar racionalmente as coisas e vai seguindo conforme as orientações dos seus sentimentos, e sempre - sempre! - acaba fazendo merda. 

Isso fica muito marcado na forma que ele lida com os relacionamentos, como no término dele com o Richie, que ele lamente muito depois. Outro momento que ficou marcado em mim foi em um dos últimos (ou no último?) episódio da segunda temporada, em que ele e o Kevin discutem sobre relacionamento aberto e o Patrick se mostra extremamente ciumento porque, assim como eu, ele pensa demaaaais nas coisas.

"Obras de ficção podem dar força. Inspirar. Empoderar. Mostrar que está tudo bem ser quem você é, assim como é possível mudar algo em você que não é tão legal assim." 
- O que A Culpa é das Estrelas nos mostra sobre a importância da ficção

E… isso foi tudo o que eu consegui pensar dessa vez. Há vários outros personagens que me identifico - agora mesmo pensei no Colin de O Teorema Katherine e no protagonista de Perdão, Leonard Peacock - porém esses foram os destaques. Termino esse post com uma recomendação: pense em quem te representa na ficção, é como uma jornada de autoconhecimento. 

AH! E leia esse texto da Dana, vale muito a pena: 

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2 comentários

  1. "Com exceção da beleza física, não gostaria de olhar no espelho e ver o Patrick de Looking"
    "Com exceção da beleza física"
    Pffff
    Só queria comentar que sou muito mais você, Paulo. <3

    ResponderExcluir
  2. 1. voce é muito gato e esse carinha aí da foto parece uma fatia de pão triste

    2. nao sei onde eu tou na ficção mas esses dias ENCONTREI A MINHA MAE em uma série pg-13 high school de 2005 que super passaria no boomerang se o casal principal nao fosse uma mina lesbica e uma bi. ALIAS FALA PRA DANA QUE ESSA SERIE É TIPO FAKING IT MAS VEIO ANTES???? tipo sério tem cenas que sao >>>a mesma cena<<<, é bizarro. south of nowhere o nome. é muito bizarra a série porque fala de coisas Serias e tal mas fala de um jeito super DIDATICO e nao parece natural????? mas é bacaninha, as interações entre as minas são show (mas serio, muito bizarro. tem cenas de faking it que vieram direto dessa serie. o ponto bom é que o liam de south of nowhere é mais legalzinho que o liam de faking it. enfim)

    3. eu tenho uns personagens que achei no lixo que me identifico muito mas nunca sei se isso é algo bom. o brian kinney the queer as folk, o thomas barrow de downton abbey e o simon monroe de in the flesh (alias ce falou pra dana de in the flesh?? tem zumbis!!!)

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