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Patrick Rothfuss resume por que mulheres não são bem retratadas nas histórias

27.1.15Dana Martins


Patrick Rothfuss é um autor de fantasia conhecido por O Nome do Vento, mas mais do que isso, é uma pessoa que eu admiro muito. Já traduzi aqui o que ele falou sobre NaNoWriMo. E hoje vou trazer uns gifs (e a tradução) dele explicando como acontece todo esse problema de representação na nossa cultura. É bem simples, na verdade.

Na ordem: Traduzido, em inglês nos gifs ou vídeo original. 

Nós temos um grande problema com a forma que retratamos as mulheres. E não é só na fantasia [gênero]. É como se a nossa cultura inteira estivesse afundada nisso. Eu penso nisso como um veneno cultural. Muitas poucas pessoas propagam isso por realmente querer. Mas o que acontece é que você vai engolindo isso - gentilmente, desde quando você é uma criancinha e você assiste [por exemplo] esses filmes da Disney. E você pensa: "Oh, é isso que uma mulher quer, é isso que uma mulher é. Ela é meio sem ação e aí vem um cara e a salva, certo?"

Você absorve essas coisas antes de ser capaz de pensar racionalmente. Da mesma forma que se alguém colocar comida ruim na sua frente quando criança, você vai comer, mesmo que esteja envenenada. E então você vai ficar com isso dentro de você, e quando chega a hora de escrever, isso meio que naturalmente sai, e a coisa toda se perpetua.

Você não precisa olhar nada além de Tolkien. Eu amo Tolkien. [Mas] quem leu O Hobbit? Quantas mulheres há em O Hobbit? Quem até esse momento não tinha percebido que não há mulheres em O Hobbit? Isso não é bizzaro pra caralho? [Tolkien] foi um dos fundadores, e as pessoas seguem seus passos. (...) E ele não fez isso por maldade, ele também estava seguindo uma tradição. Mas o fato permanece: está aqui.

Isso não faz de nós má pessoas, contando que nós reconheçamos que engolimos algo (...) e façamos o nosso melhor para não vomitar isso de volta em outras pessoas.



Para ver em inglês o vídeo, é só clicar aqui. É legal ver a entonação dele.


Acho que vale a pena dizer que no livro do Patrick Rothfuss, O Temor do Sábio (continuação de O Nome do Vento), nós somos apresentados a uma cultura centrada na mulher e é um dos experimentos literários de sociedade mais legais que eu já vi. Não porque seja uma utopia dominada por mulheres (não é), mas porque de um modo tão simples se combina com uma história de fantasia padrão e com algumas diferenças questiona fundamentos básicos da nossa cultura. Tipo, sabe quando o personagem de fantasia vai pra o lugar onde os elfos ou anões vivem, e é totalmente diferente? Patrick Rothfuss explora o mundo em O Temor do Sábio com várias culturas de humanos diferentes, uma delas sendo essa das mulheres.


Aqui no CC a gente tem parado pra analisar e pensar como as mulheres são retratadas em histórias e como melhorar isso. Aqui alguns textos para pensar mais no assunto:

Suits: Análise das mulheres em uma série de homens

Estamos perdendo todas as nossas Mulheres Fortes para a Síndrome Trinity

Como Treinar Seu Dragão 2 é um triunfo radical feminista e aqui está o motivo

A Guerra das Mulheres Fortes



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5 comentários

  1. Eu engoli isso a maior parte da minha vida, esse esteriótipo de como uma mulher está fadada a ser e a pensar, a má representação de mulheres na mídia, até que eu comecei a achar errado que me dissessem que eu ou outra garota não podia fazer isso ou aquilo sob o argumento de ser menina. E então minha maior aproximação da internet e a gente vai vendo e aprendendo coisas e questionando tudo. Mas um punhado de vezes eu estou escrevendo algo ou pensando em escrever e vejo vindo naturalmente esses esteriótipos com personagens femininas, e é frustrante para caralho. E eu tento "não vomitar isso de volta" e é como uma batalha interna...

    Acontece muito desse questionamento com a representatividade de gênero, raça e tipo físico também, semana passada eu li o primeiro volume de Instrumentos Mortais e aí no meio da coisa eu parei e "quase todo mundo aqui é branco e magro e fim?" e o ultimo livro que eu li, a mesma coisa... Tão complicado, acho que eu só precisava desabafar. HAHAHAHHAHA

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  2. Curti muito a matéria, achei uma ótima temática. Mas há dois "poréns". Primeiro, isso serviria perfeitamente como um gancho para uma análise mais aprofundada (vou até olhar o site completo pra ver se realmente isso não aconteceu em outro escrito). E depois, apesar de (realmente) O Hobbit ser um livro 100% centrado em personagens masculinos (foi até por isso que o Peter se sentiu na obrigação de inventar a Tauriel para os filmes), O Senhor dos Anéis mostra-se bem diferente. E O Silmarillion, mais ainda. Temos personagens femininas não apenas interessantes, diferenciadas e fortes, como influentes na sociedade de maneira muito profunda. Sim, talvez não sejam realmente muitas, como é com os homens. Se não me falhar a memória, acho que só daria pra citar Galadriel, Melian, Lúthien, Idril, Arwen, Éowyn e Beladona. Mas, ainda assim, como citado, é muito para o contexto histórico-social de quando os livros foram escritos. Personagens femininas realmente profundas e cheias de nuances são muito recentes. Acho que o início dessa retratação na ficção fantástica começa, talvez, por Star Wars e Harry Potter, tomando maior força no século XX, com Jogos Vorazes e Divergente, eu acho. O que Tolkien fez foi sim algo grande. Não acho MESMO que ele tenha negligenciado a representatividade feminina. Enfim, a intenção foi legal, mas não dá pra deixar de lado toda uma carreira em função de apenas uma obra.

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  3. Isso é anacronismo, mesma coisa que questionar porque Platão não se preocupava com aquecimento global. Se for ler shakespeare vai ver muito machismo e sexismo em todo texto. Mesma coisa com Tolkien em suas obras, mas isso é reflexo da época, não devemos NUNCA comparar com hoje. Até porque hoje as mulheres estão ganhando muito mais espaço que na época que foi publicado O Hobbit.

    Gosto muito desse autor e CONCORDO 300% com ele, em como as mulheres são retratadas, tanto que eu reparo que quando é uma mulher escritora, elas conseguem deixar os dois gêneros em igualdade, coisa que muitos autores homens não conseguem. O GRR Martin também valoriza as mulheres em seus livros, Cersei, Daenerys, Arya, Igritte, etc. Isso é reflexo da nossa época, uma era de mais igualdade, não que tudo esteja 100% bem, mas estamos avançando, eu tenho fé nisso.

    Eu entendo que como homem é difícil escrever sobre mulheres, porque recebemos desde pequenos imagens negativas delas e acabamos não as conhecendo de verdade, lá na fase adulta se isso não muda, nem percebemos o que fazemos, por isso em meus contos e afins, eu sempre procuro valorizar as mulheres na trama, fugindo dos esteriótipos de fraqueza e delicadeza.

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  4. acho que o ponto do autor é que, a partir do momento que essas obras, mesmo sendo produzidas em outras épocas, são lidas e celebradas hoje em dia, a gente tem que prestar atenção pra isso e evitar de reproduzir. se não em pleno 2016 tá a pessoa escrevendo história sem mulher nenhuma ou que reproduz coisa machista tensa, o que vive acontecendo.

    então é menos sobre as histórias que passaram. mas sobre como nós, na hora de escrever, não reproduzir. (e como nós, quando não prestamos atenção, acabamos reproduzindo)

    e fico feliz em ouvir isso. lembra que o caminho mais fácil pra entender é... ouvir e confiar. :)

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