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Como Treinar Seu Dragão 2 é um triunfo radical feminista e aqui está o motivo

23.7.14Dana Martins


Estão preparados para a segunda parte da trilogia de posts sobre "Mulheres Fortes"? Esse segundo texto foi escrito pela Aja Romano em resposta ao primeiro texto do Dissolve, que criticava a onda de Mulheres Fortes vazias. O que eu acho mais legal é que por mais que elas discordem, eu concordo com as duas e ambas trazem perspectivas valiosas para a conversa sobre representatividade das mulheres. 

Aqui vai o texto, uma análise sensacional sobre como Como Treinar Seu Dragão está revertendo grandes tropes do cinema:


Semana passada, o Dissolve publicou uma análise amplamente circulada do que é chamado "Síndrome Trinity", especialmente em relação à principal personagem mulher de Como Treinar Seu Dragão 2, da DreamWorks. De acordo com o Dissolve, a Síndrome Trinity, nomeada por causa da personagem icônica de Matrix, se manifesta na Valka, mãe do Soluço, do seguinte modo:


"Ela é sábia. Ela tem princípios. Ela é alegre. Ela está dividida. Ela está ferida. Ela é vulnerável. Ela é algo que personagens mulheres normalmente não são em filmes de ação/aventura com protagonistas homens: Ela é interessante.

Uma pena que a história não dê a ela nada para fazer.


...


Valka é apenas o último exemplo de Personagem Supérfluo e Fraco disfarçado de Mulher Forte."



O texto continua alegando que Valka é fraca em diversos momentos cruciais da trama. Mais especificamente ela é retratada como uma donzela que precisa ser resgatada no terceiro ato. Ainda continua e dá uma lista de outros personagens que falham nesse padrão, incluindo a amada personagem de Círculo de Fogo, Mako Mori. O user do Tumblr quigonejinn já explicou em um post o quão importante a Mako Mori é de uma perspectiva cultural, escrito em resposta à existência do teste Mako Mori.

Em resposta ao texto do Dissolve especificamente, o user do Tumblr apocalypsecanceled reformulou o argumento do Dissolve:


"como essa mulher de cor OUSA ter a coragem de mostrar vulnerabilidade e cometer erros e receber apoio de outras pessoas?

....

como ela ousa não ser uma cavaleira de dragão invencível que apesar disso se sacrifica para resgatar seu homem branco salvador?"


É importante reconhecer o modo como Dissolve refez a narrativa de Círculo de Fogo para reconhecer que isso também foi feito com a narrativa de Como Treinar Seu Dragão 2. Ironicamente, Dragão 2 está refazendo e rejeitando tropes sexistas persistentes de Hollywood - especificamente o sobre Mulheres na Geladeira sendo usado como ladainha para drama de homem e violência centrada em homens - isso o torna único no panteão de filmes de criança.

Há grandes spoilers de Como Treinar Seu Dragão 2 daqui pra frente, então esteja avisado.

Cinco minutos de filme, que começa com Soluço rejeitando o desejo do pai de se tornar o novo líder, eu estava murmurando, "Que a Astrid seja a nova líder, que a Astrid seja a nova líder." Quer dizer, essa é obviamente a melhor solução possível para a vida de todos, certo?

Mas porque esse é um "Encantador" de Dragões, não Encantador de Baleias, nós temos a narrativa padrão sobre a expansão do heroísmo do Soluço - mais ou menos. A única coisa sobre o personagem do Soluço nesse filme é que ele não passa por nenhum, bem, desenvolvimento. Enquanto a narrativa enfatiza que pessoas podem mudar, o próprio Soluço não muda tanto. Mas isso funciona nesse filme, porque Como Treinar Seu Dragão 2 é menos um arco tradicional de coming-of-age sobre um personagem aprendendo a aceitar responsabilidade e encontrar seu lugar, e mais um arco coletivo sobre uma comunidade inteira desenvolvendo e mudando junto.

Como personagem, Soluço é, talvez, um dos mais feministas e progressivos heróis homens na história do cinema. Ele é um personagem que consistentemente rejeita, várias e várias vezes, a ideia de que a violência é a solução em situações de conflito. Ele é um personagem que ativamente pratica empatia e, é claro, conservadorismo ativo. Ele é um personagem deficiente que não só se adapta a sua deficiência sem perder nada que o faz especial, mas que vê isso como algo para se sentir orgulhoso, que celebra como algo que o faz especial e dá algo mais em comum com seu melhor amigo.

Ao mesmo tempo, enquanto Soluço está indo em uma jornada de descoberta, sua contraparte feminina Astrid está ocupada rejeitando ordens e fazendo as próprias coisas. Depois que Soluço falha na primeira e segunda tentativa de achar o vilão Drago, ele acaba saindo do caminho por causa do encontro com sua mãe e escorrega para a inação. Enquanto isso, Astrid faz a decisão totalmente independente de alistar a ajuda dos caçadores de dragões e/ou segui-los até Drago. Sem essa ação, o Time da Paz nunca teria encontrado Drago, a trama do terceiro ato nunca teria acontecido, e Eret nunca teria mudado de lado e ajudado a libertar os caçadores de dragão e derrotar o cara do mal.


E como um extra: quanta química Astrid e Soluço têm? Qual foi a última vez que você viu um casal em um filme animado ter tanto desse afeto casual e interação corporal que não foi deliberadamente armada para um encontro fofinho? Talvez Shrek? Talvez nunca. Foi ótimo.



E ainda há a gloriosa demonstração casual da sexualidade da Cabeçaquente em cena:


Sexualidade feminina nunca é vista como vergonha ou reprimida em Como Treinar Seu Dragão 2. Adicionalmente, como ladygeekgirl mostra em sua análise inteligente do filme, as mulheres da DreamWorks, diferente das mulheres de Frozen, têm rostos que são realmente diferentes um do outro.


As mulheres de Frozen - mães e as duas filhas supostamente não idênticas:



E as mulheres de Como Treinar Seu Dragão 2, todas não relacionadas:


Cada uma delas não só tem um rosto único, como cada uma também tem seu próprio pôster promocional do filme - outro momento "quando foi a última vez...?" para a DreamWorks.

Isso nos leva ao tratamento do filme para a mãe do Soluço.

Em absolutamente qualquer outra versão de Hollywood para a narrativa de Como Treinar Seu Dragão 2, Soluço reencontrar sua mãe depois de duas décadas de ausência resultaria em explicitamente envergonha-la por suas escolhas e uma prolongada confrontação sobre "como você pôde me abandonar?" que provavelmente terminaria com ela chorando e Soluço eventualmente aceitando e perdoando a ausência inexplicável dela por todo esse tempo.

Em vez disso, Soluço instantaneamente e imediatamente reconhece que as escolhas de sua mãe foram escolhas próprias dela, e que elas obviamente têm valor e são importantes. Em nenhum ponto a narrativa fez Valka se envergonhar por rejeitar seu papel como mãe e dona de casa. Em vez disso, ela não só faz a entrada mais legal, como basicamente foi apresentada como a personagem mais inacreditavelmente incrível que nós vemos em filmes animados há eras:


Adicionalmente, o filme totalmente valida suas escolhas tornando-a cuidadora de um parque de dragões ao ar livre incrível, e apresentando a escolha de retornar à sua família como uma escolha que validaria todas as escolhas anteriores de deixa-los para trás.

Em absolutamente todas as outras versões de Hollywood da narrativa de Dragão 2, a mãe do Soluço seria brevemente unida com seu marido e filho, apenas para morrer tragicamente na próxima grande batalha, para dar a eles um drama de homem extra e criando mais combustível para a vingança definitiva da morte dela.

Em absolutamente todas as outras versões de Hollywood da narrativa de Dragão 2, teria sido Valka a sacrificar a vida por seu filho em vez de Stoico. Vamos chamar isso de Síndrome Lily Potter.

Mas em vez disso, o filme na verdade mostra o quão problemático o trope de matar a mulher para mais drama de homem realmente é, usando sua presumidamente morte anterior como catalisador de toda a vingança mal direcionada do Stoico contra os dragões. Nós sabemos quão dispensiosa e errada era essa raiva mal direcionada porque isso foi trabalhado por todo o primeiro filme.

Adicionalmente, em vez de correr atrás de vingança depois da morte do Stoico, nós vemos Valka e Soluço ambos rejeitando a ideia de que tal motivação para violência traria algo além de dor para Berk e eles mesmos. Até a última cena que eles estão juntos, Soluço está tentando argumentar com Drago; cada uma de suas ações vem de um posicionamento de comunicação não-violenta.

Reconhecer isso é absolutamente central para qualquer tipo de leitura efeita de Como Treinar o Seu Dragão. Essa é literalmente uma frânquia que pegou notoriamente o maior estereótipo de fanáticos por guerra, a cultura Viking, e gradualmente a transformou até que seus personagens não apenas se negam a usar violência como solução, mas orgulhosamente se proclamam como uma "terra de paz." Essa é uma narrativa inacreditavelmente radical e transformadora para um filme de Hollywood entregar, ainda mais um filme infantil de Hollywood. A frânquia de Como Treinar o Seu Dragão agora se junta a Avatar: O Último Mestre do Ar como uma das únicas frânquias animadas a se comprometer tão profundamente a tão polorizada postura política.

O texto da Dissolve parece ignorar completamente esse aspecto de Dragão 2. Em nenhum ponto os personagens homens são agressores contra Drago. Apesar de falarem sobre isso, eles nunca realmente agem violentamente a não ser para defender seu lar da invasão. Na verdade, a única pessoa a atacar Drago primeiro é Valka, que bate nele em uma explosão de raiva depois de assistir o gigante Alfa ser assassinado. A despeito do que o texto da Dissolve especula, parece evidente que Valka nunca realmente lutou fisicamente com Drago ela mesma. Quando chega a hora de realmente atacar fisicamente, ela não vai mais longe do que cutucar ele com sua vara algumas vezes.

Valka nunca planejou ser um oponente físico sério para Drago, nem ela deveria, porque toda a razão do personagem dela ser alinhado com o de seu filho é para personificar a postura progressiva anti-violência da nação Viking. Desculpa se Valka estava muito ocupada trabalhando como uma zoologista para se tornar a gloriosa guerreira-heroína-soldado que aparentemente torna uma personagem feminina forte o bastante para você, Dissolve. Em vez disso, ela passa anos subversivamente resgatando dragões de caçadores como uma ativista radical do Greenpeace, e ela é quem lidera um enorme exército de dragões na batalha contra Drago.


E falando nisso, quando foi a última vez que você viu uma mãe e um filho lado a lado em uma batalha juntos? Outro ponto pra você, DreamWorks.


Enquanto é verdade que ela foi resgatada pelo seu marido, o mesmo se aplica a todos em sua família. Eles passam o filme correndo tentando proteger um o outro: Stoico salva Soluço, Valka e Soluço outra vez; Valka salva Banguela, Banguela salva Soluço, e então Soluço e Banguela salvam todo mundo.

Ainda mais significante, enquanto é verdade que ela não faz muito no terceiro ato, ela não precisa. Ela não precisa porque diferente de 90 porcento dos outros filmes de Hollywood, Dragão 2 é um universo com mais de uma mulher nele. E como resultado, há uma variedade de mulheres que fazem uma variedade de coisas. Valka não precisa ser uma toda-poderosa-guerreira-soldado, porque Astrid e Cabeçaquente estão lá fora derrubando sulfúrio inflamável no inimigo e no geral provando que mulheres podem ser duronas no campo de batalha. Valka prova que mulheres podem ser duronas como ativistas e cientistas e até, sim, como mães, também.

A leitura do Dissolve de Como Treinar o Seu Dragão 2 deixa de ver completamente múltiplos modos de como o filme está tentando evitar o trope redutivo de que só os personagens fortes são os que lutam. Ao insistir que Valka é fraca porque ela cai e precisa ser resgatada pelo marido, Dissolve está falhando em sua própria mensura de força, considerando que ela é a única personagem que realmente é o agressor contra Drago a qualquer momento. Mas mais ainda, está falhando em considerar o propósito inteiro do filme, que é que violência não é o caminho, e que humanos e dragões precisam resgatar um o outro.

Por último, o que expande em Como Treinar o Seu Dragão não é o crescimento e a compreensão do personagem central, mas o mundo inteiro. Soluço muda de explorar e mapear o mundo físico do filme para ativamente unir as pessoas que vivem nele. Sua mãe, que por todos os padrões de tropes de narrativa deveria ter sido assassinada em um gesto de auto-sacrifício no fim do segundo ato, em vez disso termina o filme vendo o trabalho de sua vida toda se realizar de uma maneira que ela nunca imaginou que fosse possível.

Como uma narrativa de empoderamento da mulher, nós achamos isso definitivamente satisfatório.

O próximo texto é uma análise incrível de uma pessoa maravilhosa sobre esses textos. 
Aguarde a conclusão! Veja os outros 2 textos abaixo


Parte 3: A Guerra das Mulheres Fortes

Informações finais extras:
No texto ela se refere a tropes famosos e rolou uma dúvida: usar o nome do trope em inglês ou procurar um relativo em português? Escolhi o segundo, porque o principal objetivo de traduzir esses textos é ter esse tipo de conteúdo em português. Mas caso alguém queira pesquisar mais sobre os tropes ou usar a tradução, aqui está:


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