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Sangue Quente: quando o filme agrada mais que o livro

2.8.14Paulo V. Santana


A minha história com “Sangue Quente” é complicada. Antes mesmo da estreia do filme, tentei ler o livro duas ou três vezes, sem conseguir seguir adiante. O início me parecia chato e toda a ideia de um zumbi se apaixonando não entrava na minha cabeça. A Dana, aqui do ConversaCult, falou várias vezes que eu deveria deixar o preconceito de lado porque era muito bom, e eu dava a minha resposta padrão: “um dia eu vou ler”. Demorou, mas acabei lendo - só não posso garantir que foi a melhor das experiências.

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Capa do livro, pôster do filme

Os zumbis são “queridinhos” de muita gente e nós até fizemos um especial no blog, em outubro de 2012, mas eu não sou um desses. Para falar a verdade, lembro vagamente de histórias que li ou assisti que tenham zumbis. “Guerra Mundial Z” foi um filme que eu gostei, e essa deve ter sido uma das minhas únicas experiências. Enfim, dificilmente tenho contato com zumbis (que bom, né) e uma história em que um morto-vivo se apaixona por uma pessoa viva não me parecia o tipo de coisa que eu morro de vontade de conhecer um dia. 

Eu já tinha desistido do livro, até que eu e minhas amigas decidimos assistir à adaptação cinematográfica, que recebeu o belo título “Meu namorado é um zumbi” aqui no Brasil. Nossa expectativa era puramente cômica, pretendíamos assistir a um filme ruim para nos divertir. No entanto, ele acabou sendo uma boa surpresa, pelo menos para mim.

Não, R, a surpresa não foi porque você está morto.

Convenhamos, poucas pessoas levariam um Romeu e Julieta versão zumbi a sério. Nenhum argumento vai fazer soar menos estranho e é preciso saber como executar a ideia para convencer o espectador. Felizmente, o filme conseguiu me conquistar. Já nos primeiros minutos, com o R, zumbi que protagoniza a história, se apresentando e falando sobre a vida de um morto-vivo, quebrei o bloqueio com a história. 

Interpretado pelo Nicholas Hoult, o R (ele não consegue se lembrar de nada além da primeira letra do nome, então se apresenta dessa forma) passa uma imagem simpática e rapidamente senti empatia pelo personagem. Até o uso da narração em off, que costumo não gostar, foi positivo. Zumbis não falam, e essa foi uma solução adequada para conhecermos os pesamentos do protagonista. O discurso do R me atraiu, principalmente, pelo seu tom. Há humor na sua fala e é interessante olhar pelo ponto de vista do morto-vivo. 

No mundo apresentado, a humanidade entrou em colapso e surgiu uma praga zumbi que amedronta todos. Os vivos encontraram formas de sobreviver e criaram uma espécie de cidade dentro de um estádio, enquanto o R e vários outros zumbis habitam um aeroporto abandonado, seguindo uma rotina de vagar por aí e, de vez em quando, sair para se alimentar de humanos. A situação começa a mudar para o R em uma caçada, quando ele encontra uma menina, a Julie (Teresa Palmer), e sente tudo, menos o desejo de matá-la. 

Isso acontece depois que ele ingere o cérebro de um cara que era o namorado da Julie. Os zumbis precisam da energia da carne humana para continuar em seu estado, porém, o cérebro é especial. Essa parte do corpo tão valorizada disponibiliza a quem come todas as lembranças e pensamentos que pertenciam à vítima. Ao se alimentar do tal cérebro, nasce no R um instinto de proteção pela Julie. Então, para mantê-la segura, ela a leva ao aeroporto onde vive. Dessa relação inesperada surge um sentimento ainda mais inesperado, o amor, que acaba sendo a fagulha para uma grande mudança.  

R demonstrando como eu fico falando com alguém legal.

Dentro do contexto, o romance entre um zumbi e uma garota viva é crível e faz sentido. Grande parte do meu julgamento inicial partiu da ideia de que zumbis são somente aquelas criaturas nojentas com órgãos a mostra ou sei lá o quê, mas a visão muda quando você olha pelos olhos da criatura. É como ver um vilão e achar que ele é simplesmente mal, sendo que há motivos para as ações ruins. Dificilmente paramos para pensar como um zumbi ou vilão se veem, não é mesmo? Gosto da humanização de personagens e dessa mudança de perspectiva, o que é mais marcante no livro. 

Além disso, há vários graus de decomposição entre os mortos-vivos. O R se encontra num estágio inicial, tanto é que passou por vivo depois de um banho e com um pouco de maquiagem. Por outro lado, há também os que são chamados de “Ossudos”, zumbis que desistiram completamente de tudo e funcionam como os verdadeiros vilões da trama. Eles são realmente feios e não há nem como diferenciá-los, já que restaram apenas os ossos e músculos ressecados.

O final do filme pode não ter sido inovador, mas ele tem o seu mérito. O longa foi bem consistente e me agradou, levando quatro estrelas. Depois desse bom resultado, quebrei de vez o preconceito e tirei “Sangue Quente” da estante. 

Eu também, R, eu também...

A leitura começou me empolgando, porém, a cada página o sentimento ia embora e só terminei o livro porque queria que acabasse de uma vez. Gostaria de fazer vários elogios ao romance, mas não consigo. Enquanto o filme foi super divertido, o livro foi... chato. 

Classifiquei como duas estrelas, já que não foi a pior coisa que li. A primeira parte é ótima, aliás. Começa de forma bem parecida com o filme, que apenas enxugou detalhes da história que considero desnecessários, como a esposa e os filhos zumbis do R. Uma das coisas que mais distingue livro e filme é que o primeiro é muito mais denso e se aprofunda em questões interessantes sobre a vida. Por mais que o filme seja pelo ponto de vista do R, a narrativa em primeira pessoa, como é de praxe, permite que fiquemos ainda mais próximo do protagonista.

Enquanto eu lia, percebi que o romance entre o R e a Julie ganhou tanto destaque na apresentação da história por conta da interpretação equivocada da sinopse e também pelo marketing do filme, porque esse não é o cerne da história. O amor é o elemento que permite a solução do problema, porém, a narrativa problematiza a vida como um todo.  

Uma conversa interessante.

Dizer que eu queria ter amado do livro pode ser clichê, só que é assim que me sinto. Eu realmente poderia ter gostado, o grande problema foi a perda de ritmo. A cada capítulo que passava, a narrativa se arrastava ainda mais e crescia a vontade de largar. É normal um livro não ser tão ágil quanto um filme por conta do tempo de tela, mas imagino que um desenvolvimento e um desfecho mais diretos contribuiriam positivamente. 

Não posso desmerecer o bom trabalho do Isaac Marion, autor do livro, até porque a história que assistimos na tela veio da cabeça dele. No entanto, a forma como a história é contada foi crucial. A adaptação é muito mais dinâmica e faz bom uso do humor, e tudo isso a tornou mais divertida e agradável de assistir. Mesmo que o livro elabore de forma muito interessante as questões sobre existência e amor, o filme foi muito mais prazeroso. Se eu tivesse que escolher entre ler ou assistir novamente, com certeza optaria por “Meu namorado é um zumbi”

“Será que as minhas palavras são audíveis ou são apenas um eco em minha cabeça enquanto as pessoas olham para mim e esperam? Quero mudar a minha pontuação. Quero pontos de exclamação, mas estou me afogando em elipses”

P.S.: Acabei de lembrar que tem a Dana traduziu a sessão de perguntas do site do Isaac Marion e agora estou ainda mais triste por não ter gostado do livro. Ele é uma pessoa SUPER bacana, de verdade. A resposta do autor sobre o que achou do filme é justamente o que eu penso sobre adaptações de livros e o conselho que ele dá para jovens escritores é muito interessante. Leia aqui. (Bônus: ele é bem bonito!)


Até a próxima, R!

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1 comentários

  1. Paulo <3 Acho que essa é a melhor resenha do filme que eu já vi e ainda foi legal de ler. Nem todo mundo tem a capacidade de ler... HUAHUAH Brincadeira, mas falando sério: é legal ver as diferentes perspectivas que as pessoas têm da mesma história. E foi uma forma ótima de relembrar tudo, deu até vontade de escrever sobre o livro.

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