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Um peso chamado tenho 20 anos

18.3.16Isabelle Fernandes


Começo esse post dizendo que: não deseje ter 18 anos logo. Porque depois que você passar dessa idade, você vai estar desejando ter menos que isso de novo.

E é engraçado, porque passamos toda a nossa infância e adolescência desejando envelhecer. A gente olha pra faixa dos 20 anos com brilho nos olhos, como se com essa idade já teremos conquistado tudo - ou pelo menos no caminho certo pra conquistar - e os problemas seriam corriqueiros. Lembro que quando eu era pré-adolescente e fazia aquelas brincadeiras malucas de garota no estilo "Com que idade você vai casar", eu sempre escolhia 24 anos. Aí no resto da brincadeira saia coisas como dois filhos, casada com um moreno, morando numa mansão etc (alguém mais aí conhece esse negócio?) (não vamos comentar sobre o quanto isso sinaliza o que se espera das meninas). Claro que eu não acreditava que seria milionária com essa idade (só tinha uma vaga esperancinha, sabem como é HGUDHGIFHIG) mas achava que já teria minha vida encaminhada. Teria um emprego incrível, estaria casada ou com um noivo e seria independente. Só felicidade.

Hoje tenho 22 e a minha vida é um misto de confusão, tristeza e desamparo.

Confusão, porque eu não sei o que fazer. Não consigo arrumar um emprego, o que significa que não posso bancar as coisas que quero/preciso fazer como uma pós e dar conta dos meus próprios gastos mensais (você pode viver da forma mais privada possível, mas só o fato de você existir exige o mínimo de dinheiro). Além disso, passei a maior parte da minha faculdade em dúvida se eu queria mesmo seguir na profissão de psicóloga, terminei o curso e ainda tenho essa dúvida. E o pior é que não tenho ideia de qual seria a alternativa. Eu já pensei em tudo, de professora a escritora mas eu logo broxo porque tudo parece impossível ou que não se encaixa comigo. Nas últimas semanas eu por fim resolvi que ia seguir no que eu mal ou bem investi por 5 anos e escolhi a área que mais me deixa empolgada que é a neuropsicologia/neurociências. Mas não tenho dinheiro pra bancar workshops, especializações e pós, então...

Esta gif retrata perfeitamente bem como eu me sinto com isso tudo

Desamparo, porque me sinto sozinha. Passei toda a minha vida ouvindo dos meus avós que eles sempre fariam o que estivesse ao alcance deles pra me apoiar no que eu quisesse fazer, que sempre me dariam apoio financeiro e hoje isso está voltando contra mim. Se eu não faço o que a minha avó quer, se eu a desagrado, viro a ingrata. Não dou valor ao esforço que ela faz por mim, desperdiço o dinheiro dela. Some isso ao fato de já me sentir culpada sem precisar dessas gentis lembranças e você tem a tristeza. Mas o que eu posso fazer? Não posso anular minha existência - ou melhor, até posso, mas velórios e funerais tem despesas absurdas. Até na minha morte eu seria um peso, observem.

Ter uma carreira, sustentar a mim mesma e a uma casa me parecem coisas grandiosas, inalcançáveis. Vou nem entrar muito na parte amorosa porque já são outros quinhentos e não depende só de mim, mas é outro fator de frustração. Já até refleti se a minha vontade de encontrar um parceiro vem do que a sociedade prega ou se é uma vontade minha de verdade, mas concluí que é a segunda opção. Eu poderia escolher ser solteira, mas pra quê? A vida é mais interessante com pessoas e ter alguém com quem eu possa dividi-la (de uma forma diferente da qual eu a divido com amigos) me acrescentaria mais do que subtrairia. Mas isso tem sido difícil em diferentes níveis que talvez eu comente mais em outro post.

Aí além da pressão familiar e da que vem de mim mesma, vem a da sociedade. Olho pros meus colegas e a maioria parece ter metas definidas. A maioria tem casa própria (mesmo que não seja deles exatamente, é dos pais), tem uma situação financeira estável o suficiente e já estão começando a trilha um caminho para as suas realizações. Eu tento não fazer isso, mas é quase impossível não me comparar a eles. Ao mesmo tempo, ouço o tempo inteiro que preciso arrumar um emprego, que preciso estudar, que não posso parar nunca. Tenho que ajudar meus avós, afinal eles me ajudaram a vida inteira. Também tenho que ter uma vida social e afetiva, vejam só. Tenho que me divertir, mas tenho que estar no batente no dia seguinte. Tenho que me virar pra equilibrar tudo isso e não ter um colapso. Quem não consegue tudo não se esforça, não se preocupa consigo mesmo, é ingrato. É um peso.

Difício

Pra mim essa é a maior merda de estar na faixa dos 20: nada mais é tolerável ou compreensível. Você precisa começar a se sustentar e se tornar independente. Se você não consegue isso, pronto, virou um peso. É como se você devesse algo às pessoas que te criaram e agora precisasse reaver tudo do que eles precisaram abrir mão por você. 

Mas...eu não pedi pra nascer. Eu não pedi por nada disso, por nenhum sacrifício, por nenhum adiamento de sonhos, por nenhuma noite insone ou pelos rios de dinheiro gastos. Nenhum de nós pediu por isso, mas temos que arcar com tudo quando nos tornamos adultos. Isso se somos adultos mesmo.

Quer dizer, aprendemos que ser adulto é arcar com as consequências dos seus atos e ser capaz de se sustentar sozinho. Então com base na segunda afirmação eu ainda não sou adulta. Mas também não sou adolescente. Atualmente eu tenho uma certa liberdade não só diante da lei, mas também diante da minha avó. Ela não pode me proibir de fazer algo, apenas orientar que seria melhor não fazer e cabe a mim levar em consideração ou não. Eu assino meus próprios documentos, viajo sozinha sem autorização e decido o que eu vou fazer na minha vida, mesmo que na prática eu na verdade não possa fazer o que eu quero.

O que diabos eu sou?

"Eu não sei o que eu to fazendo, não sei pra onde to indo"
Eu o tempo inteiro

Talvez esse seja o enigma dos 20 anos (ou não. já até escrevi um post sobre isso)

De toda forma, aqui estou eu. Não dá pra voltar a ser adolescente ou criança, então o que me resta é fazer o melhor possível com a idade que eu tenho agora e evitar pensar no futuro de forma muito negativa. Talvez quando eu tiver 40 anos eu me lembre de tudo isso e caia na gargalhada pensando "AI Q BESTA MDS". Talvez eu pense que todos os meus medos eram só exagero e que no fim das contas as coisas começaram a se encaixar, ou eu aprendi a encaixar as coisas da melhor forma possível. Prefiro pensar assim, porque o presente já tá nebuloso o suficiente.

Essas são as minhas dificuldades com os 20 anos, talvez outras pessoas tenham dificuldades diferentes, mas tenho percebido um certo padrão em todo mundo. Sempre tem algum problema com a família, com o dinheiro, com a profissão/estudos, com o legado no mundo ou tudo junto, mas pelo menos um deles aparecem. Então por um lado eu fico meio aliviada por não ser a única, mas também fico pensando: que merda de sociedade é essa, né gente? Aí me vem a resposta, bem simples: é a sociedade que herdamos.

No fim do dia nós apenas sobrevivemos.

Eu cansei de só sobreviver.

Porque aí que sociedade a próxima geração vai herdar?

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10 comentários

  1. Só li verdades. E saiba que você não está sozinha nessa

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    1. Não tá mesmo. E a tendência é só piorar, sem querer ser muito pessimista.

      Um peso chamado tenho 30 anos e ainda não tenho estruturas pra lidar com a vida.

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    2. Começo a achar que nunca vamos ter e que a vida se resume a dar cabeçadas sem saber no que vai dar q

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  2. Putz, tenho 21 anos e também tenho esses dramas existencialistas de vez em quando. Na maioria das vezes prefiro abstrair, deixar a vida me levar, viver um dia de cada vez e não sofrer por antecipação. Tá, confesso que sou uma procrastinadora nata, mas isso ajuda. Só não dá muito certo quando a faculdade dá a louca com seminários, trabalhos e provas e aí tenho que depender de outras pessoas. Depender de outras pessoas é uma merda, já basta você ter que dar conta de si mesma, saca... Enfim, foi um desabafo-saiba-que-não-está-sozinha ����

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    1. Sobre ser uma procrastinadora nata: SIM!!!! Talvez seja isso que nos mantém minimante sãs, porque se parar pra se concentrar nas tretas....

      E sei bem o que é isso de depender das outras pessoas. Meu sonho é ser toda autossuficiente, mas pra falar verdade isso é impossível porque sempre vamos depender de alguém, minimamente </3

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  3. Eu passo por isso desde ano passado e é realmente desesperador. Eu vejo quase todo mundo que conheço trabalhando, namorando e declarando seu amor nas redes sociais pela faculdade que faz. E enquanto isso eu to aqui desempregada, solteira e sem nenhuma ideia do que quero fazer na faculdade e na vida.E como você mesma fala no texto nunca nada parece se encaixar e quando a gente encontra algo que talvez possa, esse algo parece distante e impossível.
    Eu tento me tranquilizar e me focar em arranjar um emprego porque se eu conseguir um já tenho algo para fazer além de passar os dias em casa refletindo sobre a vida e não chegando em lugar nenhum. E consequentemente vou parar de me sentir um peso pro meus pais.
    Só que ai estamos no meio de uma crise financeira que diminuiu bastante o numero de vagas de emprego e isso diminui ainda mais minhas chances de arranjar trabalho como se minhas péssimas habilidades sociais que me fazem sempre falhar em entrevistas de emprego já não bastassem.
    Eu tento acreditar que tudo vai ficar melhor e isso é só uma fase ruim mas as vezes parece que a vida vai ser uma eterna crise existencial e que quando eu sair dessa eu provavelmente vou arranjar outra coisa para me fazer entrar em uma nova crise de novo.
    E eu sei que pode ser meio egoísta mas o que mas me acalma é saber que tem gente na mesma situação que eu e eu não to sozinha.

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    1. Saber que não é a única dá meio que um alento. É como isso provasse que o problema não é você, é algo externo. Só que aí como é que a gente lida com alguma coisa que é externa a nós? Complicado. Tomara que a gente ache um jeito xD

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  4. Ahhr! Tô nos meus 20, terminei faculdade e ainda não tenho emprego e vivo em pânico porque não consigo achar um. Eu me comparo com meus amigos que se formaram com louvor e que já estão trabalhando e me sinto muito, muito mal. Na minha casa sou a única pessoa que ainda não trabalha. Eu sinto um grande peso nas costas por causa disso. Quando mais nova também imaginava que nesta idade estaria namorando, trabalhando e com um sorriso no rosto. Não tenho nada disso por enquanto. O que eu faço é lavar a louça, enviar currículo e visitar a minha psicóloga. Além do mais, sou tímida. E como Thalia Passos comentou, também tenho péssimas habilidades sociais e não tenho ninguém que possa dizer "ei, eu posso te ajudar, me passa seu currículo" ou coisa assim. Meus 20 anos não parecem nada com os retratos aventureiros do cinema. Pelo contrário, são anos solitários, desolados. As amizades seguiram seus caminhos e agora só vejo essas pessoas nas minhas lembranças. E me sinto tão mal por ainda não ter resolvido a minha vida que tenho vergonha de me relacionar com outras pessoas e ter que expor o tipo de alma confusa que sou. Confusa e desempregada. Eu sinto vergonha. Eu só queria ser como aquelas pessoas que não se preocupam tanto com a vida e dizem "foda-se"... Mas não sou.

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    1. Foda, né?

      Mas sabe o que mais? Tenho certeza que essas pessoas que mostram essa postura na verdade tão se corroendo por dentro. Não tem como você estar desempregada e perdida na vida e não passar por todas essas coisas (a não ser que você seja muito rica, aí já é uma preocupação a menos e olha só, dá pra fazer tudo o que der vontade!!! q).

      E olha, muitas vezes eu também sinto essa vergonha, principalmente quando vejo meus colegas no curso de inglês compartilhando de suas metas, mas não deixe isso impedir você de se aproximar das pessoas. Tenho aprendido nos últimos anos que os amigos salvam a nossa vida, se eu não os tivesse acho que nem estava mais aqui.

      Então, respira fundo e aproveita essa ociosidade toda horrível que o desemprego dá pra fazer as coisas que você gosta, investir em si mesma e tals. Ajuda bastante, trust me <3

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  5. ola. eu tenho 20n anos e tbm me seinto desta forma , confusa demais ...
    vcs nao sao as unicas meninas.

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