A Seleção CCAnálise

Distopia e o extremismo

20.3.15Dana Martins


Já reparou como cada livro distópico pega algo do mundo real e mostra sob uma ótica negativa extremista? 

Divergente é a distopia da identidade, Jogos Vorazes é a distopia da empatia, A Seleção é a distopia do romance, Fahrenhei 451 é a distopia da felicidade, 1984 é a distopia da liberdade, The Legend of Korra é a distopia do poder, Maze Runner é a distopia da juventude como futuro, O Doador de Memórias é a distopia da paz... Algumas histórias, mesmo que não sejam plenamente distópicas, lidam com elementos distópicos, tipo Jogador Número 1 que cria uma distopia da liberdade (na internet). 

Cada livro distópico pega um aspecto da nossa sociedade, isola e leva a um extremo. Eu ia dizer que é como um enorme "o que pode dar errado", tipo Fahrenhei 451, que mostra uma sociedade futurista que se preocupou tanto com a felicidade que começou a abrir mão de qualquer coisa que perturbasse as pessoas, tipo o conhecimento. E se chegasse ao ponto em que fizéssemos isso?



A questão é que por mais que esses livros se passem em um futuro, do tipo "olha a merda que pode dar se a gente continuar fazendo isso", eles são mais sobre uma versão do presente. Todos eles. Todos eles pegam aspectos da nossa sociedade atual, coisas que estão acontecendo agora, e questionam por que isso existe. Os livros, é claro, transformam isso em uma escala maior focando nos aspectos negativos. 

Talvez a maior diferença entre realidade e ficção distópica é que no universo fictício não há opção, são mais totalitaristas. Ah! E que no mundo real todas essas distopias acontecem ao mesmo tempo.

Vou usar de exemplo A Seleção, que eu só aprendi a ver melhor com esse texto. É uma história em um país (reino?) futuro dividido em castas rígidas onde a melhor forma de uma garota pobre passar a viver bem é participando de um reality show para casar com o príncipe. No mundo real não existe nenhum reality show, nossas classes sociais não são tão fechadas..

Porém.



Apesar de não existir nenhuma lei que te marca com um número de casta, não é tão simples assim mudar de classe social. Existe a ideia de que você pode, o que não significa que vá acontecer, porque se você é pobre não pode ter acesso ao mesmo ensino, às mesmas oportunidades e sofre preconceito. Aqui no Rio tem um pequeno bairro que é dividido por uma pista. De um lado, há prédios enormes, brilhantes, com piscina, quadra de tênis e todas essas coisas. Há, inclusive, uma área fechada com um campo de golfe enorme. Quando você passa dá pra ver por trás do portão a grama verdinha que parece intocada. Do outro lado é um amontoado de tijolo colorido que sobe morro acima, casa em cima de casa, e tem como portaria um monte de barraquinhas com gente andando pra todo lado. Vai dizer que não existe uma divisão?

O mesmo serve para o romance, já que A Seleção da Kierra Cass é uma distopia do romance. Agora as mulheres têm mais a chance de estudar e conquistar o próprio emprego, quem sabe conseguir um trabalho que vai fazê-la cruzar a pista dos barraquinhos para os prédios. Mas nem sempre foi assim. A única forma da mulher mudar de lado na pista era ela se casando com um cara rico. (e em muitos lugares isso continua sendo regra)

Basicamente, enquanto o homem trabalha pra se dar bem na vida, a mulher casa. O que nos leva a mil consequências, tipo uma competição para ser a mais bonita e conquistar o cara. Parece até um reality show... 

Eu não li o 3º livro ainda de A Seleção e nem acho que a Kiera Cass tenha focado tanto em discutir essas coisas, mas essa é a base da distopia da trilogia. O fato de como a nossa cultura faz as mulheres viverem em uma disputa pelo melhor homem. O fato de que às vezes não é nem questão de amor, é de precisar disso para poder viver sem morrer de fome. E mesmo que não seja uma discussão tradicional, A Seleção transporta muito dessa dinâmica do mundo real para as páginas. A gente só não está acostumado a ver o romance / disputa para casar como um aspecto relevante da nossa estrutura social, porque isso faz parte do mundo das mulheres e não são as mulheres que dizem o que tem valor. 

Eu levei um tempo (desde 2012!!!) pensando sobre distopia e cada vez descubro mais sobre esse tipo de história. Faz séculos que eu quero escrever sobre esse lado extremista da distopia, de como cada livro distópico é diferente do outro, porque eles pegam aspectos diferentes da nossa estrutura social para questionar. Você pode até ter semelhanças, tipo Divergente e Doador de Memórias com a mesma seleção no início, os mesmos governos opressores e muitos outros problemas, mas a mensagem principal de cada um é diferente.

-dana martins






TAGS: , , , , , , , , ,

Mostre para o autor o que você achou Recomende:

MAIS CONVERSAS QUE VOCÊ VAI GOSTAR

1 comentários

  1. Oi Dana!

    Logo que você disse que Divergente é a distopia da identidade me veio um estalo. Tipo eu tenho a idade da Tris quando ela tem que escolher sua facção, e eu não me sinto preparada nem para escolher a faculdade que quero fazer no próximo ano, que é uma coisa que posso mudar, dirá escolher uma facção que é o que tu vai fazer o resto da vida (se passar na iniciação) ou a menos que se rebele e se torne um sem facção,que é uma grande vergonha ara eles no primeiro livro. E isso me lembra essa fase da adolescência/juventude, que a gente fica rotulando aos outros e a si e é rotulado querendo ou não, nessa criação de identidade nessa descoberta de "o que diabos eu tô fazendo? quem eu sou?". E talvez esse nem tenha sido a ideia da Veronica, mas tipo a trilogia pega um pouco disso, [SPOILER DE CONVERGENTE] e no ultimo livro quando a gente descobre sobre os GD e GP é como dizer "tá tudo bem sentir que não se encaixa em facção nenhuma" [FIM DO SPOILER DE CONVERGENTE].

    ResponderExcluir

Posts Populares

INSTAGRAM


Instagram

FALE COM A GENTE!

Nome

E-mail *

Mensagem *