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Discussão: Esse livro é ou não é distópico?

27.9.12Dana Martins


Oi todo mundo! Semana passada eu vim aqui mostrar que há duas formas de se ver a distopia e é por isso que muita gente se confunde na hora de definir se um livro/filme é realmente distópico ou não. Se você ainda se confunde, sugiro dar uma lida, porque vai ser importante para esse post aqui. Hoje eu vou falar de alguns livros que eu sempre vejo parar em discussão de "é ou não é" e responder de acordo com as definições. Vambora!

Distopia em histórias, de acordo com a primeira definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema (tipo de organização da sociedade) extremamente ruim. Seja lá o que você chamar de ruim. Em cenários normalmente relacionados à ficção científica.
Distopia em histórias, de acordo com a segunda definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema que limite a liberdade de modo negativo e o foco do livro seja discutir/exemplificar isso.                                                                                 post discutindo

Gone - O Mundo Termina Aqui: Algumas pessoas dizem que Gone é distopia e até a Igra aqui do blog fala que existe uma "fagulha" disso na história. Se você usar a definição geral de "qualquer situação muito ruim", até vai, mas se usar a definição mais específica, não é. Gone é muito mais pós-apocalíptico. 

O "apocalipse" seria: o desaparecimento de todos os mais velhos e a bolha que prende todas as crianças naquele lugar. E a história é sobre as pessoas lidarem com esses problemas (fome, desordem, mutações que estão acontecendo...) e buscarem uma solução. 

Fórmula para reconhecer um livro pós-apocalíptico: Grande acontecimento com proporções negativas (escolha um aqui) + pessoas se virando nos 30 + busca por alguma "solução". 

Normalmente confundem histórias pós-apocalípticas com distopias por um simples detalhe: caos + busca por solução. O resultado disso muitas vezes é um "governo" frágil que lida com tudo na base da força (= problemas com liberdade). É o que acontece em Gone, quando um grupo de crianças tenta liderar o resto. Mas desde a uma briguinha entre quem vai liderar tudo no meio da confusão (pós-apocalíptico) até existir realmente um sistema instaurado que leva a uma discussão profunda sobre a falta de liberdade (livro distópico) é um longo caminho. 

Em algumas vezes, como acontece em Apocalipse Z: A Ira dos Justos (terceiro livro), vamos parar em um livro distópico dentro de um pós-apocalíptico. Não é impossível misturar os dois, principalmente quando o foco muda, mas ainda assim são duas coisas diferentes.

Só um comentário extra: Muitas vezes para justificar um sistema distópico no futuro, tipo em Jogos Vorazes, os autores colocam no passado um evento apocalíptico para destruir tudo o que nós conhecemos hoje em dia. Ainda assim, o livro não é pós-apocalíptico. E para existir uma distopia não precisa ter ocorrido nenhum evento pós-apocalíptico (há livros que nem explicam o que aconteceu, simplesmente existe a distopia). 

Eu chamaria do quê? Gone é pós-apocalíptico. Pelo menos o primeiro livro, é claro. 

Jogador Número 1: Esse eu conheci, aliás, como indicação de livro distópico. Eu já fiz uma discussão completa (Jogador Número 1 é distopia?), mas vou comentar aqui. Dentro da definição de "situação muito ruim" pode até ser distopia também, mas dentro da questão de liberdade não é. Ele tem a estrutura para enganar: uma corporação do mal ameaçando a liberdade e pessoas vivendo em má condição. Porém, as pessoas ainda têm liberdade, pelo menos quase tanta quanto nós temos agora. 

A questão central do livro é que a nova tecnologia, o OASIS, que permite que as pessoas vivam em um ambiente virtual utópico, causa a maior parte dos problemas ("high tech, low life"). Em vez de fazerem algumas coisas, as pessoas mendigam por uma oportunidade de entrar nesse mundo. Em vez de viverem, elas ficam lá. E isso, inclusive o estilo da história, encaixa certinho no Cyberpunk. 

Comentário extra (só para os fortes, risco de mindfuck): Esse livro é tão distópico quanto pós-apocalíptico, porque se só a ameça à liberdade já faz chamarem o livro de distópico, todo o cenário e os problemas do fim de combustíveis valeriam a definição como "pós-apocalíptico". Mas é como na aula de português da escola: tem isso, tem aquilo, mas o predominante é... Cyberpunk. 

Eu chamaria do quê? Jogador Número 1 é um cyberpunk YA. Aliás, o cyberpunk tinha força mesmo na década de 80... (para quem não sabe, o livro também é uma viagem pela cultura nerd da década de 80 e tem várias referências a obras cyberpunk)

Divergente: Esse a própria divulgação faz questão de gritar para todos os lados que é distopia. Mas é? (Um aviso: esse comentário é sobre o primeiro livro, Divergente, não a série/trilogia/o que inventarem). Dentro da definição distópica de "situação muito ruim"? Provavelmente não. Ninguém passa fome, todo mundo tem roupa, transporte e acesso ao tipo de conhecimento que precisa. Dá até para querer viver lá. Poderiam forçar por causa do cenário próximo de ficção científica, mas é mais fácil dizer que é só ficção científica.

Agora da definição de distopia mais específica? Mais ou menos. Eu acredito que a série possa se tornar distópica, mas o primeiro nem tanto. O foco do livro, como a maioria das histórias Young Adult, é a personagem descobrir quem é. Ela sai do nada, de um ambiente onde tudo é uniforme, e se define. Se não houvesse um detalhe e a deixa para outro livro, poderia ser apenas uma caricatura da nossa vida hoje em dia, ou uma espécie de metáfora com a moral de "encontre o seu próprio caminho". 

O lado distópico (dentro da segunda definição). O mundo de Divergente é assim: você pode fazer o que quiser, mas dentro dessas opções (as facções), de acordo com as regras delas e se você conseguir entrar para uma delas. Ou seja, começam os problemas com a liberdade. A Tris também vai descobrindo várias falhas nessa história toda e há um segredo importante. Só que o destaque não chega a isso, talvez com o desenrolar da série, a história caia mais para esse lado. Aliás, as pessoas foram divididas em facções na tentativa de criar um mundo ideal, quase uma utopia. 

Um comentário extra: Você pode me responder "tá, mas eles não podem desobedecer uma série de coisas". E você pode? Pode sair pegando algo em uma loja ou entrar em um restaurante fechado? Todo tipo de sociedade acaba se organizando com base nas restrições de algumas liberdades, o problema não é só cortar a liberdade, é cortar a tal ponto que proiba a pessoa de ser. E, até onde eu vi, a Beatrice só se tornou Tris com ajuda desse sistema (existe um detalhe especial* sobre ela, eu sei, mas ainda assim esse não é tão o foco do primeiro livro, né?). 

Um outro exemplo interessante, só para marcar, é de O Temor do Sábio. O livro não tem nada a ver com distopia e o personagem Kvothe viaja por lugares com culturas diferentes. Em um lugar você pode sorrir, no outro isso não é bem visto. Existe um lugar onde música é praticamente proibida. Vai dizer que virou distopia por causa disso? Não exatamente, faz parte da cultura em cada sociedade e eles vivem bem do seu jeito. Ou seja: existe uma diferença entre cultura que limita (para gente, andar com a cabeça coberta parece um absurdo) e a limitação causada por uma distopia. Só estou mostrando que a sociedade de Divergente, como é mostrada no primeiro livro, não é tão problemática assim**.
*SPOILER!!! detalhe especial: ela é divergente e isso é proibido. ela não pode ser quem é, mas esse não é exatamente o que é desenvolvido no primeiro livro. 
**SPOILER!!! O que ameaça, no final, é que alguns estão se aproveitando e querendo dominar. Não é um problema na sociedade em si.

Eu chamaria do quê? Apesar de não aceitar tão bem a definição para o primeiro livro, acaba sendo uma das melhores para se classificar Divergente. Eu não sou tão xiita assim e aceito quando há razões o bastante. 

Destino: Eu decidi falar desse livro só por exemplo, porque esse é bem pro lado distópico YA da coisa. Tanto na primeira definição (por todo o estilo de mundo supercontrolador) quanto na segunda definição. Como acontece em Divergente, encontramos a tentativa de criar o mundo perfeito. O problema aqui é que em vez de dividir cada um no seu estilo, decidem tornar todo mundo igual. Tem uma parte que eu não esqueço, um comentário alheio que ajuda na construção. A personagem principal diz que estão cortando as plantas nas ruas porque a de alguém estava maior (Um tem a planta maior que a do outro, inveja, problema...). Só que um universo onde você não pode divergir é um problema, não é? Principalmente por causa da forma como essas pessoas são excluídas da sociedade. Daí começa a história da personagem principal descobrindo esses problemas...

Comentário extra: Eu, sinceramente, não gostei tanto assim do livro. Ele é pequeno e a leitura é bem rápida, mas ainda assim não é o que eu chamaria de agradável, tanto que não tenho muita vontade de continuar a ler a série (ou trilogia, sei lá). No entanto, eu lembro de mais partes dele do que de outros livros que eu gostei. Apesar do foco na construção do mundo ser fraco, tem muito detalhe e coisa interessante para se discutir. 


Espero que esse post tenha ajudado a quem estava em dúvida sobre esses livros. Se você me perguntar qual o valor de toda essa discussão que fiz com esses dois posts, a resposta é simples: refletir. Quando você tenta encaixar os livros nessas definições e pensar de acordo com elas, você pensa sobre a história e sobre o que ela significa. Você pode ler só pra passar o tempo ou procurar o novo namorado fictício, mas também dá para aproveitar muita coisa se parar para pensar essas histórias.

Fique livre para divergir e olhe os links do veja mais tanto desse quanto do post de semana passada, trazem informações bem legais para quem gosta do assunto. (:

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1 comentários

  1. Olá, sociedade o/ kldsfgjkl

    Dana, eu adorei o post! *o* Sério! Aprendi muita coisa nas duas discussões sobre distopia. Como eu disse no primeiro post, eu acho que nem li nada do gênero até agora, mas estou ainda mais ansioso pra ler depois desse especial aqui no CC. Dos livros que você citou aqui, pretendo ler "Divergente", "Gone" e "Jogador Número 1".
    Por falar em leitura, mal posso acreditar em como esse mês passou rápido D: Só consegui ler "O Inverno das Fadas" completo até agora, e quase terminar "Apocalipse Z" (li 68% - by: Skoob). E eu que queria ler a trilogia Jogos Vorazes também nesse mês... #vish.
    Adorei seu comentário no final do texto, dessa coisa de refletir sobre o livro. Dá pra gente aproveitar TANTA coisa de cada história que lemos... lições super importantes que levamos pra vida toda. Pena que nem todo mundo faz isso :\ Como você disse, tem mais é gente procurando namorado fictício mesmo, uahuahua.

    Bom, meus sinceros parabéns por essa discussão incrível. Você debateu coisas muito interessantes e que com certeza vão estar presentes no meu dia-a-dia como leitor :)
    Bom, abraços o/ até mais ^^

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