Arlequina Batgirl

Ok, vamos falar sobre aquela capa da Batgirl...

19.3.15João Pedro Gomes


Sim, é aquela mesmo. Aquela que fez o mundo inteiro parar pra observar. Você já parou pra refletir sobre como se sente sobre ela? Porque eu, João, já senti uma gama muito variada de sentimentos, que vai desde amor incondicional até repulsa absoluta. Sério, foi um turbilhão de emoções. Mas tudo isso já passou e, no momento em que escrevo, estou numa fase aparente fixa entre as duas que denominei "apreciação consciente". Fim do caso. Simples assim.

Tá, não é nada simples. Vamos discutir por que aquela capa é mais problemática do que parece. (E, de bônus, aprender a conviver com os problemas daquilo que você gosta)

Se você estava em uma jornada de distanciamento da internet e não associou o assunto aqui em cima a nada, aí vai um resumo: 

O artista brasileiro Rafael Albuquerque foi convidado para fazer a capa variante de Batgirl #41. O tema do mês? Coringa. É claro que nada seria mais óbvio do que unir o útil ao agradável e homenagear a história mais importante da DC envolvendo os dois personagens, A Piada Mortal. Não teria como dar errado. A menos, é claro...

Você chegou a ler ou ver algumas fotos dessa HQ? Não chamam de piada mortal à toa.

... A menos que a capa em questão revivesse um evento controverso da história da Batgirl envolvendo sangue, tiros, violência contra a mulher e um possível abuso sexual. 

A menos que homenageie uma das histórias mais polêmicas já publicadas em meios super-heroicos. 

A menos que ela ignore tudo o que a revista atual construiu e traga de volta os demônios do passado que a Batgirl demorou anos para superar.


Foi doloroso constatar tudo isso, porque quando eu vi a capa pela primeira vez, eu achei sensacional. Não vi nenhuma ofensa a princípio porque, fala sério, a ilustração tá incrível. É uma das imagens mais fortes que já vi. Mais do que pensar no que ela representa, ela me fez sentir. Sentir a agonia, a dor, o pânico. Se eu tenho arrepios ao ver um mero desenho, ele é bom e ponto.

Então por que a internet tava nessa guerra civil de "genial" vs. "ofensivo", chegando até a rolar ameaças violentas entre os lados e acusações de censura? Na dúvida, fui no grupo secreto do CC pedir opiniões. Eis a resposta: 

Diego, um exemplo de sabedoria
Dana também opinou:


Dana Martins: "não sinto repulsa não e nem ofendida (basicamente, sua opinião e a do Diego, eu achei a capa linda e tem uma sensibilidade. Até gostaria de usar a imagem como inspiração pra um momento drástico de algum história. É uma imagem ~inspiradora~), se não tivesse rolado polêmica eu nem teria parado pra pensar. Mas to grata que a discussão aconteceu".

(Depois de toda a discussão, aceitei que várias opiniões estavam certas e - mentira, saí gritando coisas como "não tô mais conseguindo gostar da capa, OLHA O QUE O MUNDO FEZ").

O que eu amo em dialogar com o pessoal da equipe é que eu sempre consigo abrir minha mente para outros pontos e possibilidades de um mesmo problema. Ir além. Dessa vez, a forma que encontrei de fazer isso foi através de uma pesquisa mais aprofundada para entender o problema: quais eram, exatamente, os pontos que tornavam essa capa problemática. Não vou mentir, também precisava matar o que estava me matando - no caso, essa sensação de ódio repentina da imagem que ainda me atormentava. O que encontrei foi o seguinte:

>> AFINAL, POR QUE ESSA CAPA É PROBLEMÁTICA??

1. Porque ela não cabe no contexto em que foi inserida

Uma coisa que eu ouvi repetidamente durante a faculdade e tomava como verdade absoluta até então: "a arte não tem compromisso com a moral". Arte não é uma cartilha didática do maternal. Não importa o nível de "absurdo" que ela contenha, basta com que ela faça pensar e sentir. É assim que nós somos humanizados.

Mas o que levamos em conta como arte? Certamente, essa ilustração se encaixa no conceito em que acredito. Mas quadrinhos não são um meio artístico comum, porque eles tratam de ícones culturais. De histórias e desenhos que, em vez de restritos a exposições ou museus, alcançarão uma infinidade de pessoas diferentes, das mais variadas faixas etárias e experiências de vida, e que servirão de inspiração para muitas delas. E, nesse caso em específico, falando de um título que tem chamado atenção pela jovialidade e diversidade que trouxe às HQs. Pela tardia superação que deu à personagem depois de anos presa a uma experiência traumatizante. Repara que é justamente essa experiência que a ilustração retoma? Isso é praticamente cair de uma escada que demorou muito tempo para ser subida, e não há intenção de homenagem por trás que amenize esse fato.

2. Porque reduz a Batgirl (e as mulheres em geral) ao papel de vítima


"É exatamente por isso que essa capa é tão perturbadora. Ela isola aquele momento, tira da Batgirl qualquer sentido que ela tenha como heroína ou como pessoa, e a reduz puramente ao papel de vítima. Isso não é uma representação verdadeira da Barbara Gordon, não mais do que de qualquer um que se encontra no papel de vítima de violência [...].

[...] Ela carrega a implicação de que o trauma é um evento definitivo na vida de alguém, e isso é uma ideia que os sobreviventes desses traumas estão constantemente tentando quebrar. 

[...] É o mesmo problema com a morte da Gwen Stacy em Espetacular Homem-Aranha 2. Não estamos mais na década de 1970-80. As pessoas amam a série da Batgirl porque ela tirou uma personagem que era reduzida a nada além de uma ferramenta de enredo, um evento traumático por ANOS — e a torna, finalmente, em um personagem autêntico novamente. Voltando à comparação com a Gwen Stacy, é a mesma razão pela qual "Spider-Gwen" teve tanto sucesso; misture um design bem feito com o empoderamento e renovação de uma das personagens femininas mais rebaixadas dos quadrinhos e BOOM, popularidade gigantesca. 

Babs NÃO É SÓ UMA VÍTIMA. Ela tem sua própria personalidade com seu próprio mérito e merece ser tratada com respeito [...]."


Repara que o problema não é tornar o herói uma vítima em si, mas, sim, APENAS uma vítima. Super-heróis não são intocáveis e imunes, mas eles nunca baixam a cabeça e aceitam a exploração.

A fim de comparação, olha essa capa variante do mês temático de outra vilã, a Arlequina:



As duas capas são quase iguais. Claro que a do Coringa é mil vezes mais violenta, porque é um abuso físico e psicológico real, enquanto a da Arlequina é só um troll, um clima de "sacaneei a amiga!". Mas qual a diferença mais importante entre as duas? 

Na do Coringa, a Batgirl é uma vítima amedrontada e abusada. Na da Arlequina, mesmo que esteja sendo punida, ela está no controle. A do coringa tem um clima pesado de fatalidade. A da Arlequina tem um clima de piada. Por menor que soe, esse tipo de diferença muda todo o significado da representação da personagem.

3. Porque reforça valores que os quadrinhos estão tentando superar

Como a Dana disse enquanto estávamos discutindo: querendo ou não, é um caso de muito azar. Porque a Batgirl continua sendo uma mulher que não perdeu seu status de vítima. E o Coringa, mesmo sendo vilão, é um ícone/referência (se você discorda: é o Jared Leto que vai interpretar o personagem no cinema).

Então, quando você olha a capa, por mais que ela seja linda e sensível, você ainda tem o garoto se identificando no Coringa e a garota na Batgirl. Logo, ainda que implicitamente e sem intenção, o que é que a capa diz? É legal torturar garotas. Olha o machismo sendo revivido. 

Não só isso, como ainda é um baita trigger para pessoas que sofreram abusos, fazendo-as reviver traumas. Imagina uma vítima de um caso parecido vendo isso numa banca? O pior é que elas muitas vezes 1) são desacreditadas e 2) levam a crer que foram culpadas pelo que aconteceu. Ver a super-heroína que a representa como símbolo de superação virando um símbolo de "você nunca vai fugir disso"? É uma mídia oficial reafirmando e desacreditando o abuso que ela sofreu.

E cai num problema da DC. Sabe aquilo de dizerem "a Marvel tem os bons heróis, DC tem os bons vilões"? É como se a imagem pegasse isso e colocasse em prática, exaltando o Coringa e toda a sua vilania, quase o colocando no papel de "herói".

Concluindo... 

É claro que dá pra tirar muito mais pontos disso tudo e justificar de outras maneiras porque essa capa é errada do jeito que aconteceu. A grande questão é que ver tudo isso me fez voltar a apreciar a capa e parar de rejeitá-la como se fosse uma atrocidade que não devesse existido. O mais importante não é ignorar um objeto problemático, mas compreender por que ele é assim e aceitar sua imperfeição. É daí que vem a apreciação consciente.

Enfim, se esse bafafá todo serviu pra alguma coisa, foi o aprendizado. Tanto para a DC, que deve pensar mais seriamente em suas propriedades e na imagem que estão criando para elas, quanto para nós, enquanto sociedade, que precisamos aprender a confrontar opiniões sobre as coisas sem nenhum derramamento de lágrimas ou sangue, real ou ideológico. Senão, parando pra pensar, não seremos muito melhores do que o Coringa naquela foto.

- João Pedro Gomes


(Ah, e caso você ainda esteja se culpando por ter gostado da capa como eu estava fazendo há algumas horas...)


"A Barbie é distorcida. Tudo bem brincar com ela, contanto que você não esqueça disso.

- DUNHAM, Lena.


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5 comentários

  1. Amando que essa discussão tá acontecendo. Eu tava na mesma da Dana sobre isso até ontem. Quando vi, se não soubesse que a homenageada é a Piada Mortal, seria difícil/impossível entender por que a capa foi tida como tão perturbadora.
    Mas a minha opinião? Como tava discutindo com uma amiga minha que também fez um post bem massa sobre o assunto, a capa EM SI não é o problema... apesar de, sim, ela colocar a Batgirl no papel de vítima. Ela só fica nesse papel porque o arco "homenageado" é um em que a Barbara sofre para caramba. Só que o arco em questão é talvez o mais famoso tanto do Batman quanto do Coringa. É aí que mora o problema pra mim. A pessoa que se interessa um mínimo por quadrinhos vê essa capa e ou vai atrás do arco ou já leu, e AÍ SIM o trigger é um perigo.
    Pra encerrar: achei bem legal que o próprio Rafael foi atrás de cancelar a capa.

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  2. O Gordon sofre TANTO OU ATÉ MAIS QUE ELA, pois o cara é provido de suas roupas, fica nu e vê fotos de um ente querido sofrendo. Na verdade, pelo tempo que o Batman leva pra achar o Gordon, eu acho até mais plausível que o Gordon foi estuprado. Talvez aqueles anãezinhos comeram o cu dele.

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    1. Não entendi muito o comentário o.õ Tá só compartilhando informação?

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    2. Eu ainda não li a HQ, mas acho que são tipos de sofrimento diferentes. Começando pela coisa de ficar nu, que aconteceu em contextos distintos (Gordon tava amarrado e deixado nu pelos anões. Batgirl ficou nua em frente ao Coringa, tava ferida, paraplégica e foi fotografada inúmeras vezes sem consentimento. Não vou nem citar a coisa do estupro, já que não sei muito bem sobre o contexto em que o Gordon foi torturado, mas só o modo do homem e da mulher lidarem com a ideia do abuso sexual já é diferente). É claro que ele também deve ter ficado destruído de ver a pessoa que ele mais amava naquele estado, mas é até diferente como eles refletiriam esse medo no futuro: o Gordon provavelmente ficou com ainda mais vontade de proteger a filha e, portanto, combater o crime na cidade, enquanto a Bárbara ficou a princípio impossibilitada de reagir e teve que lidar com muito mais perdas que o pai, tanto físicas quanto morais. São esses pequenos detalhes que fazem a diferença.

      (lembrando que eu não li A Piada Mortal e estou fazendo constatações de acordo com o que conheço da obra superficialmente. Peço desculpas se houve alguma afirmação equivocada)

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    3. Eu não entendi o contexto do comentário do Diego, mas se for pra justificar o que aconteceu: 1- Sendo tanto ou até pior: é sofrimento também. Mas o que isso vem ao caso? Um sofrimento não desvaloriza o outro. 2- E é legal ter algum respeito por abuso, Diego. Imagine alguém que sofreu algum tipo de abuso lendo o seu comentário. 3- A capa não mostra a Batgirl e o Gordon, mais um motivo pra não vir ao caso.

      4- E principalmente: Diferente do Gordon, a Batgirl foi marcada por esse momento. A maioria das pessoas fala do Gordon sem citar o que aconteceu, com a Batgirl não. Inclusive, o Gordon já está protagonizando uma série de televisão, em que até onde eu sei (posso estar errada) esse passado sombrio não afeta o personagem em nada. Enquanto a Batgirl não só vai entrar como parte de uma equipe na série Titans, como vai ser a Batgirl afetada por esse acontecimento específico. Isso significa basicamente que por mais que os dois tenham sofrido violência, apenas no caso da Batgirl isso foi incorporado como marca da personagem. Ela é, em essência, marcada como uma vítima. Que superou e tal, mas esse momento particular continua perseguindo a personagem. E, como esse post mostra, que mensagem isso passa pras vítimas de violência?

      E mais: os novos quadrinhos da Batgirl estão empenhados em reconstruir a personagem, justamente passando por cima dessa fase da Piada Mortal, o que torna pior ainda criar uma capa simbólica que reafirma esse acontecimento.

      Além disso, essa comparação com o Gordon é só um exemplo de como as personagens mulheres são desenvolvidas de uma perspectiva de vítima e os homens não.

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