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Discussão: Você conhece os dois tipos de distopia?

20.9.12Dana Martins


Faz tempo que eu penso em uma forma de discutir distopia aqui no blog, porque MUITA gente se perde com esse tema. Até porque esse é um subgênero (ou gênero?) que não é tão fácil de se definir. Depois de muito quebrar a cabeça eu percebi que o problema é simples: existem duas formas de entender por aí. Elas já não são muito claras, o que causa mais confusão ainda. Vamos tentar ajudar um pouco mais.

Se você quer saber mais sobre isso, quiser discutir a classificação de livros, dar a própria opinião sobre distopia, pegar a dica de filmes/livros legais... vamos em frente!

Como base, vou usar dois posts: o "Distopia: uma origem política" do Nem Um Pouco Épico (NUPE) feito para a Dominação Distópica que conta a origem do termo "distopia"; e "O Futuro da Humanidade Segundo a Ficção Científica - Parte 2: Distopia" da Flávia Gasi que eu encontrei no Omelete e foi o empurrão que faltava para me fazer discutir aqui no CC. Eu não vou resumir o que foi dito neles, vou analisar para discutir as duas definições de distopia.

Numero 1: O mundo cruel
"Utopia é o lugar bom, ideal, com coisas impraticáveis e a distopia (ou a cacotopia) é a anti-utopia, o oposto dela." - retirado do Nem Um Pouco Épico.
Ou seja, é possível resumir distopia como "uma alternativa para o nosso mundo extremamente negativa" (enquanto a utopia seria o modo extremamente positivo). Acredito que é essa a linha de pensamento da maioria das pessoas, inclusive da Flávia Gasi do Omelete. Não é errado, é só abrangente. Por isso a distopia = situação extremamente negativa acaba resultando em várias possibilidades. 

Alguns diriam que é utopia...
No post do Ometele ela cita distopia totalistarista (eu diria, clássica), que é essa de governo opressor vs. oprimido; A distopia tecnológica ("'high tech, low life', isto é, quanto maior o conhecimento científico, pior a qualidade de vida da população"); a distopia pós-apocalíptica é aquela da história da pessoa se virando depois que aconteceu algum apocalipse (guerra nuclear, desequilíbrio da natureza e todos esses aqui); E ainda: criminosa, prazerosa, alienígena, feminista e corporativa

É tudo uma situação ruim e o termo distopia quase não se sustenta sozinho. Essa "distopia tecnológica", que ela cita, é também conhecida como Cyberpunk (já falei aqui). A pós-apocalíptica poderia ser simplesmente pós-apocalíptica. Muitas das outras, como a alienígena e a corporativa entram quase como a distopia totalistarista, a diferença é que não é o Estado oprimindo. 

Dizer que um livro é distopia, nesse caso, pede em seguida um "como o mundo está muito ruim dessa vez?". A pessoa não tem como saber se o livro vai falar sobre a sobrevivência num cenário destruído, criticar a desumanização causada pelo excesso de máquinas, ser uma simples aventura em busca de algo perdido ou colocar em evidência o abuso de poder. 

Eu diria que é mais uma definição esvaziada, sem muito propósito. É por isso que prefiro a visão mais definida do termo "distopia", que é o segundo caso. 

Número 2: LIBERDADE! 

Retomando o post do NUPE e a origem do termo, John Stuart Mill falou em distopia descrevendo a situação Reino Unido vs. Irlanda. 
"Em 1829, o Reino Unido reconheceu a Irlanda como parte de seu território, mas não lhe deu liberdade para tomar suas próprias decisões." - NUPE. 
Em outro trecho retirado de lá, que é o meu preferido, explica bem como John Stuart Mill via essa situação para usar o termo "distopia":
"O contexto é claro: as ações e intenções do governo têm sido tão ruins que ele é o oposto de uma utopia. Mas prestem bastante atenção: no caso, as coisas ruins são as coisas que são contra as ideias de Mill. Ele defende a liberdade pessoal e não a opressão do estado, defende a igualdade entre as pessoas e não a superioridade."
Nesse momento, no entanto, o termo não tinha nada a ver com classificação de literatura. Só depois, quando surgiram textos que falavam sobre uma sociedade no futuro com governos totalitaristas, meio que refazendo histórias que essencialmente (atenção para o essencialmente) repetiam as críticas de Mill, o termo distópico foi utilizado para descrever literatura. De lá para cá isso já mudou muito, foi desenvolvido de mil maneiras e levou a todas essas confusões/interpretações.

Mas se pegarmos essa ideia inicial e fizermos uma síntese absoluta de uma explicação mais definida de distópico: seria a situação que de alguma forma a liberdade é limitada de modo negativo e o livro distópico se desenvolve em cima disso. Na maioria das vezes, como crítica ou alerta. Algumas vezes, o autor só quer discutir o caso, mas ainda assim essa quebra de liberdade é o que está em jogo. 

Normalmente essa história acaba se desenvolvendo com o opressor (aquele que limita, o governo, a corporação, o alienígena) e o oprimido (o que é limitado), que é a visão clássica da distopia. As histórias normalmente se passam no futuro (quer coisa melhor para alertar do que algo com cara de "olha o seu futuro"?), então normalmente as tecnologias são mais avançadas e servem como instrumentos para limitar essa liberdade. Quando o teor é de crítica, muitas vezes aproveitam para exagerar problemas atuais e destacá-los. 

A forma de limitação da liberdade de forma negativa varia dependendo de como o autor leva a história. Alguns casos são extremos, como acontece em 1984 e de certo modo em Jogos Vorazes, que o personagem passa por um processo de "desumanização" (perde a liberdade de ser). Outros exemplos: Em Fahrenheit 451 a pessoa perde a liberdade de pensar. Em Destino - Matched a pessoa perde a liberdade de ser diferente/decidir. No fim das contas, as pessoas perdem as liberdades básicas. Pegue uma lista de declaração dos direitos e crie um mundo restringindo tudo o que tem lá e mais um pouco. 

Talvez a tal versão extremamente negativa do nosso mundo seja essa onde perdemos a liberdade de ter direitos...

Número 3: Qual é a certa?

Não sou eu que decido o que é certo ou errado, o certo provavelmente vai ser o que "cair na boca do povo" (já transformaram o valor de nerd de negativo para positivo, como mostrei aqui). Mas ver que existem essas duas interpretações e o que cada uma significa com certeza ajuda na hora de pensar o que você está lendo/assistindo. Quando alguém fala usando uma definição, como a Flávia Gasi e o NUPE fizeram, escolhe um dos dois lados. E, quem está perdido no meio do caminho, fica mais confuso ainda quanto ao que é e não é. 

Pessoalmente, prefiro a segunda definição (mais específica). Se a gente for pela primeira, dá pra dizer até que Resident Evil(!) é distopia. Dá quase abertura para dizer que distopia é algo real ("ah, as criancinhas que passam fome na África vivem uma distopia"), o que não é. 
Distopia em histórias, de acordo com a primeira definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema (tipo de organização da sociedade) extremamente ruim. Seja lá o que você chamar de ruim. Em cenários normalmente relacionados à ficção científica.
Distopia em histórias, de acordo com a segunda definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema que limite a liberdade de modo negativo e o foco do livro seja discutir/exemplificar isso.

Semana que vem eu volto para analisar com base nessas definições alguns livros recentes que muita gente fica naquela dúvida: é ou não é? Se tem algum que você quer saber, nos diga que incluímos no post! Fique livre para colocar a sua opinião, seja qual for. :)

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6 comentários

  1. Gostei bastante do post, e acho que essa dúvida sobre o que é distopia paira sobre muitos leitores ultimamente. Eu acho que já sei o que é o gênero e o reconheço, alias, amo distopia, acho que é um gênero literário, e gosto porque ele vem crescendo no meio literário. Abaixo estão minhas "top" distopias:

    1- The Hunger Games - Jogos Vorazes de Suzanne Collins
    2- The Selection - A Seleção de Kiera Cass
    3- Fahrenheit 451
    entre outros... fica difícil se lembrar de algumas histórias com esse tema.

    Enfim, o post deu uma explicação básica do que é distopia, na verdade, como saber o que é distopia. Mais uma vez digo, gostei muito :D

    Abraços, Joshua
    pensamentosdojoshua.blogspot.com

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  2. Oi Dana!

    Confesso que eu ainda tinha dúvidas em relação ao tema... eu nem tenho certeza se já li uma distopia. Na verdade, eu comecei a ler bastante mesmo fazem apenas uns dois anos, por aí. Mas o post esclareceu bastante sobre o assunto.
    Assim como você, prefiro a segunda definição. Essa coisa de "anti-utopia" é, realmente, um termo muito amplo e que abrange muita coisa.
    Então... Pelo que eu sei, distopia é um assunto que provoca muita reflexão, não é? Deviam usar alguns livros distópicos mais modernos nas escolas, pra fazer uma análise aprofundada e tal, sobre como eles se relacionam com a sociedade atual ou sei lá. Acho que isso encaixaria bem com as aulas de filosofia e sociologia (que a maioria das pessoas acha que não servem pra nada...). Sei lá, eu acho que seria bem interessante.
    Bom, eu preciso mesmo ler uma distopia assim que possível, pra ficar mais por dentro do tema. Assim que eu terminar "Apocalipse Z" (que até onde eu li entendo por pós-apocalíptico), começo "Jogos Vorazes" (: Também fiquei LOUCO para ler "A Seleção" depois de ler a resenha do Joshua. Parece incrível.

    Enfim... parabéns pelo post! Eu adoro as discussões do CC. Vou aguardar ansiosamente pelo próximo, que vai falar sobre os livros distópicos. Com certeza vai dar pra tirar umas dicas legais de lá :D Aliás, esses dias eu comprei "Divergente" e "A Idade dos Milagres", ambos resenhados pelo CC. Assim que eu ler digo o que achei!

    Acho que é isso... super abraço, gente o/

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  3. A dúvida existe mesmo, já deixei um comentário em um blog dizendo que tenho gostado dos livros do gênero e gentilmente fui corrigida dizendo que o livro não era distópico. Mas depois recebi uma outra resposta dizendo que eu estava certa, o livro era distópico. Se esta confusão existe em quem está acostumado a ler, imagina nas pessoas que não estão.
    Bjs, Rose.

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  4. Adorei o post, muito esclarecedor. Concordo com você de que a definição mais adequada seria a segunda, tratando de distópico os livros que "apresente um sistema que limite a liberdade de modo negativo e o foco do livro seja discutir/exemplificar isso." Acho muito importante deixar claro que o livro deve focar, principalmente, no sistema repressor. Romances que se passam em um futuro onde "a sociedade é ruim" não devem ser classificados como distopias só por trazerem isso como plano de fundo meramente citado.

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  5. Pesquiso sobre distopias desde 2015 e realmente é complexo definir o que seria distopia. Por mais que a segunda visão seja mais clara, as duas realmente não devem ser ignoradas, pq são tantos livros que se encaixam nesse gênero que fica difícil escolher somente uma visão para dizer: esse livro é distópico, Tem vários fatores que contribuem para que tal livro se encaixa no gênero. Muito bom o post!

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  6. Pesquiso sobre distopias desde 2015 e realmente é complexo definir o que seria distopia. Por mais que a segunda visão seja mais clara, as duas realmente não devem ser ignoradas, pq são tantos livros que se encaixam nesse gênero que fica difícil escolher somente uma visão para dizer: esse livro é distópico, Tem vários fatores que contribuem para que tal livro se encaixa no gênero. Muito bom o post!

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