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Um Mundo Novo sem autoridade dos adultos

10.2.15Dana Martins

Poderia ser lindo, mas não é.


E se todos os adultos morressem agora? E se ficasse só os adolescentes? Bem, eu provavelmente já estaria morta porque para todos os parâmetros eu não sou mais adolescente, então vou sair desse post que não é pra mim. Tá, não. Mas mais do que a morte desnecessária de todo um grupo da população, você tem noção do que a morte de todos os adultos significa?

O fim da autoridade. O fim da tradição.

Às vezes eu olho para os mais velhos presos a alguns pensamentos beeem conservadores e penso: a única coisa que prende esse modo de pensar ao mundo é a existência dessa pessoa. Daqui a alguns anos quando eles morrerem, não vai ter mais ninguém para insistir nisso. Não é uma forma bonita de pensar e eu moro com velhinhos, a última coisa eu que quero é que eles morram. Mas vamos nos permitir um: e se?



Felizmente, a literatura nos permite questionar isso sem matar ninguém (no mundo real). O livro Mundo Novo, do Chris Weitz, é justamente sobre isso.

Uma doença mata todos os adultos, bebêzinhos e as garotas não conseguem engravidar mais, então é um mundo sem autoridade. E quase sem consequências. E sem um monte de tecnologia legal, porque não tem ninguém trabalhando pra manter a internet funcional e tal, mas vamos focar na parte boa.

Tipo, a questão LGBT+ mesmo, eu vejo como pessoas 5 anos mais novas que eu lidam com isso muito melhor do que eu naquela época. Eu lido melhor do que o meu pai na minha época. E o meu pai lida melhor do que o meu avô. Grande parte da tensão que existe é porque os mais velhos não aceitam muito bem. Aliás, nem preciso explicar, lembrei que fiz um post chamado "Por que nós não conversamos com nossos pais sobre certos assuntos?" que ilustra bem. É como se existisse um submundo onde os jovens vivem livremente e uma versão do mundo que eles passam para os pais.



Mundo Novo é uma realidade onde esse submundo se transforma no padrão.

Sem pais. Sem problemas.

Ou quase. Mas vamos devagar.

As vantagens de um mundo sem autoridade

A primeira diferença no universo pós-apocalíptico de Mundo Novo é a liberdade. Os personagens fazem o que bem entendem. Logo na página 12 encontramos um trecho que resume isso:


"Tem um cara, Jack, que se travestiu por completo. Os pais dele nunca vão chutá-lo para fora de casa. E agora ninguém vai brigar com ele. O cara tem um metro e oitenta de altura, e é largo como um banheiro químico."


É muito legal a história tocar nesse aspecto, acho que nunca tinha lido algo pós-apocalíptico que se importou em relatar a transformação cultural assim. Quem se importa com roupas quando o mundo está acabando? Ninguém.

O fato é que o contexto de Mundo Novo dá uma ajudadinha: esses jovens estão no limbo. Não há nenhum zumbi espreitando para matá-los. Há recursos de sobras. E eles vão morrer, de qualquer forma. Então é literalmente "meus pais foram passar o fim de semana fora, QUE AS FESTAS COMECEM!" a nível mundial. (sabe aquele sonho de entrar no shopping e pegar o que quiser?)

Mas pra isso dar certo mesmo teríamos que ser inocentes e acreditar que a nova geração é perfeita. Esses adolescentes tão revolucionários! Vão salvar o mundo! 



Se não se matarem, é claro.

O outro lado da moeda: sem autoridade

Já foi a um show de um artista MUITO amado? Em que todo mundo tenta literalmente passar por cima do outro pra ver quem vai tocar num pedaço de ferro e, quem sabe, receber um olhar? Se sim, você sabe do que eu estou falando.

Chances são de que você também tem alguma experiência traumática de adolescência tipo "as outras pessoas são horríveis e vão rir de mim". 

A questão é que nós somos criados em um tipo de mundo específico, seguindo os paradigmas estabelecidos, seguindo a cultura padrão, etc. Um número enorme de histórias com personagens jovens é sobre se encaixar porque é o que nós fazemos: queremos ser aceitos. Tentamos fingir o que não somos para chamar atenção. (sim, é uma referência a Faking It) Ou seja, os jovens são máquinas de reproduzir o que os adultos fazem (e se traumatizar constantemente no processo). 

Então se não há ninguém para fiscalizar e aqueles que eram oprimidos finalmente têm a chance de ficar livres, os que lutavam para manter o paradigma continuam a querer fazer isso.

O que é paradigma?

Mas dizer que a abordagem disso em Mundo Novo é tão preto e branco é exagero. Pelo contrário, enquanto o grupo protagonista faz sua jornada, ele topa com diversos outros grupos de jovens que se organizaram de maneiras diferentes. 

Só fazendo esse texto é que eu me dei conta de como isso é um tema central no livro. Jefferson, o protagonista, começa o livro perdendo o irmão mais velho que era o líder do pequeno grupo onde vivem. É uma escolha interessante (do autor), porque começamos o livro vendo em uma escala pessoal o efeito do desaparecimento dos adultos nesse mundo. Jefferson agora está sozinho para decidir o que fazer com a própria vida, com o grupo que o irmão liderava e com o mundo.

Ao mesmo tempo, a narração é dividida entre ele e Donna, que eu nem sei qual é o conflito dela (decidir se gosta do Jefferson?), mas que dá um belo contraste ao estilo sonhador do protagonista. Acho que a questão é que enquanto ele vê oportunidade no futuro, ela está meio presa ao passado. Isso. Não que ela seja conservadora, é que Donna não acredita muito que algo pode mudar e faz com que as visões dos dois narradores se completem. 

página 171

Um das grandes conflitos nesse mundo sem autoridade é que mesmo com a liberdade pra fazer o que quiser, com a chance de recomeçar do zero, nós ainda continuamos tentando reproduzir o passado ou simplesmente não acreditamos que podemos fazer algo. Em um livro que trata sobre juventude (os jovens, aqueles que são "o futuro do mundo"), esse é um questionamento importante. Não só para o mundinho apocalíptico do livro, para o mundo real também. Por que diabos não fazemos as coisas melhores? 

Enfim, o livro mostra de uma maneira legal as possibilidades desse mundo sem autoridade, onde os jovens da nossa geração podem fazer o que quiserem. O mais interessante, talvez, é como mostra a relação entre tradição e inovação. Como nós mesmo quando somos livres acabamos reproduzindo o que não queremos. Ou nem chegamos ao ponto de pensar que poderíamos construir um Mundo Novo.

-dana martins




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2 comentários

  1. CARA.
    Achei esse texto incrível e me provocou um monte de pensamentos sem nem ter lido o livro. É muito interessante perceber o quanto somos tão ligados ao passado e certas tradições ou normas.

    DANA GÊNIA.
    CONVERSA CULT GÊNIA.
    BEYONCÉ FAZENDO AS FESTA GÊNIA.

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  2. O Andre já resumiu qualquer comentário meu.
    Terei um mindfuck também, porque está vindo muita coisa e eu não consigo pensar direito AAAAAAAAA

    ResponderExcluir

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