a importância de estar vivo e fazer as coisas CCAnálise

Por que O Doador de Memórias é uma distopia diferente e o que ele me ensinou sobre a importância de estar vivo e fazer as coisas

22.9.14Diego Matioli


“[...] eu acho que O Doador de Memórias não chega aos pés dessas outras distopias mas também não precisa chegar, porque a história é outra.” – MARTINS, Dana
Quando li essa frase, uma profusão de sentimentos eclodiu dentro de mim. Não parecia certo afirmar algo assim. O Doador de Memórias me comoveu de uma forma que Divergente ou Jogos Vorazes algum foi capaz de fazer – não que seja minha intenção comparar filmes para encontrar o melhor. Isso é redutivista e ineficiente, visto que as histórias têm propósitos diferentes. Mas eu precisava entender o que tornou esse filme tão especial para mim. Depois de refletir um pouco, acho que encontrei a resposta, e ela flerta com outro trecho do post da Dana:

“A história me fez pensar na importância de estar vivo e fazer as coisas.” – MARTINS, Dana

Mas calma aí, vamos por partes. (P.S. Esse texto parte do pressuposto de que você viu o filme. Ele contém spoilers. Inclusive de Jogos Vorazes)


Se eu tiver de escolher uma única mensagem que torna este filme totalmente diferente dos distópicos com o qual estamos familiarizados, seria essa: entender o que algo significa não é o mesmo que ter a sensação de fazê-lo. Não importa se você está em um bom emprego ou com um cônjuge excelente. Essas informações, extremamente válidas a nível teórico na hora de tomar decisões na sua vida, caem por terra em nome das emoções. E se você não se sentir bem no lugar ou com o alguém, não vai dar certo. É exatamente por isso que eu defendo a ideia de fazer o que se ama. Porque uma vida autentica de sentimentos é a melhor que se pode ser vivida. E ao tratar disso, o filme abre inúmeras discussões.

"Quando você dá às pessoas a liberdade para escolher,
elas escolhem errado" - FOI A MERYL STREEP QUE DISSE
ENTÂO DEVE SER VERDADE -sqn

A grande questão de O Doador de Memórias é que os anciões não são vilões malvados que querem impor sua nova ordem mundial a população desnorteada. Eles são parte dessa população e sofrem das mesmas restrições que todo mundo - eles nem ao menos percebem as restrições como tal. Se a nível intelectual eles compreendem os motivos que levaram a construção de uma sociedade destituída de emoções, eles não têm plena noção do que isso significa. Como poderiam, se eles nunca sentiram as tais emoções? É por isso que apenas a um indivíduo de cada geração é reservado este fardo. O dever do recebedor de memórias é entender o que é dor, fome, miséria, perda e guerra, para não deixar que os outros esqueçam a importância de se manter o sistema.

Sem o recebedor de memórias, dentro de poucas gerações ninguém mais entenderia o motivo das regras. Ninguém saberia o que são emoções ou cores, tampouco por que eles devem ser suprimidos. Sem ele, seria plenamente plausível que uma geração de jovens começasse a questionar o uso das injeções, descobrisse como escapar delas e incitasse uma revolução contra o conselho de anciões – que se usaria de todos os meios disponíveis para perpetuar o sistema em que eles acreditam cegamente. Essa hipótese se parece bem mais com as distopias contemporâneas, não é? Mas não é isso acontece, exatamente por que o recebedor de memórias existe.

algo simples como a cor vermelha...

Pense assim: os Jogos Vorazes foram criados para que os distritos não se esqueçam dos resultados da última guerra e tentem se rebelar outra vez. Essa é exatamente a mesma função do recebedor de memórias! Conhecendo o passado, ele tem de evitar que se repita. Só que nesse caso, isso é feito de forma não violenta e completamente política - o embate deste individuo é puramente intelectual. Seu trabalho é refletir sobre toda a história da humanidade para entender o que a levou a construir o sistema atual. O recebedor de memórias foi concebido para perpetuar as regras e tradições, que são passadas para as próximas gerações. Ele faz parte da cultura deste povo, e tem como tarefa mantê-la.

...pode desencadear muito mais.

Pois o grande vilão de O Doador de Memórias é a cultura - uma cultura criada por pessoas que acreditavam estar fazendo o melhor, mas que não entendiam as consequências de suas atitudes. E é por isso que ele difere de outras distopias: não é um confronto físico contra um antagonista, mas um embate intelectual contra a ignorância. Jonas não quer destruir o sistema, mas dar a ele uma nova perspectiva. Quando ele percebe o que está errado, ele já não é um oprimido e não tem nada a perder, mas o que ele vê no mundo lhe deixa inquieto e o leva a se rebelar. É um dilema ideológico, o embate entre as crenças que lhe foram ensinadas e o que a realidade lhe mostra. É um incentivo ao questionamento constante.

"nós ganhamos o controle de muitas coisas.
Mas tivemos de abrir mão de outras."
 Para a audiência, essa ruptura talvez não fique tão clara a principio. Nós, conhecedores das cores, dos sentimentos e das coisas incríveis do mundo, achamos horrível o mundo em que essas pessoas vivem, obrigadas a se anestesiarem para tudo isso. O que nos escapa é que ninguém ali sabia que havia outra opção - e é isso que o Jonas quer: mostrar que há mais no mundo. Vemos Fiona ser injetada com o inibidor de emoções depois de um período livre deles. Ela não é mais capaz de sentir, mas se lembra de que era algo bom, se lembra do vazio que a falta de emoções lhe deixou. Depois de expandir suas percepções, sua antiga vida perdeu completamente o sentido para ela. Sua frustração equivale ao distanciamento do recebedor de memórias, que se isola da sociedade para não ser massacrado pela consciência de tudo o que está errado nela. Eles não conseguem simplesmente recorrer ao conformismo e esquecer o que presenciaram, não mais. É a luta contra o conformismo sendo mostrado na tela. E essa é uma luta muito próxima a da nossa realidade.

É também uma metáfora para a educação, de certa forma. A melhor maneira de lutar contra um sistema que tenta nos alienar constantemente é dar um passo para trás e analisar ele. Mas para isso, é necessário ter base de comparação. É o que nós fazemos, por exemplo, quando procuramos paralelos entre Jogos Vorazes e a nossa própria sociedade. Essa é uma alternativa que a sociedade do filme não tem. Não há passado, não há memórias, não há livros. O senso histórico deles é nulo. Sempre que algo pontual acontece, o assunto é omitido, o que o leva a desaparecer dentro de uma ou duas gerações. Quando Fiona passa a sentir, isso é uma ligação com o passado e a leva a questionar as coisas. Nem mesmo ela compreende plenamente o que está havendo, mas ela sabe que tem algo errado.

Isso tudo é extremamente próximo da nossa vida - e, na minha opinião, mais importante de ser aprendido do que o antagonismo direto de Jogos Vorazes. Vou dar como exemplo para explicar melhor isso a questão da homofobia. É claro que há pessoas impondo preceitos homofóbicos a população, como Malafaia, Feliciano ou Bolsonaro, mas a queda deles não transforma a mente de milhões de pessoas desinformadas sobre o assunto, vítimas da própria ignorância, perpetuando uma cultura de ódio destrutiva e perigosa (e vale lembrar: eles fazem isso por entenderem, a nível teórico, o que é a relação entre pessoas do mesmo sexo, mas não entenderem o sentimento de amor dos homossexuais e confundi-lo com outras coisas, como depravação) - e cabe aos militantes da causa educarem a população, promoverem ações de conscientização e perpetuarem a informação no sentido de fazer as pessoas compreenderem as consequências dessa homofobia e por que ela é errada. Mesmo em Jogos Vorazes, nem todos os distritos se rebelaram imediatamente. Em O Doador de Memórias, Jonas não quer derrubar ninguém, ele quer mostrar a seus amigos, e depois a toda a sociedade, que há coisas sobre a própria cultura deles que eles não entendem.
"a pior parte de ser o recebedor das memórias não é a dor. É a solidão.
Memórias precisam ser compartilhadas."

Por favor, não achem que eu esteja tirando a validade de Jogos Vorazes ou o tipo de revolução que ele demonstra. Ações diretas são igualmente importantes especialmente se consideramos que há muitas pessoas no mundo prejudicando e se aproveitando dos outros. Eu só quis dizer que essa não é a única forma de revolta que existe, tampouco a solução para tudo. E que O Doador de Memórias é um ótimo contraponto para nos permitir ver o outro lado da moeda.

Outro ponto importante: Jonas age pela fé e pela emoção, e não pela certeza. Nós não sabemos se as ações dele tiveram repercussões positivas ou não, nem mesmo ele sabe disso, por estar tão longe no momento em que as emoções retornam às pessoas. Não nos é mostrado se a sociedade prosperou ou não, se houve conflito ou não, se pessoas se arrependeram e culparam ele ou não. E eu acho muito importante essa mensagem: você não precisa ter todas as certezas para fazer algo. O aprendizado também está no caminho.

E isso tudo me leva, finalmente, a estar vivo e fazer as coisas. Pois é exatamente para tentar transformar o mundo, seja o meu mundo pessoal ou o mundo ao redor, em um lugar melhor que eu estou vivo e faço coisas. Eu sou um professor, eu educo, eu aprendo, eu (me) transformo, Eu sou um escritor, eu crio, eu absorvo, eu questiono. Eu transmito mensagens ao mundo e faço votos de que elas façam as pessoas refletirem - e procuro refletir eu mesmo sobre todas as coisas. É tudo o que traz sentido para mim e é a força motriz de Jonas durante todo o filme.




E a grande questão do filme, a grande questão do texto, a grande questão de eu ter escolhido falar dos meus próprios sentimentos na primeira frase do primeiro paragrafo é a seguinte: nada disso é possível sem as nossas emoções. Eu acordo todo dia com a de que o mundo pode mudar - e que eu também posso mudar. Me sinto infeliz de viver em uma realidade cheia de opressão e violência - e infeliz também ao perceber que eu já oprimi antes e posso acabar o fazendo novamente se não me educar. Tenho compaixão pelo oprimido e pelo violentado - e sinto conforto na compaixão que têm por mim. As vezes, sou acometido por uma profunda raiva do mundo, que me leva a querer muda-lo até mesmo a força - e por vezes é uma violência que prolongo a mim mesmo. E quando vejo que algo, mesmo que mínimo, mudou, sou acometido por uma alegria inenarrável - e que por vezes vem com o gratificante reconhecimento. Faço tudo isso sem saber se dará bons resultados no final, mas com a certeza de que é o melhor a ser feito.

São os sentimentos que giram o mundo. São nossas emoções que nos levam a agir. O que eu sinto é o que me mantém vivo e me motiva a fazer as coisas. E essa, como eu disse lá no começo, é a mensagem mais importante de O Doador de Memórias para mim.

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1 comentários

  1. Wow, que profundidade de texto! De fato, The Giver acabou me tocando de uma forma que nenhuma dessas outras megaproduções hollywodianas conseguiu, é tão delicado a forma como retratam a "batalha" do Jonas contra aquele sistema, é lindo, não consigo nem explicar a forma como me tocou, só encontrei-as em seu texto! Acaba sendo diferente dos outros por abordar de maneirar tão bela os sentimentos, os momentos banais do cotidiano que para nós poderiam passar despercebidos..

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