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Por trás dessa história de 'primeiro fulano indicado'

26.7.18Dana Martins


Esses dias saíram as nomeações do Emmy e a Sandra Oh se tornou a primeira mulher de descendência asiática a receber uma indicação (por Killing Eve, no qual ela está maravilhosa e eu já indiquei aqui!!). Mas os dias passaram, e o título da matéria continua na minha cabeça, "Sandra Oh virou a primeira atriz de descendência asiática a ser nomeada a Melhor Atriz no Emmy." Tem algo nessa forma de retratar o acontecimento que fica me incomodando. 

Acho que o que me incomoda é que quando acontece algo assim e você fala coisas como "Fulana, primeira mulher negra!" ou "Fulano, primeiro homem gay!" é que você tá centralizando a conversa na vitória do indivíduo - o que é uma vitória e eles são maravilhosos e merecem. Inclusive, acho que a gente tem que divulgar como uma vitória mesmo e celebrá-los abertamente. 

Porém, eles não são os primeiros só porque eles são superfodas que descobriram a fórmula mágica de ser bom pra caralho, eles são os primeiros porque: a) um monte de outros fodões como eles não tiveram seu trabalho reconhecido, b) porque por trás desses prêmios tem gente branca que só consome e homenageia coisa com gente branca, c) porque um monte de gente não chegou nem a ter a oportunidade de receber um papel pra mostrar que é bom, ou construir uma carreira e se tornar bom. 

"A única coisa que separa as mulheres negras* de qualquer outro é a oportunidade." - Viola Davis
ela usa o termo americano "women of color" que significa mulheres de todos os grupos étnicos marginalizados

A própria Sandra Oh tem uma história dessa: por anos ela atuou em Grey's Anatomy em um papel de melhor amiga (no qual ele fez um enorme sucesso e recebeu diversas indicações, incluindo do Emmy e Globo de Ouro), e depois que ela saiu procurando papeis melhores, ela passou 4 anos sem encontrar nada além de papeis secundários. Em uma entrevista com a Vulture ela fala sobre como internalizou o racismo ao ponto de que quando ela recebeu a oferta de participar de Killing Eve, ela nem considerou que era uma oferta pra ser protagonista. 

"Quando eu recebi o roteiro de Killing Eve, eu lembro que eu estava andando no Brooklyn conversando no celular com a minha agente, Nancy. Eu estava lendo o roteiro por cima rapidamente, e eu não sabia dizer o que eu tava procurando. Então eu tô tipo, 'Nancy, eu não estou entendendo, qual o papel que eles querem que eu faça?' E a Nancy diz 'Querida, é o da Eve. É a Eve [a protagonista].' Naquele momento, eu não assumi que a oferta era para fazer a Eve. Eu penso sobre esse momento bastante. De me dar conta: Quão fundo eu internalizei isso? Muitos anos sendo visto de um certo modo, nos afeta demais, demais, demais. É tipo, como é que o racismo define o seu trabalho? Meu deus, eu nem assumi que quando me ofereceram um papel seria de uma das histórias principais. Por que? E isso sou eu falando, certo? Depois de ser dita pra ver as coisas de uma certa forma por décadas, você se dá conta, 'Meu deus! Eles fizeram uma lavagem cerebral em mim!' Eu sofri uma lavagem cerebral! Então isso foi uma revelação pra mim."

Se você considerar isso, fica mais fácil entender por que a Scarlett Johansson pegando o papel de uma personagem japonesa em Vigilante do Amanhã é tão ruim - tem toda essa geração de atores de descendência asiática que não encontram papeis por não serem brancos, e aí os papeis que eles poderiam ter também são dados para gente branca. 

Então eles são os primeiros não porque eles são acima do normal (pras pessoas de tal grupo), eles são os primeiros por causa de um muro invisível que tem barrado esse povo de chegar lá. Existe até um conceito chamado de "teto de vidro" (glass ceiling) que fala justamente dessa situação.

"Teto de vidro: conforme a definição da argentina Mabel Burin no artigo Uma hipótese de gênero: o teto de vidro na carreira profissional, trata-se da limitação velada à ascensão profissional das mulheres no interior das organizações. É um obstáculo invisível na carreira das mulheres, difícil de superar, que as impede de chegar a cargos de maior responsabilidade e liderança. É invisível porque não existem leis ou dispositivos sociais estabelecidos e oficiais que imponham uma limitação explícita ao desenvolvimento profissional das mulheres. O termo surgiu nos Estados Unidos na década de 1980 (glass ceiling barriers) e é o motivo pelo qual na maioria das empresas os cargos de responsabilidade continuam sendo monopolizados por homens." (fonte)

E tem mais: quando você foca na vitória do indivíduo, o que você tá dizendo? Todo o povo branco que tem sido centralizado até aqui foram lá porque eram bons mesmos!! Os melhores!!! Mérito próprio!!!!!! O resto descobriu a boa atuação só recentemente. Não existia nenhuma atriz de descendência asiática boa até 2018. A carreira de 30 anos da Sandra Oh foi inventada ano passado, quando saiu Killing Eve. 

Essa mentalidade abre a porta do inferno pra um monte de outras crenças racistas. Exemplo: É comum sair notícia na internet com os caras da indústria falando da falta de diversidade com desculpas esfarrapadas tipo "Ah, mas falta atores. Não encontramos atores assim."

Então o fato de ser o primeiro não é só uma vitória, é um "What's good?" pra indústria. Por que esse caralho é o primeiro? Como é que esse bando de racista deixou passar esses anos todos?



"Emmy pela primeira vez indica uma mulher de descendência asiática para Melhor Atriz"

"Emmy indica Sandra Oh a Melhor Atriz, a primeira mulher de descendência asiática a ser reconhecida"

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