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Estante Nacional #2: Clara Browne

23.4.18Taiany Araújo


Hoje é o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, e dando sequência a nossa nova coluna, que tem como objetivo apresentar autores nacionais, o Estante Nacional de hoje trás a fofíssima Clara Browne numa entrevista absurda e espirituosa. Teve gosto de bolo como seu nome sugere. 

Nós já conhecíamos a Clara do twitter (o que vale muito a pena), no entanto, poder saber um pouco mais sobre seu trabalho, suas inspirações e suas divagações foi tão divertido que ficamos tristes em ter que limitar o número de perguntas. Por favor, não se contenham e corram atrás dela nas redes sociais, é só sucesso. 

Nascida em 1994 no Rio de Janeiro, Browne se mudou para São Paulo ainda pequena e agora chama a cidade da garoa de sua. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa. E tá aqui falando sobre livros com a gente. Vem!

***


1- Como e quando você começou a escrever?


Acho que nunca tem um momento certo que dá pra dizer quando você Começou A Escrever. Eu odiava escrever quando pequena porque tinha preguiça, aí um dia a vontade só ficou maior que a preguiça (porque, sejamos honestas, a preguiça não passa).

Agora, posso dizer que comecei a escrever com mais frequência a pedidos de uma amiga minha do fake do Orkut (é sério), que queria que eu transformasse uma história que tinha contado pra ela em fanfic e aí acabei entrando numa comunidade de fanfiqueiros chamada ~*~WEBNOVELAS CAMP ROCK~*~ por indicação da mesma amiga e foi isso. A comunidade era ok com escrever sobre outras coisas da Disney, então eu usava o nome dos atores, porque eu era mais investida neles do que nos personagens. Eu tinha 13 ou 14 anos. Já escrevia antes disso, mas fui pegando jeito e ritmo ali, com um bando de outros pré-adolescentes que também estavam na mesma.


2- Quais os livros que você já escreveu? Comente um pouco sobre eles com a gente.

Tenho dois livros que organizei publicados, Capitolina – o poder das garotas vol. 1 e Capitolina – o mundo é das garotas vol. 2. São livros coletivos. No primeiro volume, tem dois textos meus, e no segundo, tenho algumas ilustrações – além, é claro, das cartas de abertura, que escrevi junto com as co-organizadoras e co-editoras da Capitolina na época.

Os livros são uma compilação de textos que publicamos na revista ao longo de cada ano, junto a um conteúdo inédito que pensamos todas juntas – de novos textos e ilustrações até atividades diferentes para as leitoras terem suas próprias criações também. Fizemos o possível para incluir o máximo das colaboradoras nos livros. Foi um processo muito doido e muito único, como praticamente todas as experiências que tive enquanto estava na revista, porque foram processos coletivos com mais de cinquenta pessoas envolvidas. Isso deu uma unicidade enorme pros livros, existem muitas perspectivas diferentes ali dentro, que conversam e se complementam como nunca vi em um livro antes. Dá um orgulho e carinho enorme de eles existirem no mundo.


3- Você possui alguma rotina pra escrever?

Acho que todo mundo quer ouvir que tenho uma rotina fixa e saudável, porque dá aquela segurança de que, se você também fizer isso, você vai conseguir alcançar todos os seus sonhos. É aquela necessidade de conforto que uma narrativa fechada nos dá quando vivemos em um mundo caótico e sem sentido. Mas a verdade é que eu não posso oferecer essa história confortável. Até caí nas graças desse discurso e tentei criar uma rotina razoável, mas não funcionou pra mim.

Não tenho nenhum horário fixo, apesar de sempre arranjar um momento na semana que sento e tento escrever. Acho importante ter algum tempo para tentar organizar as ideias da cabeça e passar pro papel, mas não é todo o dia que acontece, e tudo bem. Meu processo de criação é muito louco e não me ajuda nada me obrigar a ficar sentada em frente ao computador quando não tenho nada a dizer, então só não faço isso. Se a história não está saindo ou não estou com vontade, eu simplesmente vou fazer outra coisa e só volto quando minha cabeça está mais estruturada – ou a inspiração bate.

Ao mesmo tempo, sinto que estou o tempo todo pensando sobre coisas que posso escrever, montando histórias e ensaiando frases ou parágrafos. Pode ser lavando louça, no metrô, antes de dormir, sempre tem uma partezinha do meu cérebro que está elaborando teorias, inventando personagens ou organizando linha de tempo fictícia. Tenho ideias demais e guardo todas. Mas não tenho nenhum tipo de rotina pra coloca-las em prática. Cada dia é um dia, cada noite é uma noite. O que aprendi é que todo mundo vai tentar te dar uma dica, mas no fim das contas só eu tenho o meu processo e preciso respeitar a maneira com que ele acontece - que é completamente aleatória e intensa, mas ok, faz parte.


4- Quando você resolveu publicar um livro seu? Quais foram as dificuldades que encontrou? 

Para os livros da Capitolina, a revista já era razoavelmente conhecida quando pensamos em publicar algo físico. Ainda quando estávamos estudando a ideia, algumas editoras se mostraram interessadas e aí foi conversar sobre as propostas que cada uma tinha. Não tivemos dificuldades quanto a isso, mas não é como as coisas acontecem normalmente.

Tenho, por exemplo, um livro de artista todinho pronto desde 2015, mas é muito difícil encontrar quem queira publica-lo. Por mais que eu já tenha a facilidade de contatos no meio editorial (o que já é um grande avanço), não é simples. No caso desse livro, por exemplo, como ele é muito alternativo, nenhuma editora (mesmo as pequenas/ independentes) encara ele, porque não tem a ver com o catálogo delas. Isso é algo que você sempre tem que pensar: uma editora que tenha um catálogo que tenha a ver com seu livro.

Coloquei esse projeto na gaveta por um tempo pra pensar com calma o que fazer, se queria publicar mesmo ou se era viagem da minha cabeça. Mas todo mundo dizia que eu tinha que publicar e percebi que era o que eu queria mesmo, mas o processo sempre me deu preguiça. Scanner, impressão e montagem sai muito caro. Existem também questões de logística de venda e entrega do livro que, sendo totalmente independente, fica todo por minha conta – desde achar uma gráfica legal, até entregar pra quem comprar, passando por pagar tudo e literalmente montar o livro. Tudo isso me dava um desânimo enorme, mas acredito muito nesse projeto e por isso decidi encarar a doideira da autopublicação.


5- Como você definiria seus livros pra quem nunca leu?

Como só tenho os livros da Capitolina publicados, vou dividir essa pergunta em duas partes.

Os livros da Capitolina são um abraço de uma irmã mais velha maneira e politizada, que vai te dizer que tá tudo bem, mas que também vai dizer que a única forma de resolver a questão é destruindo o Sistema (o que, honestamente, #mood).

As outras coisas que escrevo - que não são livros publicados, mas muitos textos internet a fora e muitos projetos ainda se desenvolvendo – são basicamente processos malucos de respostas. Minha escrita são tentativas nunca bem-sucedidas de respostas pras dúvidas que me coloco. Isso pode parecer profundo e intelectual, mas pra ser bem honesta isso é o que me faz descrever Harry Styles como um “Jesus Cristo gatinho pós-crucificação” ou dar títulos absurdos como “O mundo tá falido, mas plmdds não vamos voltar a escrever poemas simbolistas” ou “Alguém apresenta One Direction pra Dilma”. Porque quando você pensa muito tempo e muito a fundo sobre um assunto, você acaba chegando em pontos muito absurdos e meio engraçados, e é disso que eu gosto de escrever.


6- Como foi o processo de definir a sua identidade no meio literário? 

Nunca me passou pela cabeça que eu tinha que definir minha identidade no meio literário??? Eu só sou eu. Escrevo o que penso e torço pra que as pessoas gostem.


7- Dentre suas histórias, qual sua favorita? Por quê?

Olha, eu sou anarquista, não acredito em hierarquias. A gente pode considerar favoritismo uma espécie de hierarquização das histórias e eu definitivamente não tenho uma favorita. Amo muito todas as minhas histórias, acho que não seguiria em frente se não as amasse. Escrever é dolorido demais, se você não curte o que tá escrevendo, não tem sentido nenhum escrever e publicar.


8- Quais suas inspirações?

OK! Essa é a pergunta pra que eu sempre estive preparada pra responder!! Literalmente tenho uma nota no celular que chama "PESSOAS QUE ME INSPIRAM/ QUEM EU QUERO SER QUANDO CRESCER (uma lista sem hierarquias)". Por enquanto, a lista tem seis pessoas e elas são:

Tom Zé 
Jack Antonoff 
Rachel Bloom 
Charli XCX 
Clarice Lispector 
William Wegman 

Minhas amigas me inspiram muito também. Minhas inspirações são todas as pessoas que engajam em ideias absurdas e as levam à diante com humor e seriedade na mesma medida.


9- Um autor nacional que você acha que todos deveriam ler?

Orides Fontela!!! Ela é super esquecida hoje em dia, o que é muito injusto porque a Orides é uma das melhores poetas que já li. Ela era do grupo dos marginais e os poemas dela são sensacionais. Recomendo começar com um chamado "Errância".


10- Qual a maior dificuldade do mercado editorial brasileiro?

A maior dificuldade é que o mercado editorial brasileiro tá em crise, então absolutamente tudo é difícil. Tenho certeza de que todas as pessoas envolvidas nele (eu inclusa) são pelo menos 78% doidas.


11- Uma lembrança querida da carreira?

Tem duas que empatam por serem surreais (acho que já tá claro que gosto do absurdo): fazer lip sync de One Direction na bienal do Rio e ver a Daniela Mercury engasgar com chuva de brilho no meio de um programa de auditório.


12- Quais seus projetos para o futuro?

Particularmente, trabalho melhor com projetos simultâneos, então sempre tenho uma quantidade meio assustadora de projetos para o futuro. Mas, no momento, o que mais quero é publicar meu livro de artista.

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Para quem não conhece, a Capitolina é uma revista on-line independente criada em abril de 2014 por garotas que sentiam falta de ver suas experiências representadas na mídia para o público jovem feminino. Todo conteúdo é colaborativo e o livro surgiu como uma forma de reunir os melhores textos publicados na revista. Tudo deu tão certo que teve até uma segunda edição do livro, que além dos textos, possuem vários artigos inéditos e atividades interativas.




Você pode encontrar os textos da Capitolina aqui:
http://www.revistacapitolina.com.br/


Encontrando a Clara nas redes sociais:

@BrowneBrownie no twitter
@brownebrownie no instagram
https://tinyletter.com/BrowneBrownie na newsletter


E se você ficou curioso sobre o poema citado nessa entrevista, buscamos ele para encerarmos com chave de ouro essa conversa deliciosa que tivemos.


ERRÂNCIA


Só porque

Erro

Encontro

O que não se

Procura



Só porque

Erro

Invento

O labirinto



A busca

A coisa

A causa da

Procura



Só porque

Erro

Acerto:

Me construo



Margem de

erro: margem

De liberdade


Poesia reunida [1969-1996]. autora: Orides Fontela. editoras: 7Letras / Cosac Naify.)

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