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Post-resposta: Por quê Genderbending não são necessariamente transfóbicos?

17.3.18Colaboradores ConversaCult


Então, eu respondi ao [post maravilhoso] do João Paulo intitulado “Porquê que genderbending são transfóbicos?”, e basicamente a minha resposta foi apreciada o suficiente para eu ser convidada a postar aqui ^^ Podem chamar-me de Any e dou por pronomes femininos e neutros, e para que conste, não vim contradizer nada do que está no link - vim apenas introduzir mais nuances, já que eu sou uma viciada no tema representatividade (culpem o CC por isso) e achei que este blog merecia melhor do que ficar-se pelo argumento mais simples.

OBS: Sou de Portugal, então se notarem algo de estranho na minha escrita, provavelmente é por causa disso.

OBS2: Caso ainda não esteja claro, eu sou uma pessoa não-binária, ainda que com um alinhamento mais feminino. Então eu não vim falar com o intuito de deslegitimar a experiência de pessoas trans, até porque eu própria estou no espectro e, de novo, importa reconhecer que a maioria dos genderbendings tem, sim, uma base transfóbica.


O que são genderbendings?

Significa literalmente “dobra de género”. Basicamente, ocorre quando se troca o género oficial de uma personagem, algo que normalmente é feito por fãs através de fanarts ou fanfics. O exemplo mais típico é de rapariga cis para rapaz cis

*Cis / Cisgénero / Cisgénere / Pessoa cisgénera = Pessoa que se identifica com o género que lhe foi atribuído à nascença. Exemplo» Mulher / Pessoa que se identifica como mulher que foi designada do sexo feminino à nascença. Contrário de [trans].


Por quê que genderbendings costumam ser preconceituosos?

Reparem que eu disse preconceituosos, não apenas transfóbicos.

Podem ser transfóbicos praticamente pelas razões que foram mencionadas no outro post, recapitulando:

-> Assumem que todas as personagens são cis por omissão

-> Assumem que só pode haver troca de uma identidade cis para outra identidade cis

-> Consequentemente, como só há dois géneros cis (homem e mulher), géneros não-binários são ignorados

-> Costumam implicar que caraterísticas físicas igualam género, logo, reforçam noções como a de que uma mulher trans é um homem vestido de mulher – o que é completamente falso e preconceituoso

-> Derivando do tópico anterior, implicam que mudar de género obrigatoriamente exige uma mudança física » geralmente uma personagem masculina desenhada como personagem feminina ganha seios e ancas mais largas

-> Quando artistas de genderbending sabem o que são pessoas trans, raramente consideram que genderbending para identidades trans é igualmente válido – dizem que não é “verdadeiro genderbending”

Genderbendings são quase sempre, portanto, cissexistas e binaristas/exorssexistas. Citando as palavras do João: “Na verdade, já se parte do pressuposto "E se tal personagem fosse do sexo oposto?" e muitas vezes fazem isso com um personagem que é assumido como não-binário. E assim há a exclusão de intersexuais, não-binários e trans binários.


Genderbendings podem ainda ser suscitados por noções homofóbicas, normalmente devido a propósitos de shipping (shippar = querer que certas personagens fiquem juntas como um casal). Aí a questão costuma ser “Não seria giro se estas personagens fossem de géneros diferentes e se pudessem apaixonar?” Hum, olá, desde quando é que personagens do mesmo género não se podem apaixonar? Isso é basicamente heteronormatividade a falar, pois assume-se que as personagens têm de ser hétero e que se uma pessoa for de dado género, tem de gostar do “género oposto” (esse é um termo bem controverso), então duas personagens super próximas só se podem apaixonar se não forem do mesmo género. Por outras palavras, a pessoa provavelmente teria shipado as personagens mal as visse interagir, caso não as encarasse como sendo do mesmo género, e usa genderbending como uma forma de “ultrapassar o obstáculo”. Em adição, temos de novo transfobia por se achar que mudar de género implica mudar de corpo, e por se assumir que as personagens são do mesmo género simplesmente por terem corpos semelhantes.

Também não é incomum que genderbendings sejam sexistas ou machistas – mas especialmente sexistas. É bastante comum que, quando desenhadas como sendo de outro género, cis ou não (daqui a pouco falo de genderbendings não-cisgéneros), as personagens sejam consideravelmente sexualizadas fisicamente, ou representadas de forma estereotipada. Por exemplo, uma personagem masculina, quando retratada como mulher cis, pode passar a ser fraca ou extremamente feminina, acabando por ser despersonalizada, ou aderir a comportamentos como usar maquilhagem e depilar-se sem questionar. Uma personagem feminina canonicamente cis, quando desenhada como um homem cis, pode ser extremamente musculosa, alta e cair um bocado no físico mais desejado.


Por quê que não se pode fazer a generalização de que todos os genderbendings são transfóbicos?

Pode parecer contraditório apresentar o outro lado da moeda, mas de contraditório não tem realmente nada. Digamos apenas que cerca de 95% dos genderbendings são transfóbicos, mas que há 5% que se salva – e esse número está a aumentar! Como há cada vez mais awareness (consciência, informação) sobre diferentes identidades de género, genderbendings têm-se tornado mais inclusivos e parece que todos os dias surge um novo headcanon trans.

Curiosidade: Antigamente, era mais comum utilizar-se o termo genderswap em vez de genderbending. A razão pela qual o termo genderbending surgiu foi precisamente por ser entendido como “dobra” e não “troca” de género, sugerindo uma interpretação menos binária. Genderswap sim, é transfóbico. Até o site [fanlore] reconhece isso, e sugere o termo alternativo cisswap. Já genderbending por vezes é chamado de genderfuck ou gender spectrum slide.

Então, porquê que nem sempre genderbendings são transfóbicos?

-> Não implicam necessariamente que trocas de género – ou seja, de identidade – requeiram uma troca de corpo, logo, há genderbendings trans binários, por exemplo:

homem cis » mulher trans | mulher cis » homem trans.

o Nota 1: homem cis » homem trans | mulher cis » mulher trans não pode ser considerado genderbending, uma vez que o género da personagem é o mesmo. Mas pode ser considerado um headcanon trans.

o Nota 2: Trocar o género de uma personagem trans para qualquer identidade cis é muito, muiiiito provavelmente transfóbico – seria o equivalente a desenhar uma personagem negra com pele branca, apagando uma entidade já pouquíssimo representada. Quanto muito, poderá ser tolerável se se trocar o género de todas as personagens, e não só de trans para cis ou vice-versa. Trocar o género de uma personagem trans para qualquer outra identidade trans não tem problema, though.

-> Há genderbendings não-binários, seja de género cis para género não-binário, género binário trans para não-binário ou entre géneros não-binários. Também há genderbendings com personagens intersexo, embora sejam provavelmente os mais raros de todos.

-> Há genderbendings, tanto cis como não, onde as personagens questionam bastante os papéis de género. Então mesmo quando se retrata uma mudança tanto de género binário como de sexo, podendo essa mudança estar acompanhada de alguma noção transfóbica, pode ainda assim ser empoderador para muita gente (mesmo pessoas cis) que não se vestem ou comportam da maneira que a sociedade espera. Por exemplo, um homem cis que é transformado em mulher cis pode recusar-se a fazer depilação ou calar a sua opinião, e uma mulher cis transformada em homem cis pode recusar-se a fazer comentários machistas para se integrar ou ser quem cuida das crianças.

-> Podem ser usados como uma forma de as pessoas explorarem o próprio género, e muitas pessoas trans até se vêm afirmadas nisso [www]. Em alguns casos, mesmo genderbendings de um género cis para outro foram importantes pois serviram de pontapé inicial para começarem a questionar o seu género.

-> Genderbending também pode ser uma forma de explorar os conceitos de androginia, masculinidade, feminilidade… Embora tenda a excessivamente equacionar isso a corpo e género propriamente dito, e embora, como disse antes, isso costume ocorrer de forma bem sexista.


Dicas para criar genderbendings não preconceituosos:

Se criar um genderbending de género cis para outro…

-> Faça a personagem questionar os padrões de género e, caso adira a alguns, que seja ou por se sentir bem com eles ou por alguma necessidade que sirva a narrativa – não porque concorda com essas imposições.

-> Tente não criar só genderbendings entre géneros cis, quer em fanarts quer em fanfics, para deixar explícito que considera válidas todas as identidades de género possíveis.

-> É interessante a sua personagem experienciar situações semelhantes à de pessoas trans. Mas cuidado para não reforçar a noção de que todas as pessoas trans se sentem “presas no corpo errado”, pois está longe de ser algo comum a todas [www].


Se criar genderbendings de um género cis para género trans, é bastante útil informar-se acerca de definições relacionadas e experiencias trans, para deixar a sua história menos estereotipada ou romantizada. Estereótipos em si não são um problema, mas trata-los como experiência única sim. Se tiver mais do que um genderbending desse estilo, faça questão de atribuir a cada um experiências diferentes.

Outros genderbendings: A única dica que tenho é, de novo, informar-se. E ter bastante cuidado com os termos que usa, caso seja fanfic.

Evite: Associar mudança de género a mudança de corpo ou de roupas, fazer genderbending de identidades trans para identidades cis, limitar-se a criar genderbendings apenas entre identidades cis, e reforçar os modelos ideais da sociedade de género ou sexualidade sem questionar.

E era isso. Se estiverem interessados em mais conteúdo meu, podem acompanhar o meu bloguito [www] ou o meu Tumblr especializado em assuntos lgbt+ [www] [Glossário]

***

Quem escreveu: Anilyan na internet, é uma pessoa não-binária simultaneamente com uma forte identidade feminina, bissexual e feminista interseccional. Privilegiada em provavelmente todas as outras categorias, sendo que Portugal, onde vive, já é um país bastante privilegiado por si. O anime No.6 foi responsável por impulsionar o seu fascínio pelo tema da representatividade, e A lenda de Korra também foi um forte ponto de viragem. Blogueira e ativista online, mas incapaz de encontrar a ponta da fita cola ou de viver sem chocolate. Blog principal: [caixinha-any.blogspot.pt]

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