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Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein

7.6.17Taiany Araújo


Tudo começou mais ou menos há um ano, e sim, antes de falar propriamente sobre o livro eu tenho que voltar no tempo e dizer como o conheci.

A editora Aleph tem um evento chamado Café Intergaláctico que nada mais é que um encontro de blogueiros/livreiros fãs de cultura pop e ficção científica, onde o pessoal da editora fala dos lançamentos, solta alguns spoilers e fofocas de bastidores e a gente surta. Ah, e ganhamos mimos fofíssimos. Foi no nosso segundo evento, em 2016, que uma coisa inédita quase aconteceu, e tudo por causa de um livro.

De maneira geral, eu e a Bells (essa mesma aqui do blog) não brigamos, a gente já discordou de algumas coisas e talz, mas briga briga nunca aconteceu, até que a Aleph falou de um dos livros que iria lançar. Enquanto eles discorriam sobre a história, mais e mais eu me identificava e mais queria aquele livro para mim. Mal eu sabia que Isabelle estava com olhos brilhantes e desejosos querendo pedir o livro também, e nesse momento eu não fui uma pessoa desprendida que dá as oportunidades para as outras. Não, não, eu usei minha carta na manga que nunca uso e não arredei pé do meu direito em pedir esse livro (a carta na manga é o fato de sempre deixar que ela e a Carol peçam as coisas da Aleph porque elas gostam até mais que eu). Ah, e a mediação de Caroline foi importantíssima para minha causa.

Pois bem, depois dessa história toda acreditar-se-ia que levei o livro para casa e devorei numa tacada só, mas nãoooooooooo. O livro nem tinha sido lançado, e eu meio já tinha esquecido dele quando “ehhhhh, em março a Aleph vai lançar Um Estranho numa Terra Estranha”. Correeeee~

Agora vamos ao livro

Um Estranho numa Terra Estranha não é um livro fácil de ler. E isso não acontece por ser rebuscado, denso e nem nada, a leitura até que flui muito bem, contudo, é tanta informação para absorver que por mais que tenhamos contato com as coisas, o grokar as mesmas é um tanto quanto vagaroso. A não ser o próprio grokar que matei de primeira e ficava abismada que o pessoal do livro parecia não compreender.

O enredo (aparentemente) gira em torno de Valentine Michael Smith, uma criança nascida durante a primeira expedição terráquea em Marte e que lá cresceu entre os marcianos, sendo criado, educado e tratado como um deles e sem nenhum contato com os da sua própria espécie. Após uma segunda expedição para Marte, agora com Valentine já adulto, os terráqueos são surpreendidos por sua existência, e acham por certo que ele deve voltar para “casa”. Assim, pode-se dizer que a história trata da interação de Mike, o Homem de Marte, com a cultura terráquea, ou ainda, a nossa interação com nós mesmos, nossas, crenças, valores, pudores, mas isso só percebemos conforme vamos avançando na leitura, e talvez há quem nunca perceba.

“(...) só não se trata de uma escolha livre para mim, nem para você, e muito menos para Mike. É quase impossível apagar o seu treinamento mais primitivo. (...) se você tivesse sido criado por marcianos, você teria a mesma atitude (...) que Mike tem?” (p.169)

Quando se fala de uma criança sendo criada por uma espécie diferente da sua, a primeira coisa que penso é n’O Livro da Selva, de Rudyard Kipling (1894) que conta a história de Mogli, um menino que foi criado por lobos. E realmente fazer essa associação não é estranho, aqui o nosso herói também é muito mais aqueles que o criaram, com sua forma de pensamento, “comportamento”, e modo de ver as coisas do que aqueles dos quais ele veio. É aqui que o título do livro faz todo o sentido, Valentine não é marciano, mas foi criado lá, e não se sente em casa no seu próprio planeta, Um estranho (terráqueo/marciano) numa terra estranha (Marte/Terra).

“Jill, não sabemos muita coisa sobre Marte, mas sabemos que marcianos não são humanos.”(p.40)

Em paralelo com as descobertas que Mike vai fazendo sobre esse novo lugar e com sua tentativa de entender nosso modo de viver, somos levados a pensar sobre sexo, relacionamentos, religião, fé, política, além de crenças e certezas tão arraigada em nós. Onde está escrito que nossa verdade é absoluta? Que nossos hábitos são inerentes à nossa raça? O que é certo e errado? O livro vem nos colocar em xeque e nos fazer pensar, e nesse ponto é preciso estar no mínimo disposto a ouvir, pois talvez alguns fatos contradigam justamente nossa forma de ver e agir no mundo. Mas também é preciso entender que o livro não é algo sagrado que deva ser seguido, ele é um provocador que vem como um instrumento de contestação.

“Aprendi há muitos anos que não se discute nunca com um especialista. Só que eu também aprendi que a história é uma longa lista de especialistas que estavam gravemente enganados” (p.289)

Durante suas “aventuras” na Terra, o Homem de Marte não faz só amigos como irmãos de água, um desses irmãos é Jubal E. Harshaw. Figura importantíssima para a “educação” de Mike, ele exerce um papel quase Socrático, dando o ponta pé inicial para as principais indagações da história. Por vezes vemos Jubal suspendendo seus valores para tentar entender quem é esse homem/menino, responsável pela maioria dos diálogos que questionam justamente o sistema de crenças e valores, ele nos convida a fazer o mesmo, pensar sobre nossa cultura e a cultura do outro.

É por essas e outras que o livro se torna um tanto quanto intenso na leitura, há muitos detalhes e avaliações a serem feitos, não é algo para se levar levianamente, uma piscadela e talvez se perca uma parte significativa da história. No entanto, não pensem que o livro é drama atrás de drama, algo pesado com o qual saímos cansados no final, longe disso, Um Estranho numa Terra estranha consegue arrancar gargalhadas ou ao menos um riso de incredulidade. Os desdobramentos das coisas beiram o absurdo algumas vezes, e a forma com que Valentine, com toda sua inocência da vida terráquea, lida com suas descobertas gera no leitor um sentimento de simpatia e esperança para que tudo dê certo.


Contudo, muitas vezes quando se fala muito, se fala mais do que se deve. Algumas concepções do livro vão na contramão de tudo o que ele vem desenvolvendo. Por exemplo, quando uma das mulheres está explicando para Valentine que “Nove em cada dez vezes, se uma garota é estuprada, é parcialmente culpa dela” (p. 392). Dizer que fiquei chocada é pouco, foi um misto de incredulidade e tristeza por estar lendo algo assim. Não sei se esse fato apareceu por causa do pensamento da época, já que o livro foi escrito em 1961, mas mesmo que tenha sido ainda é horrível que uma falácia dessas esteja num livro tão influente e não datado, uma vez que Heinlein escreveu uma história atemporal. Além disso, essa concepção de que a culpa é da vitima ainda se manifesta nos dias de hoje, já passou da hora de compreendermos que A CULPA NUNCA É DA VITIMA. PONTO. NÃO HÁ O QUE SE QUESTIONAR EM RELAÇÃO A ISSO.

Apesar dos pesares, Um Estranho numa Terra estranha é um livro grandiosíssimo, recheado de reflexões e indagações filosóficas num ambiente de ficção cientifica que só faz por torna tudo mais interessante. Ah, e a edição lançada pela Aleph tem introdução de ninguém menos que Neil Gaiman, é pra se jogar no chão e implorar para a mãe comprar um exemplar.

Nota:
é aquele livro que se lê e vai emprestando pra todo mundo

Ficha Técnica:


- Autor: Robert A. Heinlein
- Editora: Aleph
- À venda em: Amazon










Obrigada à editora Aleph (essa linda) por ter cedido o livro pra gente! =D





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