CCdiário Eduardo Ferreira

O Dia Que Ninguém Ficou Para Trás

5.12.16Eduardo Ferreira


Era uma quarta feira 22:30h da noite e o professor, que a esse ponto já estaria fazendo a chamada, resolve "só explicar mais um pedacinho da matéria" e esse "pedacinho" demorou uma eternidade. Como um universitário clichê que depende de ônibus pra ir pra casa, eu não podia me dar ao luxo de atrasar.

Meu ônibus saía do ponto as 22:40 e às 22:35 o professor finalmente resolve fazer a bendita chamada.

Então eu esperei.

Mas não estamos falando de um professor qualquer. Estamos falando do professor que ousa em pleno 2016 ainda usar folhas de transparência e retroprojeção para ministrar sua aula. Um professor que se um dia eu tivesse que fazer uma metáfora sobre paciência eu certamente usaria o nome dele.

Ele senta na cadeira, escolhe a cor azul da sua caneta multicor e começa a chamada.

Não tem muita gente antes de mim na chamada. Vai ser rapidinho.

Passa A passa B, passa C e finalmente estamos no D. Só tem duas pessoas com D na sala e eu já me despedia dos amigos pronto pra me levantar quando brota do inferno uma senhorita (a primeira da lista de chamada, por sinal) dizendo que ele havia pulado o nome dela. (Ele não havia, porque eu ouvi ele dizendo o nome dela, aliás)

Então, ele troca a sua caneta multicor pra cor vermelha, corrige a presença da colega e depois de uma eternidade (que na verdade são 10 segundos mas aqui minha ansiedade já prejudicava minha percepção de tempo) pra trocar de volta pra cor azul ele continua a chamada.

Por fora eu estava calminho mas por dentro eu estava mais ou menos como esse gato:




Nesse ponto, eu já era 99% ansiedade e aquele 1% era preocupação com qual alternativa escolher pra chegar em casa. (O próximo ônibus só passaria 30 minutos depois).

Desci dois lances de escada que mais pareciam apenas um passo largo. Quando coloco os pés na porta da faculdade vejo o ônibus passar na minha frente. Aqui eu era 2% esperança de conseguir chegar a tempo e 98% ponderamento sobre a tal rota alternativa.

Eu ainda tinha que atravessar dois semáforos de uma avenida muito movimentada e andar pouco mais de 50 metros até onde ele pararia. O primeiro semáforo estava aberto pra pedestres.


Aqui eu era 30% esperança e 70% imaginando minha cena chegando perto do ônibus e ele saindo.



O segundo: Fechado.

Aproveitei uma brecha no fluxo dos carros e corri mesmo com o sinal fechado para pedestres (não siga meu exemplo, caro leitor. Respeite o sinal, tá bom?).

Por sorte, tinha muita gente entrando no ônibus e eu consegui chegar a tempo de até pegar um projeto de fila na porta do ônibus e ainda conseguir um lugar para sentar(!). Aqui eu era 99% "Pqp se eu não nasci com a bunda virada pra lua a lua nasceu com a bunda virada pra mim" e 1% "o que que acabou de acontecer?"

Então eu sentei no ônibus e não entrou mais ninguém. E o ônibus continuou parado....

Aqui eu era 30% "mds que sorte" e 70% o trouxa que correu sem precisar.

Ele ficou alguns minutos parado e olhando pela janela vi uma moça se aproximar do ônibus e parar de correr quando percebeu que o ônibus estava parado.

Aqui, ela era 100% "não vou ser trouxa e correr atrás de ônibus que ta parado". Claramente contando mais com a sorte do que eu.

E certamente menos ansiosa.

O motorista não viu a moça e quando ela estava a dois passos da porta ele saiu. Aqui eu era 50% "meu deus alguém ajuda" e os outro 50% ainda processando o fato de que esse alguém podia ser eu.

A moça que estava perto de mim processou mais rapidamente e gritou:

Aaaaaahhh moooça!

O que chamou a atenção de todo o ônibus que era 50% "que que tá acontecendo" e os outros 50% gritando "Motoriiiista aAaah mooooça".

Quem tem o costume de utilizar transporte público sabe que eles têm horário marcado e a maioria tá pouco se importando se tem alguém a poucos passos de chegar no ônibus. Muitos deles até fazem questão de fechar a porta na sua cara.

Mas aquele motorista não.

Ele parou.

Mesmo depois de já ter saído do lugar, ele parou fora da faixa de ônibus. Mas a moça, que naquele momento era 120% desespero, não viu que o ônibus tinha parado. Ela virou as costas e foi falar no telefone provavelmente já ponderando a rota alternativa dela. Foi quando a cobradora do ônibus colocou a cabeça pra fora e chamou ela.

Eu vi o rosto dela ao entrar no ônibus e naquele momento eu juro que ela era 200% gratidão.

Esse foi o dia que ninguém ficou pra trás e eu cheguei em casa 100% acreditando na bondade das pessoas e completamente certo que empatia ainda existe.



Esse texto foi publicado originalmente na Hora da Conversa, nossa newsletter quinzenal.

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1 comentários

  1. Olá, Eduardo.
    Adorei o texto. Eu penso a mesma coisa quando vou pra aula de bus. Eu fico observando e ainda existe a bondade nas pessoas. Já vi adultos oferecendo seu lugar para idosos, mesmo não sendo preferencial. E identifiquei esse meu sentimento com seu texto. Adorei mesmo.
    Parabéns.
    Amanda. Uma-simplesleitora.blogspot.com

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