3 temporada Black Mirror

San Junipero: a história que não existe

28.10.16Dana Martins


Eu falei no tumblr, eu falei no Batdrama, mas não dá pra sossegar até falar aqui no ConversaCult também, porque como acontece com todas as coisas que eu amo... a mão de fazer análises treme. Eu já fiz a apresentação de San Junipero, clique aqui pra ler. Agora esse post é pra quem já assistiu e quer ler sobre.  

San Junipero é só um episódio, uma história pequena que dura 1 hora, e isso me fez ficar pensando "caramba, mas eu vou escrever um post inteiro só sobre um episódio?" Sim. San Junipero merece, porque mesmo sozinho ele tem um significado maior: ele é uma história que não existe.

Ele é a série que você não tem pra ver.

Ele é o filme que você não encontra. 

Ele é o livro que não chegou às prateleiras.

Ok, vamos falar sobre o que é San Junipero: É uma história de uma cidade criada em realidade virtual como terapia pra velhinhos poderem passar seus últimos anos reexperimentando a vida - e aí, depois que morrerem, se quiserem, continuarem vivendo ali. Deixando de lado as implicações disso que me deixam curiosa (as pessoas estão reaaalmente vivas ali? ou é só um "personagem não jogável" bem realista? Eu sei que Yorkie fala que é real, mas é meio difícil de aceitar essa pequena civilização de pessoas digitais. Dá pra chamar cada uma delas de inteligência artificial? Elas só ficam presas ali? Elas não cansam de passar a eternidade na mesma época? E se elas fizerem uma revolução? Será que dá pra fazer upload da pessoa num android, e aí ela vive normalmente?). 

plot pra esse universo: alguém morto lá de dentro convence
um velhinho a invadir o sistema pra "libertar" geral e eles poderem voltar como androids

Então a temática da história é toda: esse mundo virtual, onde você pode ter uma segunda chance de viver. 

Não. É mais do que isso. 

É um mundo virtual onde você tem a chance de realmente viver, além das amarras do nosso mundo, além das limitações do nosso corpo, da nossa cultura e até dos nossos medos, afinal, é uma realidade virtual sem consequências. 

Reflita, se tu quer dar o cu no meio da rua - tu pode, ninguém se importa. E aí a gente abre uma discussão muito interessante sobre como um mundo virtual acaba sendo mais realista do que a realidade, porque no mundo real nós vivemos por trás das máscaras que criamos pra poder sobreviver/por medos. 

Mas Black Mirror faz essas indagações de uma forma muito mais doce, através do romance de uma garota que passou quase a vida inteira numa cama e uma garota que já viveu tudo o que normalmente se espera ser vivido. 

Logo que elas se conhecem e sentam no bar para tomar uma bebida, Kelly olha para Yorkie, e repara em sua roupa totalmente fora de lugar ali. Ela vira para as pessoas dançando e fala "todo mundo tenta se encaixar, mas você...". No momento, nós ainda não sabemos que essa é uma realidade virtual, e Yorkie poderia ter vestido o que quisesse, e ela escolheu ser ela mesma. Isso chama atenção de Kelly, e já faz parte dessa narrativa - um mundo virtual que te deixa ser quem você realmente é. 






Eu acho que uma das maravilhas de San Junipero é que não é sobre o romance, não é sobre a tecnologia, não é sobre os dilemas pessoais das personagens, é uma mistura intrigante disso tudo. O passado de Yorkie com sua família homofóbica, que levou ao acidente, está relacionado a ela não ter vivido a vida que queria, e a ela buscar em San Junipero a chance de fazer isso pelo menos antes de morrer (ou depois), e é através do romance com Kelly que ela aprende a fazer isso. 

Já Kelly, ela está em San Junipero para apagar as mágoas, se divertir, esquecer, passar o tempo até morrer, mas através de Yorkie ela descobre toda uma vida que ela ainda não viveu, e com isso é obrigada a confrontar o passado para reaprender a viver. Eu adoro como o episódio constrói o lado autodestrutivo dela, que se culpa por poder estar ali e aproveitar enquanto seu ex-marido e filha estão mortos. Só 1 hora, com tanta coisa acontecendo, mas o arco dela ainda é desenvolvido e completo. 

Pra mim, a melhor parte é como o grande momento do episódio é a decisão de Kelly. Você quer viver essa vida? Você quer viver?

A tecnologia aqui é o que torna isso possível. Mas também está na forma como o episódio é contado, criando o mistério do "o que está acontecendo?" que vai se acumulando até descobrirmos a verdade - elas são duas velhinhas a beira da morte. E aí temos a tensão final: "você quer ter uma segunda chance de viver?"

A história é tão simples e rica e suave, que tudo se desliza e se encaixa perfeitamente. 



Quando eu escrevi sobre San Junipero no tumblr, eu queria saber se a escolha de duas garotas para essa história tinha sido intencional ou não. Porque a partir do momento que é um romance entre duas garotas, isso ganha um significado maior, principalmente em 2016.

Quando Yorkie e Kelly protagonizam, essa não é apenas uma história sobre segunda chance, mas é uma história sobre tragédia, sobre uma vida que te impossibilita de existir por ser LGBT+. O escritor disse em uma entrevista que no início era um homem e mulher, mas depois acabou mudando porque... por que não? E isso ainda dava uma nuance a mais. Como eu falei ali em cima, San Junipero não é só um lugar onde você pode viver como quiser, mas a chance de viver como você realmente é

Gugu Mbatha-Raw e a Mackenzie Davis são maravilhosas


E tem mais.

Você precisa entender que personagens LGBT+ normalmente tem um só tipo de história: tragédia. Há uns 50 anos, isso era inclusive exigido para publicação, porque gente gay sendo feliz em história era "propaganda homossexual". E vamos lembrar que até 20 anos atrás ser gay era considerado doença pelos órgãos de saúde, e não duvido que ainda seja assim em alguns países do mundo. Muita dessa mentalidade ainda está presente nas histórias hoje em dia. Os personagens LGBT+ são raros, censurados, e quando existem, têm histórias sobre morte. 

Isso significa que tudo o que pessoas LGBT+ conseguem ver na ficção é a mensagem de que vão sofrer e morrer. 

Você vai morrer.

Você vai morrer.

Você vai morrer.

Você vai morrer.

Você vai morrer. 

E essa personagem lutadora ninja foda vencedora de guerras?

Também vai morrer, se for LGBT+. 

Você vai morrer. 

E San Junipero não é diferente.

Ainda é uma história sobre a impossibilidade de um relacionamento separado pela morte. 



Maaas é uma história onde isso é revertido. 

Primeiro, que a maior parte do episódio, nós não sabemos da possibilidade de morte. Nós apenas acompanhamos um romance muito fofinho, que não é sexualizado (novidade!), que lembra a filme adolescentes de romance, que é só bonito sob toda a aesthetic do passar dos anos. (e que deixa claro que Kelly é bissexual e Yorkie lésbica sem ser forçado) Nós queremos saber como elas vão ficar juntas, e entender essa trama scifi legal. 

Sabe quantas histórias eu já vi assim com duas protagonistas mulheres e LGBT+? Nenhuma.

Quando a história da morte aparece, o foco não está na morte, está na decisão de Kelly. Ela quer ter uma segunda chance? Ela vai se abrir pra Yorkie? Ela vai superar a culpa que ela sente e aproveitar essa vida? 

A decisão é, em primeiro lugar, sobre o desenvolvimento de personagem de Kelly. Você poderia contar essa mesma história sem a morte, sem tecnologia, as duas com realmente 20 anos apenas decidindo se vão seguir o mesmo caminho ou não. Mas a morte e a tecnologia aqui aparecem pra tornar o conto mais épico. Dá um ar atemporal pra história delas, aumenta a emoção e o significado do tema.

E aí Black Mirror dá uma aula de como usar morte para aumentar o impacto de uma forma delicada, sem precisar fazer carnificina e jogando personagem fora só pra dizer "sou foda, cara! eu fui lá!" Aliás, esse é o diferencial. A morte em Black Mirror não está ali como um testamento de ego, ou porque "tem que acontecer".



E mais do que isso, a morte só representa o fim de uma "parte" da jornada delas, porque agora elas têm uma nova vida, só delas, que as duas podem realmente viver como quiserem e serem felizes para sempre.

San Junipero é uma história sobre segundas chances, sobre como a tecnologia pode trazer liberdade para garotas LGBT+, sobre como mesmo o impossível - a morte - pode ser superado.

Em 2016, onde uma personagem mulher LGBT+ morreu praticamente a cada semana em alguma série, onde a maior parte da representatividade LGBT+ para mulher deixou de existir, San Junipero é poético. É uma resposta. É uma história que diz "a morte não é o fim." 

Exatamente o tipo de história que precisava existir agora.

No geral, San Junipero não é a história ideal. Ainda precisamos de história onde... bem, as personagens estão vivas, e existem por mais de um episódio, e morte não é o tema, e vivem todo tipo de coisa como qualquer outro personagem hétero. Mas num ano marcado pelo trope Bury Your Gays (morte de personagens gays), San Junipero é uma história que justamente discute o trope, de todas as melhores formas - provando que não é sobre sexualidade, mas isso não deixa de ser importante, e que você pode usar morte pra criar emoção sem destruir pessoas reais e que histórias ainda podem ser épicas com finais felizes. 

isso sobre representatividade LGBT+, né. Porque essa história do passado da Yorkie
é justificativa bem furada e ainda parece bem ableista. 


Pra completar, Black Mirror é uma série marcada por narrativas extremas e pessimistas, o tipo de história que você pode dizer "mas todo mundo morre!" ou "é dark, você queria o que?", e chegando de fininho provou que quando você quer, é possível dar uma narrativa positiva para personagens LGBT+. 

O episódio San Junipero da 3ª temporada de Black Mirror é ficção de qualidade, algo muito bom de assistir, e de quebra ainda é uma história rara sobre representatividade LGBT+. Eu não tenho palavras pra explicar que ele realmente prova que é possível, e lindo, fazer um tipo de história que muitos escritores só dão justificativa para não existir.


Indique o episódio para os seus amigos, clique aqui e envie o post de apresentação.

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5 comentários

  1. Uma coisa que eu nunca pensei que ia me acontecer: chorar enquanto lia uma crítica sobre um seriado. Realmente fiquei tocado pela forma com que você abordou esse episódio. San Junipero é muito, mas muito lindo. Eu assisti duas vezes, tentando entender melhor a trama. Me apaixonei pelas personagens (Kelly e Yorkie = amor elevado a décima potencia!!!!!!). Na parte que você escreve que este é um filme que não tem para ver, um livro que não chegou as prateleiras, meus olhos já encheram d'água. Puta merda! Concordo com tudo que você escreveu, mas tem uma coisa que eu senti no fim do episódio. San Junipero é uma pizza de brigadeiro com nutela e morangos, mas que deixa um gostinho amargo na boca. Esse gosto amargo é que esse "final feliz", nesse suposto "paraíso" artificial traz um debate muito interessante: será que uma vida eterna vale apena, mas ao lado de uma pessoa amada? Quando a Kelly fala sobre o seu casamento para a Yorkie, ela fala de tudo pelo que ela e o marido passaram juntos, e é oque torna mais forte essa ligação (tédio, amor, tristeza, dificuldades etc.). Em um lugar onde o tempo não passa (pelo menos não de forma natural) e as pessoas não envelhecem, não tem perspectiva de futuro, não tem ambições a perseguir, não precisam trabalhar, estudar, uma vida apenas de festas e baladas e viagens - não chegaria um momento em que tudo isso se tornaria tedioso e até insuportavel já que nada muda? E outra coisa: a eternidade é tempo demais, mesmo para o amor mais sincero e puro, você não acha? É isso que eu gostaria de debater com alguem. San Junipero é oque as pessoas com o mínimo de sensibilidade deveriam assitir para verem a beleza, não apenas do amor entre duas mulheres, mas do amor como no geral, o amor que transpõe preconceitos e barreiras. Lindo demais. Parabens pela crítica e continue assim. PS: eu gostaria de me identificar mas não como fazer isso aqui, não tenho cadastro e acho que não vou fazer. Se você quiser me responder, meu perfil no YouTube é Kiko Arm.

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    Respostas
    1. vou responder aqui, não sei se você vai ver, mas vambora.

      muito legal ver essa reação <3

      Então... eu acho que as suas perguntas, assim como as minhas lá no início do post, saem do tópico da história, que é ter a possibilidade de viver outra vez e poder >viver< de verdade. Eu acho que, até pelo formato, não é algo que elabora muito. É mais uma sensação do momento??

      maaaaaaaas. ao mesmo tempo, tem todas essas questões. eu acho que isso é o que torna interessante. e eu fiquei pensando em algo parecido. porque... como é viver nesse lugar? como eu disse, qual é objetivo? você só sai por aí todo dia e passeia na cidade? pra que? o que te leva a fazer isso? você provavelmente nem dorme. eu acho que elas vão querer aproveitar o que puderem, mas e depois que fizerem todas essas coisas que queriam fazer? e aí? elas mudam, elas se transformam como a gente aqui? porque a gente faz isso.

      será que tem a opção de "se desligar"? e ainda: ELAS ESTÃO VIVAS DE VERDADE, OU É SÓ UMA "PROJEÇÃO"??

      eu acho que é interessante o conceito de "depois de viver na infinidade do paraíso, querer retornar às limitações do nosso mundo".

      eu não sei, eu sinceramente não sei discutir isso, porque tem muita opção. a gente pode discutir da importância da morte pra dar significado a nossa vida, ou... eu nem sei pra onde ir, de tanta possibilidade. a história deixa tudo isso em aberto.

      e poderia chegar um momento tedioso mesmo. mas aí duas coisas: 1- quem disse que nada muda? 2- e se chegar o tédio, não é algo que elas vão passar juntas também? ela está começando uma nova vida, com novos significados e desafios, com a nova garota.

      e só pra completar, eu acho que as pessoas deveriam assistir por apenas ser um amor entre duas mulheres, sim. inclusive, é por ser entre duas mulheres que essa história não existe

      eu não sei se isso ajudou em alguma coisa, mas se quiser falar mais, fique a vontade. adoro falar sobre san junipero

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  2. Tem um grupo de debate sobre Black Mirror no facebook, vou postar esse seu artigo lá, tudo bem? Acho que a galera vai curtir bastante. Eu até escrevi lá no grupo que San Junipero daria um livro só pelas hipóteses e debates que podem ser levantados naquele mundo e fora dele também.

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  3. Excelente crítica para um episódio Genial. "Existe duas opções de finais, um para quem jogo sozinho e outro para quem joga em dupla" Então acredito que elas foram felizes. Numa entrevista, o Charlie Brooker fala que sim elas estão lá! Não são cookies. Também estou nesse grupo de Facebook e realmente seria interessante postar esse artigo lá. Vou aguardar! E vale ressaltar: É muito bom ler alguém que sabe o que está escrevendo.

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