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The 42nd St Band (ou Entrevista imaginária com Renato Russo)

27.10.16Taiany Araújo


Taiany: Qual foi a motivação para escrever esse livro?

Renato Russo: Bem, eu nem estava pensando em escrever um livro. Eu tava num momento muito fodido da minha vida, eu era um adolescente de 15 anos que não podia sair de casa porque tava me recuperando não só de uma doença, como também de um erro médico, eu sentia dores alucinantes, mas o pior é que eu me sentia sozinho. Então eu escrevia coisas pra passar o tempo.


T: E porque você resolveu publicar agora?

RR: Eu achei varias folhas e cadernos velhos no meu antigo quarto na casa dos meus pais, e foi legal ficar lendo aquelas coisas, tava tudo meio confuso e tinham vários textos em inglês, mas achei que pudesse ser arrumando de uma maneira que desse pra entender. É muito louco achar coisas, principalmente escritas, de quando éramos adolescentes, a gente tenta se expressar e nem sempre consegue da forma que imaginamos.

T: Muitos disseram que a 42nd St Band tem muito daquilo que compõe a Legião Urbana, você concorda com isso?

RR: Não é uma questão de concordar, acho que as duas têm suas particularidades e características, mas como banda é claro que tem horas que eles se assimilam. Porra as duas são bandas de rock, é claro que elas vão ter umas loucuras parecidas.

T: Nessa época você já pensava em formar uma banda?

RR: É claro, que adolescente de 15 anos não pensa em formar uma banda? Ainda mais naquela época onde a gente tava forçando uma liberdade que não tínhamos, a gente queria se expressar e o rock permitia isso. A gente queria ter voz, se gritar era a maneira de ser ouvida a gente gritava na cara de qualquer um.

T: A história parece ser centrada nos primos Eric, Jesse e Nick, eles sempre foram os “donos” da banda?

RR: Não existe isso de ser dono da banda, além disso, no começo da banda os três ainda não estavam juntos. Eu não lembro qual era a minha intenção para eles quando escrevia, mas ao reunir tudo percebi que fica claro como a banda é uma família, com brigas, problemas, desentendimento, então acho que a relação dos primos faz um paralelo com como é uma banda.

T: Mas durante a leitura a gente percebe o quanto os primos são unidos, ao longo da história eles não tiveram um grande desentendimento.

RR: Mas também percebemos o quanto eles são diferentes, o quanto a primeira impressão que eles têm um dos outros não é a mais favorável, e há longos afastamentos entre eles que a gente não sabe o que aconteceu.

T: Há letras de músicas escritas, nome das canções e CDs...Você não pensa em publica-los?

RR: Como assim? Aquelas não são minhas letras, não são minhas músicas, não é minha banda. Seria apropriação. Você tá me falando que eu devia roubar as músicas dos outros?

T: Não, claro que não, mas é que você escreveu né?

RR: Eu posso ter escrito, mas aquela é a 42nd St Band, ela é real. Ela tem uma história, que eu só contei os fragmentos. A gente nunca sabe a história completa das pessoas, eu só falei um pouco sobre o que sabia.

T: E sobre Aloha, título de uma das músicas da 42nd St Band, que saiu no álbum A tempestade da Legião?

RR: Não vou te falar que foi coincidência porque eu não acredito em coincidência, mas foi coincidência.  As coisas acontecem, nem sempre tem uma explicação para isso.

T: Então podemos dizer que o Eric Russel ser tão parecido com o Renato Russo é coincidência ou ele é um alter ego?

RR: Não sei, é?

T: É que parece que a 42nd St. Band ressoa na própria Legião Urbana, como se fosse um prenúncio.

RR: Como eu falei antes, cada uma é uma, mas talvez as duas tenham a mesma essência, o mesmo amor pela música, essa vontade de se expandir e contar uma história.

T: No final do livro a gente fica sabendo mais ou menos o rumo que cada um dos integrantes da banda tomou, são trabalhos paralelos, incluindo uma peça de teatro escrita pelo Eric Russel. Você pensa em escrever algo assim?

RR: Eu lancei um álbum solo, um em italiano, sou aberto a fazer aquilo que me dá vontade, mas não fico planejando essas coisas não, é mais o momento. Como esse agora por exemplo, eu não planejei achar esses textos e publicar um livro, mas tá ai. O livro não é literal nem cronológico, mas é fluido. É real.

T: Porque você recomendaria a leitura do livro?

RR: Olha eu não recomendo, leiam se quiserem.

T: Mas você tem algo para dizer aos jovens? Como uma mensagem final?

RR: Acreditem em vocês, façam aquilo que te der prazer se não for ferir ninguém, mas tenham cuidado para não se ferirem também. E não desistam.

T: É uma pena nosso tempo já estar acabando, eu ainda queria fazer tantas perguntas, como falar sobre o Blow Job Blues.

RR: (risadas) Aquilo foi muito louco, eu não faço a mínima ideia de como escrevi um Blues do Boquete porque com certeza nunca tinha recebido ou feito um, mas gostei muito da música quando achei. John Robbins virou meu ídolo.

T: O pessoal da banda ficava muito chapado, o que isso tem a dizer sobre o adolescente Renato Manfredini Jr. ?

RR: Que eu era um adolescente de 15 anos de classe média, a gente tem que entender que era outra época. E na verdade, eu tava trancado no meu quarto imaginando as coisas.

T: Ultima coisa, aquilo sobre o Allan foi muito louco. Como surgiu aquela história?

RR: Nem eu sei, num momento o cara tava ali, num outro tem aqueles coisas todas, parecia coisa de filme.

T: Bom, e agora que o livro foi lançado quais são seus planos?

RR: Descansar um pouco, mas com certeza vocês não ficaram muito tempo sem ouvir falar de mim.


Obs. Esse livro é para aqueles que, assim como eu, já se imaginaram dando entrevistas, cantando em shows, construindo personagens ou apenas sendo outra pessoa. Para aqueles que são tudo que quiserem em suas cabeças. Para aqueles que não têm medo de imaginar.

Obs 2. The 42nd St. Band, romance de uma banda imaginária é o retrato de uma banda que poderia ter existido de verdade, ilustrado com representações dos álbuns, títulos, letras, entrevistas, shows, referências e diversas outras coisas que compõem uma banda, inclusive os rumos seguidos pelos integrantes e suas histórias pregressa. Como originalmente os textos foram redigidos em inglês, a tradução é de Guilherme Gontijo Flores.

Obs 3. A estrutura do livro, cheia de fragmentos, textos similares e  contradições, pode ser desmotivadora para algumas pessoas, mas são justamente essas coisas que dão vida a história e nos deixa em dúvida se ela realmente aconteceu ou se foi apenas uma fantasia criada por um adolescente. Não foi um artista, ídolo de uma geração quem escreveu o livro, mas um menino que ainda não fazia ideia do que viraria. Porém, observando como era sua visão de mundo e criatividade, é impossível imaginar um futuro diferente para ele.
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Nota:



Ficha Técnica:



- Autora: Renato Russo
- Editora: Companhia das Letras
- À venda emExtra - Livraria Cultura - Amazon










O livro foi cedido pela Companhia das Letras, muito obrigada por me fornecer a chance de ler essa história incrível <3






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