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Os homens têm um papel no feminismo, só precisam o exercer da forma correta

19.7.16João Pedro Gomes



E então o tema “o papel do homem no feminismo (ou a falta de um)” cai no meu colo no amigo secreto de temas do CC. Apesar da clara importância do assunto, faltei me contorcer de agonia por medo da repercussão do que eu dissesse aqui ou qualquer coisa do tipo.

Isso talvez seja parte de um problema muito maior. Porque, sejamos sinceros: nós, homens, somos criaturas com um ego tão grande quanto frágil. Qualquer possibilidade de estar errado é quase a morte. Um momentinho qualquer em que não se é ouvido é uma derrota. Ao menor sinal de fraqueza, nós caímos. 

Isso tudo por causa de uma coisinha que tivemos a vida toda:


Chega a ser irônico “privilégio” ser um substantivo masculino, né? 

A gente sempre usa a palavra num sentido positivo. “Nossa, que privilégio ter você aqui” e coisas do tipo. É quase fácil esquecer a carga negativa que a palavra traz no sentido tratado neste texto: de que para alguém ter privilégios, a maioria fica em desvantagem. Nesse caso, já sabemos qual é a maioria em questão

É por esse status social atualmente superior que acredito que tenhamos, sim, um papel auxiliar no feminismo. Ele só não está sendo praticado da forma correta. Por isso, aqui vai uma lista com o objetivo de esclarecer como ou não desempenhar esse papel. 

(Lembrando que o texto tem base em minha visão pessoal, primariamente construída em discussões com pessoas engajadas com o movimento. É esperado que alguma ideia aqui exposta não seja condizente com alguma vertente do feminismo, por isso qualquer posicionamento que agregue à discussão será bem-vindo nos comentários). 

O primeiro passo para um homem que deseja contribuir com o feminismo é

1- Reconheça seus privilégios (e decida como agir depois disso) 

Uma frase que deixamos nos quotes do CC por um tempo, e a que talvez tenha mais me marcado aqui no blog até hoje, é: “quando você está acostumado ao privilégio, igualdade parece opressão”. Isso é tão verdade que dói.

É só olhar o ódio que recebeu a nova Homem-de-Ferro, Riri Williams, uma mulher negra, ou o novo filme dos Caça-fantasmas. O mero anúncio dessas mudanças causou uma reação em massa, como se os milhares de heróis homens e filmes voltados para o público masculino já existentes não estivessem mais lá. Estar fora dos holofotes por um segundo já parece, para muitos, o fim do mundo, o caos, a instauração da ditadura feminista/esquerdista/etc, o apocalipse… uma forma de opressão.

Deu pra perceber o quanto a gente se dói por qualquer coisa?

Por isso, reconhecer todas as vantagens que temos nesta vida é MUITO mais importante do que parece a princípio. Principalmente porque nos dá condições de chegar ao ponto de realmente fazer alguma diferença através de uma atividade constante de mudança de postura. 

Você sabe que sua voz é ouvida muito mais do que a das mulheres. Mas você para pra ouvir e dá espaço para elas falarem quando tem a oportunidade? 

Você vê sua esposa, que trabalha fora como você, fazendo todo o serviço de casa, mas tem consciência de que a casa também é sua, bem como as responsabilidades de mantê-la em ordem?

Você entende que a mulher é livre pra fazer o que quiser, mas continua usando “puta” e “vadia” como xingamento e não se posicionando contra quando os outros usam também?

Você sabe que mulheres tem que se contentar com personagens objetificadas em tudo quanto é mídia, mas fica boicotando um filme de ação porque o elenco não tá cheio de homens enquanto dá dinheiro cegamente para histórias que degradam a figura feminina?

Você acha que sua filha corre perigo andando sozinha na rua, mas ensina seu filho a se comportar em vez de censurar o comportamento e a liberdade dela? 

Você se orgulha de ser um cavalheiro e tratar as moças com respeito, mas se preocupa em estender esse comportamento para qualquer outra pessoa?

São infinitos exemplos. Só de eu estar escrevendo este texto com a consciência de que um homem pode lê-lo com outros olhos porque não foi escrito por uma mulher já revela um privilégio. É nosso papel, enquanto homens, reconhecer esse erro, e buscar um modo - tanto mudando nossa postura quanto a de outros homens - de fazer melhor a partir daí. 

O que nos leva ao item

2- Saiba ouvir e aprender com o que as mulheres têm a dizer

Nós não somos mulheres. Nós não sabemos como é ser mulher. Por isso, o mais óbvio é não desvalorizar o que elas têm a dizer e muito menos achar que sabemos mais do que elas sobre as dificuldades que enfrentam por ser mulher, certo?



Não é bem o que acontece. Na primeira oportunidade, o que mais se vê são homens fazendo questionamentos sobre os princípios do feminismo, sobre o modo como se deve lutar por igualdade, ou criticar a postura de uma mulher durante uma discussão.

Esse não é o nosso papel.

Pelo contrário, fazer isso é perpetuar uma atitude que o movimento luta para extinguir, que é a repressão à independência feminina.

Fazer isso é estar do lado opressor e, quando o lado oprimido tenta abrir a boca, calá-la com o pretexto de “saber o que é melhor pra ela”.

Fazer isso é ser machista.

Nós precisamos entender que o feminismo, mesmo buscando a equidade de gêneros, não tem esse nome à toa. Ele privilegia a mulher porque é a mulher que está em desvantagem. E quando uma balança não está equilibrada, nós não colocamos pesos iguais dos dois lados: nós damos mais peso para o lado que está mais vazio.


Mais do que justiça, isso é matemática simples :)

3 - E respeite o modo das mulheres se expressarem

Imagine que alguém pisou no seu pé com força. No mínimo vai ter um grito de protesto ou de dor.

Agora imagine que seu pé é pisado dezenas de vezes todos os dias, mas alguém abafa sua boca com a mão e impede de fazer qualquer ruído.

Quando essa mão não estiver mais lá, o grito será muito mais alto. Você OBVIAMENTE não vai pedir para essa pessoa calar a boca porque ela tá fazendo drama ou reagindo de forma exagerada.  

Policiamento de tom é uma realidade que também é nossa função combater. Desvalorizar a opinião deu uma mulher porque ela foi “grossa”, estava “estressadinha demais” ou “não ‘te respeitou’, então perdeu a razão” é, mais do que uma falta de empatia imensa, um ato desumano. É ignorar a dor alheia acumulada por anos simplesmente porque você, de dentro da sua redoma de vidro, não quer ser perturbado por gente fazendo barulho. 

Talvez esse seja um dos princípios mais importantes. Quando uma mulher for passional sobre sua experiência, fique quieto e escute. A raiva muitas vezes não é destinada a você, e sim ao grupo do qual você, querendo ou não, faz parte. Se sua consciência está limpa, não há por que se ofender. Se não está, você precisa ouvir e aprender. 


4 - Espalhe o feminismo onde ele não consegue chegar com facilidade


Se já é difícil chamar alguma atenção social como um todo, grupos predominantemente compostos de homens são território ainda mais fechado para os ideais feministas. Talvez nossa tarefa mais ativa seja abrir as portas para que eles entrem, levando ideias onde a voz da mulher não chega tão facilmente quanto a nossa. 

Eu vejo muita gente com receio de fazer isso, dizendo que pode fazer os outros te verem como o chato do grupo, ou mesmo acabar com amizades. Mas aí vai de cada um considerar se vale mesmo a pena manter por perto pessoas que se negam a enxergar além do próprio umbigo. 

***

É claro que poderiam ser horas e horas de texto. Inclusive, sobre como o feminismo também nos beneficia, por exemplo, nos livrando por vez dessa jaula chamada masculinidade tóxica. Mas, antes de pensar em nós mesmos, eu tenho a esperança de que apenas a ideia de construir um mundo onde todos sejam tratados como gente seja motivo o suficiente para qualquer um de nós começar a fazer alguma coisa. 

Se fica um resumo da história é que, mesmo que nós devamos respeitar o espaço do feminismo e não nos colocar como protagonistas do movimento (sim, amigos, podemos conter esse impulso), o nosso apoio e participação externa é fundamental para que ele se concretize. Afinal, uma luta liderada por mulheres não precisaria existir se homens não tivessem se dado ao direito de tomar o poder para si no passado.



"O feminismo é um movimento de mulheres, feito pra mulheres, mas ele é feito pra mudar as coisas no mundo. E talvez os homens não sejam fundamentais dentro do feminismo, mas eles tão aí no mundo, e como pessoas são importantes no mundo. Então o feminismo precisa atingir a todos, pra que haja equidade e igualdade de verdade". 
- Helena Guimarães

"EXATAMENTE!!! é algo que eu questiono muito, não dá pra gente se limitar ao campo feminino, a nossa voz tem que se espalhar pelos quatro cantos, chegar em todos os homens cis trans brancos negros héteros lgbt (PORQUE ABSOLUTAMENTE TODOS OS GRUPOS PODEM SER - E GERALMENTE SÃO - MACHISTAS)"
- Isabelle Fernandes


(UM OBRIGADO ENORME pra Helena e Bells - que ajudaram a rever ideias e melhorar muita coisa nisso aqui -, Natália, Dana e todas as mulheres que, direta ou indiretamente, contribuíram na elaboração desse post).

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9 comentários

  1. NASCEU A CRIANÇA, E ELA É LINDA!!!

    BATENDO PALMAS DE PÉ AQUI

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  2. Parabéns, excelente texto!
    Muitas vezes me deparo com feministas radicais dizendo que homem não tem nada a ver com feminismo, etc.. e fico naquela vontade de apoiar, porém com medo.
    Gostei muuuuito do texto! <3

    www.booksever.com.br

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  3. João que texto lindo e poderoso, eu tava concordando com a cabeça enqto lia. Achei tantas passagens tão certas no no fim dava praticamente colando o texto todo nos comentários. Concordo com gênero, número e grau. É preciso que os homens participem desse luta, , não como protagonistas, mas como atores que realmente são. Não somos todos?

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  4. Gente, vou me posicionar aqui, e não concordar comigo é uma prerrogativa mega saudável. (Toda vez que tem texto sobre feminismo, ou o homem concorda, ou tem que começar pedindo desculpa...)
    Por mais que os homens saibam sobre feminismo etc, não somos bem vindos. Isso tem que ficar claro de começo.
    Em uma comparação simples, eu não concordo com determinadas religiões, com os postulados que outorgam, independentemente do grau de liberdade ou de caridade que expressem. Eu não concordo com determinadas vertentes políticas, porque elas não correspondem aos meus valores, não importa quantos se vejam beneficiados por elas. Eu acredito que os valores constitucionais de identificação do indivíduo deveriam ser aplicados sobremaneira, não há o que discutir nesse sentido.
    Entretanto, eu também não aprecio determinados estilos musicais, não importa a maioria que goste de ouvir. Nem determinados pratos de comida. Nem determinados comportamentos (sobretudo a mania que as pessoas tem de colocar a mão em você quando querem sua atenção.) Isso são questões pessoais, ninguém tem nada com isso, a menos que invada o meu espaço ou me force a algo.
    A minha opinião só é válida tendo conhecimento de causa, experimentando, questionando, indo atrás, que é o que eu faço. Ignorância não é uma boa prerrogativa para opinião.
    Os postulados do feminismo, que estão na ponta da língua de todo mundo - Igualdade econômica, social, educacional e demais necessárias de forma civil - são constitucionais, logo, é inegável a necessidade disso, para ontem. Aqui sim, eu vejo papel para o homem no feminismo, porque estamos falando da aplicação de direitos civis diante de uma tradição questionável.
    O problema é que não existe um feminismo, mas vários, e eles não concordam entre si. Em relação ao feminismo que eu observo - usando termos corretos, o feminismo como roupagem para femismo e misandria, em especial - faz com que eu não concorde contigo naquele ponto 3. Se pisarem no seu pé, é problema seu. Se pisarem no seu pé, na minha frente, eu escolho me posicionar. Se pisarem no seu pé e você vier pisar no meu, aí nós temos um problema.
    Não dá para misturar as coisas. Nem me forçar a nada.
    Voltando ao meu exemplo inicial, você pode pregar a sua Bíblia com um megafone na praça, eu vou achar ridículo, mas não é problema meu. O problema vai começar na hora que você começar a me usar como exemplo do que irá para o seu Inferno; da mesma forma, misandria e femismo, feminismo que não reconheça trans, entre outras vertentes, não estão no rol das ideologias que considero, mas isso não é problema meu. O problema vai começar quando você apontar para mim e disse "tinha de ser homem pra fazer [complete com qualquer coisa]".

    Eu não vejo ideologias dando certo a curto prazo, e torço para a próxima geração pegar o melhor dessa - que não é lá muita coisa - e fazer a diferença mesmo. Sempre coexistirão momentos distintos das ideologias, porque a sociedade não tem acesso igual à informação. Nesse sentido, eu escolho dar ouvidos a quem eu considero adequado ao meu momento, e todo o restante eu tenho a postura saudável de não me importar.

    Então, eu não me vejo na obrigação de ter papel algum no feminismo, porque não é um movimento que me representa. Eu não me vejo na posição de impedi-lo, questioná-lo em suas bases (embora em suas manifestações individuais eu esteja como observador e isso seja parte do processo). E sobretudo, não dou a menor chance para ser agredido pelo fato de ser homem. Concordo com a Helena Guimarães - é um movimento de mulheres, por mulheres, e os homens estão aí no mundo.
    Não adianta pegar um megafone para convencer. Pelo menos, não a mim.
    Não sei se me fiz claro, mas é perto do que eu queria dizer.

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    Respostas
    1. Na verdade não entendi aonde você quis chegar HGUDHGDHFGHDFIGHFDI

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    2. Tem razão. Eu tô relendo e acho que é mais um esforço meu de entendimento.

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    3. Acho que entendi, pelo menos em parte, o que você disse, Emanuel, e agradeço desde já pela contribuição!

      São observações muito pertinentes. Sobre a pluralidade do feminismo, por exemplo. É bem verdade o que você disse, e acho que a gente vê tanto problema em fazer as pessoas lidarem com o movimento porque a palavra evoca uma coisa diferente pra cada um, a ponto de mesmo os direitos civis mais básicos, como você disse, serem rejeitados por uma má impressão ou experiência relacionada à reivindicação deles. Não sei até que ponto isso pode ser transformado agora ou é problema nosso: cai na velha prática de sempre entender que somos humanos, e que todos os "lados" de uma luta terão seus prós e contras, seus membros trazendo mil tons de boas ou más intenções e práticas.

      Isso posto, acredito que o feminismo que devamos apoiar é esse mesmo que está no cerne da equidade de gêneros (o que você disse que está na ponta da língua de todos), porque ele também é problema nosso enquanto participantes da sociedade que precisa ser transformada. O rumo que cada ramificação desses ideais toma não está em nosso alcance, até porque envolveria ter uma participação interna no movimento, o que não é nosso papel.

      "O problema vai começar quando você apontar para mim e disse "tinha de ser homem pra fazer [complete com qualquer coisa]" - Nesse caso em particular, acho que a gente deve ver o motivo da acusação (porque dificilmente seremos acusados de algo com essas palavras quando não reproduzimos alguma ideia ofensiva, ainda que sem intenção), tentar aprender com ela e, como você disse, ter a postura saudável de não se importar com o que pode parecer uma ofensa direta a nós. Como eu esclareci no texto, não vejo essa reação energética dessa forma, e sim como uma forma de extravasar uma revolta totalmente justificável contra o grupo do qual fazemos parte. Nesse sentido, mesmo que a pessoa que te disse isso faça parte de uma postura feminista imperfeita (assim como qualquer outra postura, de qualquer movimento social, sempre vai ser), ela ainda está chamando a atenção para uma causa importante. Não tentar tornar a conversa sobre nós, não ficar se defendendo de algo muito maior que um indivíduo, já impede que atrapalhemos a luta das mulheres, o que já é uma forma de ajuda muito grande. Tem que lembrar sempre que a balança ainda pende pro nosso lado, e essas manifestações são apenas tentativas nem sempre certeiras de jogar um pesinho do lado das mulheres também. É só tentando várias vezes que alguma vai, eventualmente, fazer um impacto.

      (Indico a leitura do texto sobre o "not all men", que a Dana fez: http://www.conversacult.com.br/2015/03/o-meme-not-all-men-o-problema-do-nem.html).

      Enfim. Acho que o feminismo é um movimento de mulheres, para mulheres, mas que que pode se beneficiar muito da compreensão de homens na sua expansão. Somos grande parte do grupo que precisa ouvir e mudar, no final do dia, e estar no mundo enquanto cidadãos - principalmente enquanto cidadãos detentores de poder na conjuntura social vigente - nos faz responsáveis também.

      Espero que eu tenha conseguido transmitir o que penso também uhahuauha

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  5. JOÃO ♥♥
    tô igual a Bells nisso hauahuahua seu texto ficou ótimo :)

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  6. Foi dolorido ler o termo misandria nos comentarios. Só faltou vir acompanhado de racismo reverso e heterofobia ahahaha o dia que misandria matar a cada minuto, cês me avisem

    E lendo os comentários, tenho algo a dizer: não achem que sabem tudo de feminismo radical, que toda feminista radical odeia homens (apesar de isso não ser muito difícil, risossss) e que é transfobica. Tem transfobia em tudo quanto é canto e muita gente não liga, mas quando feminista radical fala merda transfobica repercute muito mais, porque ficam esperando o tempo inteiro o erro de uma feminista pra repudiar o movimento inteiro hehehe Não existe porta voz do feminismo, então se a pagina "x" ou se a fulana que tu conhece falou besteira, não julgue todo um movimento :)

    e ah, sobre existirem muitos feminismos~~~: é necessário. Uma branca rica feminista não é o mesmo que uma branca pobre, que NAO É MESMO igual uma negra pobre, sacou? E ainda existem posicionamentos políticos dentro disso tudo, questões sociais, enfim... Movimentos nunca são homogêneos, a esquerda, por exemplo, também possui varias vertentes, concordâncias e discordâncias. No feminismo não é diferente.

    E voltando ao texto: ta maneiro!

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