Ariel Carvalho assexualidade

O problema da sexualidade do Capitão América

2.6.16Ariel Carvalho


Ah, vai ter problematização sim. E cheia de links informativos, nos quais vocês deveriam clicar.

Antes de mais nada, queria pedir para não me levarem a mal, porque eu shippo Bucky/Steve de forma fervorosa, e quero muito que eles fiquem juntos canonicamente.

Dito isso, posso contar para vocês que eu detestei a tag #GiveCaptainAmericaABoyfriend. Não nego que seria interessante ver um personagem tão tradicional quebrar paradigmas e se mostrar bissexual, ou até mesmo gay. Mas o grande porém é que qualquer uma dessas opções exclui uma outra possibilidade: talvez o Capitão América não seja nenhuma das duas coisas.

Calma, já explico.

Mas é preciso, primeiro, lembrar que a Marvel tem uma gama de personagens homossexuais e bissexuais. E é claro que a representação dessas sexualidades é extremamente importante, mas a sigla LGBT abriga mais do que isso.

Loki e Wiccano, dos Jovens Vingadores. Loki é bissexual e Wiccano é gay.
Uma outra questão importante é que essa mesma gama de personagens LGBT não é representada no universo cinematográfico da Marvel (o MCU). Não faria mais sentido dar visibilidade a quem já foi idealizado como gay ou bi, do que continuar dando fama a um dos personagens mais famosos que, até que se prove o contrário, é heterossexual?

Mas enfim, voltando à questão das diversas sexualidades e da sigla LGBT: percebo que a Marvel tem se esforçado, nos últimos anos, em representar melhor a diversidade que existe quando a questão é orientação sexual e identidade pessoal. Na Marvel Wikia, estão listados personagens de gênero fluido, transgênero, pansexuais, bissexuais, homossexuais e assexuais.

E é aí que está a minha crítica. Nessa categoria, não tem nenhum herói. Ninguém, em todo o universo Marvel, é assumidamente assexual, muito menos gray a e demissexual. Além do mais, os próprios membros da comunidade LGBT ignoram a existência dos assexuais. A Nathália, do Sobre o Cinza, escreveu muito bem a questão da exclusão da sigla LGBT:

A inserção da letra A na sigla que representa as pessoas não-cis-hetero não vai acabar com nenhum problema da comunidade assexual, mas nos ajudaria a dar um passo mais longe da invisibilidade completa; afinal, enquanto eu puder ser categorizada apenas como homo ou heterossexual, sem nenhuma outra opção, a exclusão será sistêmica e constante, e é contra isso que devemos lutar de forma mais urgente.

Se os gays, trans* e bis são representados, os assexuais, que são raramente representados de forma explícita, não merecem um pouco mais de representatividade?

Sim! E eu adoraria que o Steve Rogers fosse o rosto dessa representação.

O escudo do Cap versão orgulho demissexual

Tomando como base o MCU, é totalmente plausível que ele seja demissexual. Em "Soldado Invernal", quando Natasha fala de encontros, Steve diz que está muito ocupado, e desconversa sempre. Ele não se sente à vontade com a demonstração pública de afeto que é obrigado a ter com Natasha (o desconforto não é regra dos demissexuais, mas é um possível indicador), e se sente mais à vontade com Peggy - alguém com quem tem intimidade - do que com qualquer mulher mais nova.

Ah, mas isso não é porque ele é um cavalheiro, por conta de sua educação? Lógico que não! O Bucky foi criado na mesma época e suas atitudes são completamente diferentes.


E mais: o fato dele ser demissexual não exclui a possibilidade dele ter um namorado. O que aconteceria é que ele não diria que é gay ou bi, mas sim demissexual. Essa denominação diz respeito à orientação sexual dele, e não a romântica. Ele poderia, então, ser demissexual birromântico (romanticamente envolvido com homens e mulheres).

A grande questão é que a sua demissexualidade não inviabiliza que ele tenha um relacionamento com um homem, de forma alguma. Torna mais plausível, até, que ele tenha sentimentos pelo Bucky, por exemplo (e eu sei que vocês querem é que ele fique com James Buchanan Barnes, não neguem), já que os demissexuais só conseguem sentir atração (principalmente sexual) por pessoas com as quais têm envolvimento emocional.


Meu post favorito sobre o assunto vem do site Demisexual And Proud, onde o autor diz:


O filme [Soldado Invernal] mostra que existem, além de decepção e paixão, outros espaços mentais nos quais se pode estar quanto a relacionamentos. É possível ser solteiro. É possível evitar relacionamentos e sexo enquanto solteiro. Também é possível estar hesitante ou até mesmo aberto à possibilidade enquanto solteiro. É possível falar sobre com amigos. É possível convidar, embaraçosamente, uma pessoa para tomar um café, em vez de passar de "Eu gosto de você" para "cena de sexo!". O que é ótimo porque, se eu aprendi algo, é que existem 1001 espaços mentais entre as pessoas que não fazem sexo, em várias combinações e por diversas razões.

Todo mundo que não é bem representado pela mídia sabe como é gostoso ter um personagem com o qual se identificar, então por que não deixar que os demissexuais tenham um?


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3 comentários

  1. Tive o mesmo "ciclo de pensamentos" quando me deparei com o movimento para dar uma namorada a Elsa. Apesar de reconhecer os diversos de problemas que as princesas da Disney impõem ao desenvolvimento cultural das crianças sempre me senti muito próxima do universo da Disney.

    Com a chegada de Frozen ao universo senti que estava acontecendo ali uma virada no posicionamento da figura feminina representada pela marca, mas mais do que isso, mesmo sem me ver na Elsa (coisa que faço com muitos personagens uma vez que sou produtora e estudiosa de fanmades em geral) uma espécie de ligação entre eu e ela começou a se formar.

    Entre meus amigos se tornou uma piada frequente eu repetir que "você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer". Essa frase, mesmo que sempre aplicada com humor, falava muito sobre a minha personalidade, mas eu achava que era pelo viés feminista da história, onde se vê a sororidade e a não presença de príncipes heróis descarada em tela. Foi só com a hashtag #GiveElsaAGirlfriend que percebi que minha identificação com a personagem estava no fato de que eu, sem me dar conta, via na Elsa uma personagem assexual e que essa representação era importante pra mim.

    Sendo meus principais amigos homossexuais discuti muito "na época" sobre a campanha, onde eu admitia que grande passo seria uma personagem desse escalão ser homossexual e que de maneira realista o movimento LGBT é muito mais expressivo e está vários passos a frente do movimento sobre assexualidade. Mas ainda assim, quis expor ao menos para eles que a Elsa era legal pelo simples fato de que não precisava de namorados, seja qual fosse seu gênero ou orientação sexual. Que a Elsa ali representava uma parte pequena da população, mas que ainda existe, mesmo sendo apenas 1%. E que no fim das contas, representatividade sempre importa para alguém.

    Como demissexual e estudiosa imersa na cultura dos fãs agradeço por posts e movimentos como esse. A expressão dos fãs é mais do que nunca um ponto de partida para os principais produtores. Quanto mais discutirmos o assunto mais visibilidade ele terá e mais representatividade conseguirá, ajudando ainda mais pessoas. O ciclo é positivo e merece ser alimentado.

    Obrigada <3

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    Respostas
    1. Obrigada você pelo comentário maravilhoso <3

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  2. Capitão América como demi/ace faz todo sentido! Seria muito legal ter essa visibilidade para a assexualidade. E nós poderíamos parar de citar sempre o Sherlock e o Sheldon como um personagem assexual hahahaha

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