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Os desafios de ser fã de quadrinhos no Brasil

27.3.15João Pedro Gomes


Neste mês, papai/mamãe e filhotes foram unidos para compor textos dos mais diversos temas. O diferencial do CCSexta era a proposta de produzir algo em conjunto. Muito veio como resultado disso: primeiro, descobri que eu, Diego, sou um pai ausente, e dei graças a Deus por não querer ter filhos na vida real. Segundo, percebi que é bem mais difícil encontrar um tema sobre o qual escrever com alguém cujos interesses em comum e opiniões gerais sobre eles você já conhece. Terceiro, que escrever um texto a dois é bem mais divertido do que eu imaginava.

O texto que vocês vão ler a seguir é uma compilação de um monte de pequenas frustrações humanas que andavam entaladas em nossas gargantas de entusiastas da cultura das histórias em quadrinhos. Se vez ou outra parecemos críticos demais, posso garantir que fomos sinceros por inteiro e que acreditamos que pontuar esses problemas é, no mínimo, um bom ponto de partida para se discutir como melhorar a situação.

Então, aqui vão alguns dos desafios de ser fã de HQs no Brasil. Espero que gostem.


>> ORGANIZAÇÃO DAS PUBLICAÇÕES

Aqui no Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, os títulos mensais não são publicados em revistas individuais, mas em "mixes", isto é, uma reunião de vários títulos em uma revista só. Uma atitude bem compreensível por parte da Panini, já que, sem ela, o mercado de HQs de super-heróis sofreria muito para se sustentar. Fazer tudo separado daria mais trabalho e, provavelmente, não muito mais lucro, além de não termos um mercado especializado o bastante para suportar toda a variedade de títulos que isso causaria. Já tem tanto atraso com entrega nas bancas e dificuldade de encontrar certas coisas, imagina se jogassem de uma vez, sei lá, dez vezes mais títulos? Seria caótico.

O problema é que não tá sendo muito melhor do jeito que fazem atualmente. É difícil saber o que é publicado em cada revista, os títulos de cada uma mudam de tempos em tempos e alguns mixes nem fazem muito sentido. Tipo Universo Marvel e Universo DC, dois balaios de gato onde jogam os """restos""" de cada editora e, ainda assim, custam 17 dinheiros. Dessa forma, você precisa desembolsar uma pequena fortuna todo mês, mesmo que queira ler só UMA das várias histórias publicadas lá dentro.

Exemplo de revista com vários títulos. A partir da edição 17, ambas vão ser fundidas (com algumas alterações) em uma só, Vingadores: Os Heróis Mais Poderosos da Terra. Talvez seja um mix melhor, mas a mudança continua confusa. A falta de um portal online claro que indique as publicações do mês não ajuda muito... (imagem: página da Panini Comics no facebook)

Fora as revistas periódicas, a Panini também publica encadernados num modo parecido com o americano: revistas maiores com uma média de seis edições seguidas de uma mesma história em cada. É uma forma bem mais organizada de publicação com uma grande vantagem: diferentemente dos mixes, você só paga pelo título que quer ler. É uma pena que, apesar se ser superior em vários casos (como capa cartonada e papel de "revista" em vez do de "jornal" das edições mensais), a qualidade continue deixando a desejar em muitos casos. Sim, ainda tenho medo de pegar Capitã Marvel e ele desmanchar na minha mão.

A Panini não é a única culpada nesse aspecto (mas ela tem responsabilidade e nós falaremos dela logo mais). Existe uma dificuldade natural de importação cultural. Sofremos com ela em diversas mídias e, por um acaso, é um pouco mais complicado nas HQs, por ser algo com um formato tão diferente do nosso (pense nos quadrinhos brasileiros que você encontra nas bancas e na dinâmica de publicação deles, vai notar que é tudo bem diferente do mercado americano) e que ainda não tem uma validação cultural do grande público.


>> QUALIDADE FÍSICA DO MATERIAL

É uma porcaria, criem vergonha na cara. Próximo tópico!

Mas falando sério, é um incomodo como a qualidade do material é arbitrária. Eles podem decidir o que merece boa qualidade ou não. A mesma coisa acontece nos mangás: tem uns muito mais caros e muito melhores, e outros tão, tão ruins. E é frustrante ver história que você gosta relegada a qualidade ruim

Retomando a Capitã Marvel em outro exemplo: ela é publicada em formato compilado, com várias edições em uma só revista, o que exigiria uma qualidade melhor, certo? Errado, como eu já comentei alguns parágrafos acima. Sem falar que a precariedade do material estraga uma parte significativa da arte e da própria integridade material da revista (às vezes, ainda na banca, já que é fácil ela amassar dependendo do modo com o qual é disposta nas prateleiras). Enfim, a experiência toda é prejudicada. Um problema que a gente não tem com nenhum compilado do Batman, por exemplo....

(à esquerda, edição americana da Ms. Marvel; à direita, edição brasileira de Capitã Marvel. A foto não faz jus à diferença gritante na qualidade, mas ajuda a ter uma noção. Repara na textura áspera no papel da segunda, que parece de jornal mesmo - não, não é pela qualidade da câmera - e em como as cores ficam opacas. Clique nas fotos para ampliar).

>> SUPREMACIA DA PANINI

Panini, Panini... por que esse nome já se repetiu tantas vezes aqui em cima? É simples: porque ela é a única editora que tem os direitos de publicação dos heróis da Marvel e da DC no Brasil.

O grande problema de a Panini ter esse poder todo é a falta de concorrência. Sem uma outra empresa grande o suficiente para disputar o mercado, eles podem publicar o que quiserem, no formato que quiserem e no preço que quiserem. 

É claro que existem, na verdade, outras editoras de HQs, mas elas não trabalham com esse formato serial. Além da Panini, só tem peixe pequeno. E mesmo se tivesse, ninguém mais consegue os direitos de algo DC/Marvel, porque eles já são todos dela e fim (exceto em raros casos de acordos especiais, como acontece com a Salvat). É bem diferente do mangá, que o contrato é por título (e, por isso, bem menos problemático).

Mas, infelizmente, não dá pra vender os direitos de um só personagem. As histórias são interligadas e, bom, não queremos ver a confusão de direitos autorais de filmes replicada nas HQs. O que torna quase impossível imaginar onde poderíamos começar a desconstruir esse sistema de monopólio.

(talvez, num universo paralelo, onde a Panini tivesse DC e outra editora à altura tivesse a Marvel...)


>> DIFICULDADE DE IMPORTAR

DÓLAR A MAIS DE 3 REAIS. É só o que tenho a declarar.

Não muito pra dizer além de que o frete da Amazon pra cá fica mais caro do que a compra. O que é ruim. Muito ruim. O material original é lindo e quase sempre tem qualidade superior ao brasileiro (isso quando tem as duas versões pra comparar, já que muita coisa nem chega aqui). As únicas opções são pagar o frete absurdo ou viajar pra lá e fazer a festa (o que não dá pra fazer casualmente, né).

A entrega pode ser à jato, o material pode ser maravilhoso, mas oito dólares (média de vinte e cinco reais) de frete por produto complica a vida de qualquer um, como o Luiz Corsi fala neste post. (a foto bacanuda aqui em cima também foi retirada de lá :D) 

E por que é ruim não ser fácil importar? Porque é mais um empecilho na criação de uma concorrência pra Panini. Não incentiva a criação de um produto de qualidade, adequado ao público daqui, e que não deixe a desejar se comparado com o exterior. Essa é uma comparação um pouco injusta, sim, visto que os mercados editoriais são beeem diferentes dependendo do país, mas não muda o panorama geral dos fatos. 

Ah, e eu quero fazer um adendo aqui: ainda acho que a Amazon Brasil pode ser um fator importante nesse aspecto de importação. A loja online deles tem uma quantia considerável de quadrinhos americanos que só tende a aumentar. Mesmo com valores nas alturas, já que eles praticamente convertem o preço de capa do produto de dólares para reais e colocam na loja, nós já temos o fator "frete absurdo" de fora, o que já ajuda muito a equilibrar a balança. Se a Amazon encontrar maneiras de colocar os quadrinhos de forma massiva e num preço acessível, a Panini terá que ficar de olho aberto.


>> VARIEDADE

Variedade de títulos, de opções de compra, de personagens, de preços... Variedade é essencial para conquistar novos leitores e criar uma comunidade consumidora de quadrinhos forte o bastante.

Daí você pergunta: "mas já lançam tanta coisa diferente, que variedade mais você quer?" Hm... Essa aqui:
Enquete do hotsite da Panini vs. primeiras publicações deste ano. Ainda estamos esperando :)))
(ah, e só pra constar, dissertaremos mais sobre isso em um post futuro)

Outra forma de tornar o material mais acessível e atrair o público que não frequenta bancas ou livrarias especializadas é disponibilizando os produtos em lojas online, principalmente as edições de luxo, que são mais vistosas e ficam bem baratas em grandes redes. É uma pena que essa opção de compra continue tão limitada: a catalogação e variedade de materiais nas poucas lojas disponíveis passa longe do tratamento que as HQs merecem.  


>> FALTA DE ESPAÇO PARA NOVOS QUADRINISTAS

Tanto nós, que escrevemos esse post, quanto você, se fôssemos pegos de surpresa, conseguiríamos, na melhor das hipóteses, nomear um ou dois quadrinistas iniciantes. Isso porque só dá para conhecê-los procurando nos confins da internet, através de divulgação pessoal, publicações independentes e sites de financiamento coletivo. Enfim, é difícil ter visibilidade quando se está fora da caixinha dos supers, e a gente bem sabe como nossa cultura tende a estar bem longe dela.

Existe, por exemplo, uma HQ brasileira chamada Terapia, que é muito boa e está toda disponível online. Fizeram versão impressa e já esgotou. Não consegui comprar. Daí eu me pergunto: por que a gente não descobriu isso antes? E mais: por que tem tanta gente como a Bianca Pinheiro, ou a Lovelove6 com seus projetos de crowdfunding, lutando pra chegar a algum lugar? Por que o mercado nacional não está validando essas pessoas? Por que tem artistas nacionais talentosíssimos tendo que conquistar espaço fora do país antes de conseguir ser publicado aqui?

Há iniciativas, sim, que tentam mudar a situação. A Graphic MSP é o melhor exemplo disso atualmente, e existem editoras como a Draco e a Nemo também fazendo contribuições enormes na mudança desse cenário. Mas continua triste chegar numa das poucas lojas especializadas do país e ver a sessão de HQs nacionais, senão vazia ou inexistente, obscurecida pela falta de divulgação. 


>> E ENTÃO, AINDA HÁ ESPERANÇA?

Ok, confesso que talvez nós tenhamos visto o panorama das HQs no Brasil por um ângulo meio negativo. Infelizmente, é algo necessário para que tenhamos noção da dimensão do problema e do que é preciso fazer para amenizá-lo. (ou, quem sabe, estejamos fazendo o trabalho sujo agora para trazer toda a glória dos quadrinhos num projeto futuro........)

Mas é claro que o mercado tem melhorado nos últimos anos e há coisas boas vindo num futuro próximo. Centenas de filmes de super-heróis, novas coleções por novas editoras, iniciativas inovadoras dentro do mercado já estabelecido, eventos especializados no Brasil (CCXP!!!!)... A própria Panini tem feito várias mudanças para atender melhor os desejos do público.

Aos poucos, os caminhos para nós, fãs, vão ficando com menos obstáculos. Se tudo der certo, pode não demorar muito para que possamos correr em direção às grandes histórias em quadrinhos sem tropeçar tanto durante o percurso.


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3 comentários

  1. Uau, tiro o chapéu para esse texto, pois é exatamente o que penso sobre o mercado das HQs aqui no Brasil. Sou uma consumidora nata de mangás e HQs em livrarias e bancas de jornal, mas, no momento que vou atrás de um título - por exemplo mês passado, que me matei para procurar Guerra Civil, pois queria ler a história antes de sair no cinema -, eu tendo sempre a voltar para casa frustrada ou xingar alguém por não conhecer ou saber quando estará nas bancas. Também não gosto muito dessa "diferença" que ele fazem entre títulos mais conhecidos ou não... poxa, é HQ, alguém vai comprar!

    Conheço alguns títulos brasileiros, não todos, mas os que conheço é porque, ou vi por alguma rede social, ou alguém comentou para mim. Gosto muito da Panini, gosto de algumas coisas que ela lança no nosso mercado e o que traz para nós, mas espero ansiosamente no dia que ela dar o devido valor ao nosso dinheirinho e o mercado - tanto de HQ quanto mangá ou qualquer outra coisa - crescer e ser um pouco mais especializado nessa demanda tão grande que é este mundo das revistas em quadrinho.

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  2. Eu comprei uma vez um HQ no Brasil quando estava de férias com meu pai, peguei suicide squad, e tinha comigo os tpb 1 e 2 de green lantern corps que comprei da editorial ECC de latinoamericana em espanhol, y comparei quando cheguei em casa e quase que jogo fora o suicide squad depois de leer, a qualidade é quase ofensiva, comparei com a ECC espanhola e com alguns originais da DC e Marvel e ate com um que compre na Bolívia dos vingadores, o preço e quase o mesmo mas a qualidade da Panini e muito inferior em Brasil, os títulos Panini de latino america em espanhol são muito superiores. Em latino america a Panini só imprime Marvel e ECC fica com a DC, o trabalho é bom, papel de qualidade, edições omnibus e absolute tipo blackest night são de uma qualidade comparável a da dos eeuu, acho que fã brasileiro merece muito mais do que a Panini presenta.

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  3. Eu entendo vocês. Moro na Europa e aqui a panini impera mas a vantagem que temos comicshops que importam direto da Marvel e nossa moeda o euro eh muito mais forte que a de vocês. Comics comigo somente em Inglês esse negocio de panini nao quero nem de graça. Boa sorte pois vao precisar odeio o material desses caras eh ridiculo.

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