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5 camadas de má representação das mulheres

8.3.15Dana Martins


Então, o João fez um post exatamente como eu gosto de ler: discutindo a representatividade feminina em X-Men com base no que a Eleanor, personagem de Eleanor & Park, diz no livro. Eu adorei ver como ele se esforça para refletir sobre o assunto depois que sua visão romântica sobre X-Men, os caras inclusivos, é quebrada. Isso deu um texto bem legal que nos faz pensar sobre o que consideramos uma mulher forte, que você pode ver aqui. E aí eu fui responder pra ele o que achava. Uma coisa sobre mim: quando eu sento para dizer o que eu achei, dificilmente vou terminar com menos do que uma análise completa.

Aqui está meu texto-resposta ao João com 5 problemas na representação das mulheres (super-heroínas, mas mulheres de maneira geral também).



"O ideal mesmo seria que qualquer personagem tivesse qualquer tipo de poder e acabasse essa divisão idiota entre poderes de homem e de mulher."


Minha opinião final é basicamente isso que o João disse. Mas acho que o problema é que não estamos tratando com apenas um tipo de estereótipo, é mais de uma camada de problemas na representatividade. E, diferente dele, eu concordo com a Eleanor. Antes de ler: em vez de falar os 5 problemas, eu decidi dividir em 5 soluções, porque é mais produtivo (só não quis mudar o título). Então aqui vão 5 soluções para melhorar a representação das mulheres. 

5- Precisamos valorizar mais características "femininas"

Tem essa camada que o João identificou, com base no que o Affonso disse, que é quebrar com esse sistema de valor machista onde só a força física muscular é considerada força de verdade. Uma história que mostra isso de forma ótima: The Legend of Korra. Na última temporada a série mostra Pema, uma mãe, controlando as pessoas na evacuação da cidade. Tipo, ela usou ali o próprio tipo de força, algo totalmente dentro do estereótipo feminino (ser mãe), pra tomar conta daquelas pessoas. Aliás, The Legend of Korra é tão incrível que vai além e faz o mesmo com Wu, garoto rico molenga fracote, mostrando a força no canto dele que ajuda a resolver a situação. (momento para dizer que eu amo muito essa série e a forma como eles empoderam todo tipo de pessoa)


Cada pessoa tem um tipo de força próprio e é importante valorizar isso, em vez de julgar com base em um padrão de melhor. Infelizmente, nosso padrão de melhor é machista, então as características associadas a mulher enfrentam um desafio próprio na hora da valorização. 

O João fala muito bem sobre isso no texto dele.

4- Precisamos de mulheres bem desenvolvidas

Tem essa outra questão importante, do desenvolvimento do personagem, que o João mostrou. Ele deu o exemplo da Kitty que é maravilhoso e definitivamente estamos ganhando mais mulheres bem desenvolvidas.

3- Precisamos de mais diversidade

Tem o que a Eleanor mostra no livro Eleanor & Park, que são as barreiras sexistas do que é considerado feminino ou masculino. Repito: ainda concordo que a gente tem que reforçar que poderes mentais são fodas, só que tem essa divisão clara. Tipo, não precisa ser um gênio pra ver como as mulheres estão sempre concentradas nesse modelo de força mental (ou elasticidade). Viu que a Batgirl vai entrar na série Titans e vai ser a hacker*, né? (mas não vou falar muito porque parece que vai ter muitas mulheres, quero ver como vai ser antes de soltar as feras) Mas voltamos à frase inicial: qualquer tipo de poder pra qualquer um. A questão principal é que seja na década de 80 ou hoje em dia, esse estereótipo se reafirma. As mulheres não são super-heroínas, é quase como se ser mulher fosse um tipo de superpoder. (Guardiões da galáxia: o musculoso, o líder, o gênio, o fofinho, a mulher).
*E cadeirante, o que é uma representação incrível, mas não muda o fato de que é poder mental.

o lado bom de ter um grupo de mulheres: você é obrigado a fazer elas diferente uma da outra
epa, teoria errada, acabei de pesquisar sobre elas e aparentemente a Eleanor está certa

Então, precisamos de mulheres bem desenvolvidas e valorizar o tipo de força feminina, mas a Eleanor tá certa quando diz que X-Men é sexista nesse sentido. Precisamos de diversidade. Precisamos mostrar que as mulheres podem ser qualquer coisa - porque elas podem. É o que o João disse na frase que eu destaquei no início.

(o João diz que discorda da Eleanor, mas eu discordo que ele discorda ;x) (correção: ele já disse que não discorda, foi só raiva de ver ela falando aquilo do X-Men quando tem mulheres poderosas bem desenvolvidas)

2- Precisamos desconstruir o filtro do que é feminino

Não só precisamos de diversidade, mostrando as mulheres fazendo qualquer coisa, como também entender mulheres além da ideia do que uma mulher pode ser. "Atributos femininos" - O que diabos são atributos femininos? Peitos? Vagina? Pera aí, então uma mulher que teve câncer de mama não é mulher porque ela não tem atributo feminino? Foi um exemplo bem idiota, ainda mais usando coisas físicas, porque a discussão no texto do João é sobre atributos "mentais" femininos. Ele fala sobre ideia da mulher ter superpoderes baseados em seus atributos (e a não ser que ela queira ter peito grande, ou cabelo gigante, ela não tem muitos atributos femininos físicos para virar super poder) (brand news: mulheres não têm músculos). Fico me perguntando, a Tempestade do X-Men é baseda em quais atributos femininos? Prever o tempo? Tipo, quando a mãe diz "LEVA GUARDA-CHUVA QUE VAI CHOVER" e aí o filho não leva e chove. É a Tempestade fazendo chover? Ohhh. Agora faz sentido porque o jornalista que diz o tempo no jornal é sempre mulher. A Mulher do Tempo. É, realmente, bem feminino. Desculpa.

a ideia de super-atributos femininos
desculpa por te usar de exemplo, Medusa :( 

Tá, acho que nunca fiz tanto comentário ignorante em um post. É só que eu não consigo levar a sério. Ainda assim, esse filtro do que é mulher continua existindo. Eu entendo que existem construções culturais do gênero feminino, eu entendo que existem características físicas consideradas femininas. Mas não quer dizer que pessoas do sexo feminino sejam esse estereótipo ambulante que nós vemos repetidamente nas histórias. Mesmo quando no mundo real elas se esforçam para ser, há sempre detalhes que tornam diferente. Ninguém é um estereótipo. 

1- Precisamos de mais mulheres dizendo como mulheres devem ser

E, mais importante, precisamos ouvir mais vozes de mulheres. Isso nem sempre é tão simples, o Patrick Rothfuss mostra como mesmo sem querer acabamos reproduzindo estereótipos problemáticos. Mas ainda assim precisamos

Precisamos de mulheres escrevendo porque nenhum homem pode dizer como é para uma mulher ser mulher. Ele pode se esforçar e isso é muito importante. Eu citei The Legend of Korra, que tem alguns dos meus maiores exemplos de personagens mulher, e é escrito por homens.

Curiosidade: Ao mesmo tempo, acho que o filtro feminino vem dessa ideia de que homem não pode escrever mulher. O homem pensa que não conhece a mulher e, por isso, ele usa uma imagem do que parece ser a mulher. (dica novamente: escreva como pessoas, como você se sentiria, como você faria)

E é por isso mesmo que precisamos de mulheres falando. Em parte para mostrar que somos pessoas normais, em parte pra mostrar como uma pessoa normal lida com a teia cultural da identidade feminina. 



Só pra esclarecer: parece que eu to me contradizendo porque eu digo que mulheres são iguais, mas só mulher pode falar como é ser mulher. É que por mais que seja igual (The Legend of Korra tá aí pra mostrar muito bem), ainda existem questões culturais da imposição da identidade feminina diante do mundo que pode passar despercebido para o homem. Isso fica claro quando a gente pensa no caso de um homem falando como prefere que a mulher seja representada, enquanto eu, uma mulher, não me vejo nessa representação. Então só palavras escritas com uma vagina de certificado vão provar que mulheres podem, sim, ser algo além disso.

-dana martins

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7 comentários

  1. Eu fico pensando que a melhor representação é aquela em que não faz diferença se o personagem é homem ou mulher. Quando o gênero do personagem não influencia em nada. Eu me pergunto se um homem consegue se perder ao desenvolver uma personagem com esse foco.

    Agora, se for numa ficção com o propósito de debater sexismo/machismo e questões específicas que uma mulher vive e um homem não em nossa sociedade atual, concordo que apenas uma mulher pode descrever como realmente é.

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    Respostas
    1. concordo com você. aí é que nem o patrick rothfuss diz (tem um post aqui sobre isso), só tem que tomar cuidado pra não vomitar esse veneno cultural sem perceber.

      eu tava pensando sobre isso hoje (nem sei por que o.õ). tipo, não é nem que homem não possa escrever mulher, ou um branco não possa escrever um negro, ou um cis não pode escrever um trans, é que é um detalhe: não importa o que uma mulher escreva, é um depoimento dela sobre o mundo, é a versão dela. e a coisa mais fácil do mundo é mulher escrever coisa problemática, mas, ainda assim, é a forma que ela enxerga mesmo que presa ao filtro cultural. o livro pode até ser usado como estudo histórico da época em que ela viveu e como uma mulher enxergava o mundo.

      já o homem, por mais que ele queira e faça algo bem, sempre vai estar preso ao fato de que é a visão do homem sobre a mulher. e um dos grandes problemas de representatividade é que ao longo da história o que a gente mais tem é a visão do homem sobre a mulher (tem uma imagem ótima isso, mas agora percebi que entrou só no outro post!)

      isso não significa que um homem não possa escrever mulher. pelo contrário, the legend of korra taí pra mostrar isso e eu vou ser eternamente gratas a eles por escreverem essas mulheres que me ajudaram e me entender mais, como mulher. por outro lado, às vezes o homem se perde, tipo o caso do autor que o joão citou que falou que prefere escrever mulheres reforçando os atributos femininos. aqueles atributos femininos não me representam. como é que ele vai me dizer que eu não sou mulher? como é que ele vai escolher o que é atributo feminino? não vai. e mesmo que ele queira fazer algo bom, corre risco de se perder por algo que eu não me perderia: por ser mulher, eu sei que eu posso, que aquilo não é real. e, tipo, um homem não vai poder sentir isso

      e não é sobre homens pararem de escrever mulheres. é só o fato de que precisamos mesmo de mais mulheres e prestar atenção nas vozes delas também :)

      fugi do ponto, mas acho que eu tava com isso na cabeça e queria escrever sobre

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  2. "Ao mesmo tempo, acho que o filtro feminino vem dessa ideia de que homem não pode escrever mulher. O homem pensa que não conhece a mulher e, por isso, ele usa uma imagem do que parece ser a mulher. (dica novamente: escreva como pessoas, como você se sentiria, como você faria)"
    Eu concordo com essa frase. Penso que para você poder escrever sobre um personagem, você deve primeiro sentir empatia pelas pessoas. Como uma pessoa se sentiria se perdesse um membro querido da família? Como uma pessoa se sentiria se sentiria numa guerra ou num mundo apocalíptico? Como uma pessoa se sentiria sendo rejeitada ou minimizada por seu sexo?

    Acredito que discutir sobre questões de gênero tem mais a ver com empatia do que qualquer outra coisa. Afinal, essa ideia do que é masculino e do que é feminino é simplesmente uma imposição construída há muito tempo atrás, e com o tempo esses valores foram sendo incorporados como sendo naturais.

    E é esse o problema em criar mulheres que possuem certo tipo de habilidades apenas porque "mulheres são desse jeito", sem levar em consideração que esse "jeito de mulher" é na verdade algo aprendido com o tempo, tais como: mulheres são doceis, mulheres são discretas, mulheres são frágeis, mulheres são graciosas e etc.

    Já o seu último esclarecimento eu não concordo, que apenas mulheres podem falar sobre mulheres. Caso contrário mulher também não pode escrever sobre homens, e isso é estupidez, pois J.K fez um ótimo trabalho retratando um personagem masculino em Harry Potter, e o mesmo fez mais outras milhares de mulheres. Penso que o ser humano realmente consegue sentir empatia pelo próximo se ele tentar.

    Aí perguntam, mas então o homem vai falar pela mulher? NÃO. Aí é que está, eu acredito que a mulher não deve lutar pra que apenas elas possam falar sobre elas, mas para que, quando ela falar, suas palavras sejam ouvidas com a mesma atenção da de um homem. Não lutar para que ela esteja sempre certa, mas para que ela SEMPRE tenha o direito de opinar, e que elas sempre estejam presentes e que não sejam inferiorizadas apenas por ser mulher.

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    1. eu concordo com você! e to feliz de ver que você percebe isso.

      eu definitivamente me expressei mal no final do texto. eu não quis dizer que apenas mulheres podem escrever mulheres (isso nem faz sentido. ninguém poderia escrever um livro se fosse assim), mas que existem coisas que só podem ser validadas quando são escritas por mulheres.

      por exemplo, você fala sobre ter empatia. e o felipe antes de você fala sobre escreve como pessoas sem o gênero importar. na vida real, essas duas perspectivas constroem quem nós somos. somado, ao que você disse, essa noção aprendida do que é ser mulher. quando a gente cria a noção de "eu" e anda por aí e age, nós acabamos incorporamos coisas com as quais não concordamos, nós também lidamos com dilemas específicos por ser mulher.

      um caso recente é um texto sobre um casal de dois homens que foi atacado na praia, a escrita foca que eles poderiam ter sido espancados ou assassinatos. mesmo que eu diga que homens e mulheres são iguais (e sejam), se fosse eu nessa situação escrevendo provavelmente também teria sentido medo de ser estuprada. a questão é que eu, sendo mulher, sei quando usar isso, sei que não é sempre real. mas se o homem faz isso, ele não tem esse ~medidor natural~ por não viver nessa condição. então corre risco de criar uma personagem estereotipada marcada por medo de estupro porque ele ouviu as mulheres são assim.

      enfim, não é sobre não escrever, não é sobre escrever perfeito, é sobre parar pra pensar e, como você disse, ter empatia mesmo. aprender a caminhar pela cultura. tomar cuidado pra não reproduzir coisas problemáticas desnecessárias. e ter noção de que às vezes a gente faz merda, mas que não precisa ser assim na próxima vez.

      muito obrigada pelo seu comentário <3

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  3. Entendi o que você quis dizer sobre ser mulher. Nós somos iguais pois somos seres humanos assim como os homens, mas somos diferentes pois passamos por coisas diferentes deles (ao longo da vida somos tratadas diferente). E isso é com qualquer grupo de minoria.

    A minha personagem mulher preferida é a dra. Thirteen, de "House M.D.". Na verdade, a série parece aprofundar bastante em todas elas! Os roteiristas focam na formação do tipo de personagem, por exemplo (pra não dar spoiler), um personagem sofre com alguém da família, e por isso, tem tendência a se afastar das pessoas. A construção é tipo causa/consequência, e é assim que todas personagens deviam ser.

    Ah, e eu queria dizer que estou gostando muito do blog. É difícil achar blogs com conteúdo inteligente, mas que também tem muitas coisas pra descontrair!!

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  4. Último comentário super transfóbico. Uma "vagina de certificado"? Então agora é preciso ter vagina para ser mulher? E você diz: "parece que eu to me contradizendo quando digo que mulheres são iguais mas..." não seria que mulheres são diferentes?

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    1. Nossa senhora, que vergonha. Muito obrigada por mostrar isso. Eu quando escrevi esse texto não percebi isso e nem sabia direito pra poder me expressar melhor. Eu vou tirar isso e reler o texto assim que eu puder pra ver se evito mais coisas assim.

      Se você ver mais coisas assim nos textos do aqui, pf se sinta livre para dizer.

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