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Legend vs. ENEM: e se uma prova definisse o seu futuro?

31.1.15Paulo V. Santana


E quando você lê um livro distópico e enxerga uma sociedade muito parecida com a sua? Conheça a trilogia Legend, de Marie Lu, e reflita um pouco sobre nosso sistema de vestibulares. 

Há duas semanas, eu entrei no site do INEP e conferi meu resultado do ENEM 2014. Na mesma hora, comecei a me odiar e a xingar Deus e o mundo. As notas que apareciam na tela eram “ruins”, menores que as do ano anterior. “Sou horrível”, “o que vou fazer da minha vida?” e outras ideias negativas começaram a caminhar entre os meus pensamentos. A situação só foi piorando, até que eu parei, respirei e tentei me convencer de que não importava; ora, a nota nem foi realmente baixa, fiz o exame como teste e, o mais importante, uma nota não define quem eu sou.

Alguns dias depois, comecei a ler Legend, primeiro volume da trilogia de mesmo nome, e não demorei a perceber uma relação entre o mundo distópico desenvolvido pela escritora chinesa/americana Marie Lu e o momento de desespero que passei. Uma sociedade em que o resultado de uma prova define a sua vida? Bem, me parece bastante familiar.


A história de Legend se desenvolve em um mundo em que o território que um dia foi a América do Norte deu lugar à República e às Colônias, duas nações em guerra. A República da América, que é o lado que conhecemos nesse primeiro livro*, é apresentada como grande investidora em treinamento militar e desenvolvimento científico. A sociedade extremamente nacionalista é dividida em classes, como a nossa, e o grande diferencial é a Prova, um exame aplicado a todos os indivíduos de dez anos. Dividida em avaliação de múltipla escolha, teste físico e entrevista, a Prova gera uma nota que pode chegar até 1500 pontos e, dependendo da sua pontuação, você tem um ótimo ou um terrível futuro.
*o único que li até agora, em breve teremos resenha de toda a trilogia


Não é difícil perceber que esse sistema opressor da República é muito, muito similar ao que vivemos. Entre essas distopias jovens, acredito que o mundo criado pela Marie Lu é o mais próximo da atualidade. Em Jogos Vorazes, um reality show anual, que sorteia jovens cidadãos, é responsável por manter o status quo. Já em Divergente, a segregação acontece por meio de facções, que são escolhidas pelos adolescentes baseadas em características pessoais. Aí você tem Legend, em que ao atingir determinada idade você é obrigado a se submeter a uma prova e é avaliado, recebendo uma nota que define seu lugar na sociedade. 

As semelhanças não param por aí: como a nota é (definida como) uma expressão da capacidade ou falta de capacidade de um indivíduo, existem aqueles que saem das camadas sociais mais baixas e através da nota conseguem ascender. Aliás, esse é o considerado correto pelo discurso dominante, que valoriza o mérito: estudar, superar sua condição e servir “honestamente” ao Estado. Em determinado trecho do livro, um personagem emite uma fala bastante interessante que reproduz um discurso meritocrata:


Enquanto por aqui nós encontramos vários cursinhos de pré-vestibular, com promessas de treinamento adequado para a “prova da sua vida”, algo parecido existe na República. Há propagandas que dizem “Está chegando a hora da Prova de seu filho? Matricule-o no Ace Trials, para uma consultoria grátis de instruções!” Ok, pode ser gratuito, mas será que qualquer um tem acesso? Esse anúncio específico aparece sendo divulgado em um setor rico, que tipo de informação chega aos ambientes socialmente desprivilegiados?

A Prova de Legend pode ser analisada como um ENEM levado ao extremo, afinal, a base é a mesma: uma avaliação que define a vida dos indivíduos. Com uma boa nota no ENEM, você pode estudar o ensino superior nas melhores universidades do país. Caso você não consiga e não tenha condições de bancar seus estudos, a solução é buscar outros caminhos, que não costumam acabar em destinos tão promissores.

Todos esses paralelos se formaram na minha cabeça ao longo da leitura e, juntos, me mostraram claramente que uma nota não deveria ter tamanha repercussão em mim nem em qualquer pessoa. É interessante como, quando você vê uma situação similar a sua inserida em outro contexto, sua perspectiva muda. Não é difícil notar o quão ruim e desigual é a República, ao mesmo tempo que ela se baseia num sistema muito parecido com o nosso. Se algum evento natural catastrófico acontecesse e a nossa sociedade se restruturasse, o destino de Legend me parece o mais provável.


Day, o protagonista, sobre seu irmão que está doente com a praga e que,
talvez, não viva o suficiente para fazer a Prova.

E se eu percebo a Prova como um objeto tão negativo, de segregação e manutenção da opressão, por que não questionar o ENEM e perceber que, em menor escala, ele também tem seu valor negativo? O exame é uma forma de selecionar entre milhões de pessoas aquelas que poderão continuar recebendo uma educação de qualidade; se você não atinge um número necessário, talvez tenha que mudar seus planos para o futuro. Não há vagas para todos - o que já é um problema - e é preciso selecionar de alguma forma quem terá acesso ao ensino superior, mas os critérios de avaliação utilizados são justos e representam a realidade?

Já ouvi e disse mil vezes que uma prova não define o conhecimento de uma pessoa e muito menos o que ela é. Aquele resultado numérico que você usa para (tentar) entrar em uma universidade não passa de uma expressão do seu desempenho em uma avaliação, realizada num momento de muita pressão e estresse. Comparando notas de diferentes pessoas, dá para perceber que também não é uma questão de esforço pessoal, existe todo um contexto e uma história por trás de cada um, que influencia no resultado da prova. 

Cobram tanto para que sejamos os melhores, tiremos as notas mais altas etc., mas será mesmo que uma prova é capaz de representar todas as qualidades de uma pessoa?

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4 comentários

  1. Li uma trilogia com uma ideia bem parecida recentemente, a trilogia O TESTE, de Joelle Charbonneau. Na história, os jovens que se destacam no ensino médio e são considerados os mais inteligentes tem direito a participar do processo seletivo que dá nome do primeiro livro e que também envolve provas de múltipla escolha, testes físicos e trabalhos em grupo. Aqueles que passam na seleção, tem direito a frequentar a universidade e ajudar a reconstruir este mundo pós-apocalíptico, colaborando com o governo. Os que não passam, são eliminados (afinal, ninguém quer ter pessoas inteligentes, mas não tanto, e com o ego ferido livres por aí para questionar o sistema).

    Recomendo se você se interessa pelo tema!

    Abraço*

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    Respostas
    1. Oi, Andre!

      Esse livro parece interessante! Vou deixar na minha listinha, porque já estou um pouco saturado do tema para ler agora - não dá para ler uma distopia atrás da outra, são todas muito similares.

      Obrigado pela dica e pelo comentário.

      Abraço!

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    2. Andre, também li O Teste e logo de cara assimilei ele com os vestibulares. A narrativa é muito interessante, e agora olhando a sua mensagem, faz muito mais sentido os demais serem eliminados, mesmo sendo inteligentes, não havia pensado dessa forma.
      Recomendo também.
      Agora, falando sobre Legend e o Enem, caramba, você fez uma crítica muito f*o*d*a, talvez seja realmente esse o foco dos livros, libertar o lado crítico das pessoas a fim de ver as coisas ao seu redor de outra forma., Muito show.

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  2. oi, comparação perfeita! chega a ser meio revoltante, ver valores perdidos e pouca gente percebendo!

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