#ShareTheLoad A Marcha dos Pinguins

Mulheres, filhos e vida doméstica: o dobro de trabalho, nenhuma gratidão

20.6.16Elilyan Andrade


Recentemente revi o filme A Marcha dos Pinguins (La Marche de l'empereur) e isso me fez pensar sobre a evolução dos papéis de gêneros na sociedade

O documentário que narra a jornada dos pinguins-imperadores, que a cada inverno na Antártica saem da segurança do oceano e caminham milhares de quilômetros rumo ao seu local de acasalamento. As fêmeas permanecem no local apenas o tempo necessário para a procriação e logo partem de volta para o mar. Os imperadores machos permanecem para guardar e chocar os ovos. Durante 4 meses, no inverno glacial sem comer nada, os machos aguardam os ovos eclodirem. Sim, os machos são os responsáveis por cuidar dos ovos e dos filhotes recém-nascidos. Entretanto os frágeis filhotes só conseguem sobreviver por 48 horas sem comida, ou seja, o retorno dos imperadores fêmeas ao local, que trazem comida do oceano, é essencial para a perpetuação da espécie.

A divisão igualitária dos cuidados da “vida doméstica” e dos filhotes é essencial para a perpetuação dos pinguins-imperadores. Se algum macho ou fêmea decidisse, em qualquer momento, ignorar sua responsabilidade a sobrevivência da espécie estaria em risco. Infelizmente nos seres humanos não somos como os pinguins-imperadores. Também recentemente encontrei o vídeo Why is Laundry only a mother’s job? Dads #ShareTheLoad, uma propaganda do sabão Ariel, na Índia, que questiona os papéis de gênero. 


Chegar em casa depois de um dia exaustivo de trabalho e seguir começar o segundo emprego em casa cuidando dos afazeres domésticos e filhos é a realidade de muitas pessoas, principalmente das mulheres. Em pleno século XXI, os cuidados dos pequenos e da vida doméstica é ainda visto como responsabilidade essencialmente feminina, e ao meu ver isso precisa mudar.

Em recente pesquisa do realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostrou que mesmo com o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, as tarefas domésticas ainda são praticamente de responsabilidades exclusivas das mulheres. O tempo gasto com serviços de casa chega a quase o dobro mesmo quando a comparação é entre mulheres ativas (25,3 horas semanais) e homens sem atividade remunerada (13,7 horas). A pesquisa traz outros dados que demonstram que independentemente do cenário as mulheres estão mais sobrecarregadas com sua dupla jornada de trabalho, o que dificulta sua asserção no mercado de trabalho. 
Em 1975, as mulheres islandesas entraram em greve – recusaram-se a trabalhar, cozinhar e cuidar das crianças por um dia. O momento mudou a forma como as mulheres eram vistas no país e ajudou a colocar a Islândia na vanguarda da luta pela igualdade.

Você pode pensar que essa divisão dos papéis de gênero onde a mulher é responsável pela prole e o homem pelo sustento da casa (caça) vem desde o tempo das cavernas, bem, não é não! Dá uma olhadinha nesse post da Dana aqui para mais informações, pois não quero falar do passado aqui, quero tratar do HOJE! Mesmo a pesquisa do IPEA mostrando que durante o período de 2004 a 2014, o percentual de homens que assumem tarefas não remuneradas da casa cresceu de 46% para 51% em uma década, isso ainda não é uma vitória, pois o das mulheres segue inalterado (90%).

A desigualdade entre os papéis de gênero só será solucionada quando mudar a mentalidade do senso comum que zelar pelo cuidado do lar é de responsabilidade inerente das mulheres. Vá agora no Google e digite “brinquedo para meninas”, depois pesquise “brinquedo para meninos” e você verá que existe toda uma construção que desde cedo induz a mentalidade machista que os homens não são também responsáveis pela vida doméstica. Enquanto a indústria induz as meninas a brincar de casinha, os meninos brincam com algo que remete a algumas profissões


Em 1975, no livro Sexo, Sociedade e o Dilema Feminino, Simone de Beavoir disse que Enquanto a família, o mito da família, o mito da maternidade e o instinto maternal não forem destruídos, as mulheres continuarão a viver sob opressão. Infelizmente, em pleno século XXI o mito da família e da maternidade ainda não foram aniquilados, o que torna a missão de acabar com a desigualdade de gênero uma tarefa que necessita do envolvimento de todos. Chega de piadinhas que continuam a perpetuar que a obrigação dos homens para com a vida doméstica é levantar as pernas; chegou a hora de todos levantarem do sofá e juntos lavarem as louças, cuidar dos filhos e construir um mundo melhor. Nos seres humanos precisamos ser como os pinguins-imperadores.

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