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Quem você acha feio?

12.2.14Diego Matioli


Ainda essa semana a Dana escreveu "A gente tá sempre criticando os outros, né?", sobre como vivemos em uma cultura que julga os outros, e julga muito. Sendo esse um tema bastante sensível para mim, que convivo com esse tipo de preconceito até hoje, quis dar meu parecer na intenção de levar a discussão dela um passo além. Só que ele ficou tão grande que se tornou um texto separado.

Então sentem aqui e ouçam uma história.

Não julgo as pessoas pela aparência. Não costumo usar as palavras “feio” e “bonito” para descrever pessoas. Não dou risada da roupa dos outros. Quando meus amigos o fazem, costumo dizer “Não é particularmente o meu estilo, mas se a pessoa está feliz, bom para ela.”. 

Sei o que é ser julgado e lido até hoje com a falsa noção de que outras pessoas podem determinar meu valor baseado no que elas acham. E não desejo isso para ninguém. É fácil dizer “É só brincadeira”, “Você leva isso a sério demais”, “Ele nem está ouvindo”, mas é difícil esquecer as sequelas que esse tipo de brincadeira já deixou em mim.


O primeiro aspecto da minha aparência pelo qual lutei foi meu cabelo. Quando comecei a ganhar dinheiro, tomei controle total dele. Como as imagens indicam, já pintei de uma vasta gama de cores que só tende a aumentar. Te garanto: ter cabelo roxo é uma experiência deveras interessante. Não há como não te olharem na rua. Não há como não ver quando riem, quando apontam. Dois senhores vieram me perguntar se eu torcia para o São Paulo para provocar um terceiro a respeito da suposta “natureza” da torcida.

Mas eu já não ligava.

Quando você sabe quem é, o que os outros dizem já não importa. Demorou quase duas décadas para aprender isso, mas valeu a pena. Quero que essa discussão transcenda o intelectual e alcance o físico: quando estiver com seus amigos e eles começarem a falar mal daquele cara tatuado ou dos sapatos daquela menina, pense que você não sabe nada sobre essas pessoas, que elas podem ser incríveis e, principalmente, que elas tem a coragem de mostrar quem são. Você pode dizer o mesmo?


Sabe, já me perguntaram uma vez: você acha que sua aparência é um exemplo apropriado para os alunos?

Sim, eu acho. Acho que mostrar que seu valor enquanto ser humano e sua competência profissional não são definidas por seu biotipo, aparência, roupas, cabelo ou sexualidade, e que você não precisa ceder à pressão social para encontrar seu lugar é um ótimo exemplo para dar.

Passar bem.

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14 comentários

  1. A maioria das pessoas (e me incluo nessa maioria porque, se não me policiar, acabo fazendo mesmo sem perceber) tem a péssima mania de achar que se fulanx não estiver ouvindo ou não ficar sabendo, tá tudo ok. Eu tô diariamente trabalhando no fato de que o que as pessoas vestem ou não vestem ou como elas se parecem não é da minha conta, e se não é da minha conta, então eu não preciso comentar.

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    1. É mesmo um processo de transformação que depende de muito policiamento, Mareska! Nem vou dizer que sou perfeito e nunca faço isso, mas posso afirmar que já faço com rara frequência e por pura distração. Na sala de aula é quando eu fico mais atento. Não incentivo meus alunos a fazer esse tipo de fofoca destrutiva (que floresce feito erva daninha na adolescência) através do meu próprio exemplo. É a melhor ferramenta que eu tenho.

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  2. Fechou com chave de ouro. Acho um atraso imenso certos preconceitos relacionados ao ambiente profissional e fico pasma ao ver que o talento e o profissionalismo de alguém é colocado em dúvida por causa da aparência. E isso em todo lugar, como se o que realmente importasse fosse o "parecer" e não o "ser", pois com o "parecer" uma pessoa percorre mais da metade do caminho. Absurdo.
    Acho que quando somos muito jovens, na adolescência por exemplo, somos bem mais vulneráveis em relação a esse tipo de julgamento. Tudo nos afeta mais e toma dimensões incrivelmente horríveis, e podem, sim, deixar marcas para a vida toda. É mesmo um desafio conseguir se conhecer antes de tudo e ligar o foda-se para o que dizem/pensam de você. Às vezes a gente passa uma vida inteira tentando fazer isso. Às vezes o simples fato de virar adulto já faz com que não nos importemos tanto, afinal passam a existir preocupações maiores, ou melhor, mais urgentes. Enfim, sempre haverá alguém para falar bem e alguém para falar mal, então realmente não vale a pena levar tudo tão a sério e se preocupar com quem nem nos conhece direito. É o que eu acho.

    Um beijão, Livro Lab

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    1. Minha preocupação com os alunos é que nessa idade a necessidade de se adequar é tão intensa que qualquer comentário pode ser extremamente destrutivo. Tive um aluno, excelente desenhista, que simplesmente parou de realizar as atividades na sala de aula por que o irmão comentou que isso era "coisa de viado".

      Só quero poupa-los de neuroses desnecessárias oferecendo um espaço seguro em que eles possam se expressar e não temer serem julgados. Todos os teóricos concordam que criar uma criança com base no incentivo positivo, lhe desenvolvendo a confiança, gera resultados infinitamente melhores que práticas de repressão. Não é uma tarefa fácil e nem sempre sou bem sucedido, há alunos que não entendem o que eu digo e continuam a ridicularizar os colegas desenfreadamente, mas essas novas gerações tem a cabeça mil vezes mais aberta e a recepção costuma ser boa. A meu ver, é através dessas pequenas mudanças que poderemos alcançar um futuro mais tolerante e humanitário.

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    2. E lá na minha escola era proibido usar bermuda, mas esse calor causou a rebelião de todos os professores. Poxa, até parece que o fato dos meus tornozelos estarem cobertos ou não vai afetar a qualidade do meu trabalho!

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  3. Ainda que eu acredite que as pessoas tem todo direito de ostentarem a aparência que quiserem e que isso não significa que são professores ou pais ou humanos piores que os outros, queria entender seu motivo para achar que se expressar com a aparência que quiser é mais valido do que o pensamento que quiser, inclusive o de não gostar.

    Seu cabelo roxo grita 'Gosto de cabelo roxo!' E ninguem pediu para saber sua opinião sobre isso, mas ela está ai para todo mundo ver. Então, se você 'grita' pra mim que gosta, como pode achar errado eu sussurrar para um amigo que 'não gosto'?

    Veja que não estou nem cogitando 'gritar' isso de volta para você. Isso seria invadir seu espaço, seria um ataque direto, e mesmo que eu não goste do seu cabelo, ele não está me agredindo, não tenho esse direito.

    Estou falando apenas de expressar a opinião. Censurar opiniões é menos errado que censurar aparencias? Educar e tantar proteger egos frageis não são a mesma coisa.

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  4. Veja bem, não estou falando sobre a censura de opiniões, mas sobre a censura de preconceitos. Em nenhum momento disse que você é obrigado a gostar do meu cabelo roxo ou do fato de eu pintar o cabelo. O que peço é respeito. Exatamente como, no paragrafo inicial, eu exemplifico falando de alguém cujas roupas eu não gosto. "Não é meu estilo, mas se a pessoa gosta, tudo bem." Eu respeito o direito dela de se vestir como quiser, mesmo expressando minha opinião. Eu não imponho minha opinião dizendo que o que ela faz é errado ou certo. Eu a respeito não fazendo comentários maldosos, nem rindo pelas costas dela, nem apontando na rua como se ela fosse uma aberração.

    Eu não tento determinar o valor de um ser humano por suas características superficiais, só isso.

    O que quero explicar é que há uma diferença bem grande entre sussurrar para um amigo "Ai, eu não gosto de pintar o cabelo, acho feio." ou falar "Nossa, acho tão estranho quem pinta de cores diferentes, tipo roxo e verde, sabe? Não parece natural" e fazer comentários maldosos do tipo "Olha que ridículo aquele palhaço ali do outro lado da rua!", "Meu deus, que viadão. Deve torcer pro São Paulo, hahaha!".

    Minha visão de educação pode ser um pouco diferente da sua, não tento proteger egos, tento prover confiança e liberdade para os alunos se expressarem e respeito e tolerância para que saibam aceitar a expressão do outro.

    Espero ter esclarecido meus pontos. Obrigado pelo comentário.

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    1. De onde vem essa "necessidade" (aspas porque não achei palavra melhor) que a gente costuma ter de apontar o dedo na cara do que consideramos diferente? O próprio exemplo do cabelo, por que é que alguém, quando vê um cabelo roxo na rua, necessariamente sente que tem que comentar isso, tanto faz se de maneira educada ou sendo babaca?

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    2. Isso é muito cultural. Se você ler o post da Dana que eu cito no começo, ela comenta justamente sobre como em outras partes do mundo, não há essa necessidade de comentar tanto a aparência dos outros. Mas isso é uma batalha diária. Enquanto todo mundo considerar tabu, nunca vai mudar. Tem que ter a coragem de enfrentar os comentários e paciência de educar os desinformados. A gente vai ganhando espaço "uma lady gaga de cada vez", digamos assim.

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  5. Não sou muito fã desse discurso de não julgar pela aparência, porque acho algo simplesmente impossível. Nossa imagem sempre transmite algo sobre nós e não há como ignorar o efeito que a aparência alheia tem em cada um de nós. Por exemplo, se eu conheço uma pessoa que se vista sempre com tons claros, eu provavelmente vou associar isso à personalidade de alguém tímido e delicado e vou imaginar que esta tal pessoa é assim. Todo o tempo, estamos julgando uns aos outros, é algo intrínseco a nossa natureza. Pelo menos, para mim, independe de nosso controle formar ou não uma opinião baseando-se na aparência de alguém.
    Mas, ao mesmo tempo, acredito que há uma distância muito grande entre nossos pensamentos e nossos atos. Não é porque vi alguém com uma roupa que julgo ser feia, que eu vá rir e ridicularizá-la publicamente. Ou porque cabelos roxos não me agradem, que eu vá avaliar o valor profissional de alguém por isso. O que quero dizer é não vejo grandes problemas em formar opinião a partir da aparência, vejo um problema quando essas opiniões conduzem a atitudes de desrespeito, grosseria ou até mesmo de crueldade.
    Por fim, deixo uma pergunta: será que todos não deveriam não apenas se esforçar para apontar menos o dedo para os outros, como também para não levar tão a sério o que dizem? Afinal, também faz parte da vida ouvir e aprender a conviver com as opiniões alheias e seguir em frente. Acho que é um exercício que deve ir nas duas direções. ;)

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  6. Mas eu concordo com você Isabela. E em alguns casos, o preconceito é algo extremamente necessário.

    Exemplo: se eu sou um gay e vejo um cara vestido de preto, cabeça raspada, que parece um skinhead vindo na minha direção, sei bem que essa tribo tem fama de bater em homossexuais. Claro, pode ser que ele não seja um skinhead. Pode ser que ele não ache que eu sou gay. Pode ser que ele faça parte de uma das vertentes Skinhead que é a favor dos homossexuais (sim, isso existe e pouca gente sabe), mas por puro instinto de sobrevivência eu vou desviar meu caminho e ir para um local seguro. E tudo bem. É preconceito, mas isso pode ter evitado que eu leve uma lâmpada fluorescente na cara.

    Mas eu acho que, em condições normais e em ambientes considerados seguros, é sempre bom dar a oportunidade das pessoas de nos surpreenderem. Ou corro o risco de deixar de conhecer pessoas incríveis por pensar "ah, aquela garota é tímida, não vai querer falar comigo", mas na verdade se trata de uma bailarina recatada, mas muito comunicativa que fez intercambio por dois anos na Russia. "aquele cara tem o cabelo roxo, deve ser um porra louca drogado", mas na verdade ele é um biólogo marinho que participa de campeonatos de poesia no tempo livre. E para fazer isso, é necessário um certo policiamento. Se até mesmo falar mal dos outros já é um comportamento automático, deduzir coisas precipitadamente então, nem se fala!

    Um exemplo que eu gosto muito de usar é o Bobak Ferdowsi, aquele engenheiro da NASA que trabalha com a Sonda Curiosity. Ele é super jovem, usa um moicano e raspa estrelas na lateral da cabeça. Se você só visse o cara e achasse ele um locão de cabelo estranho, perderia a oportunidade de conhecer uma pessoa incrível que tem MUITO conteúdo para oferecer. Então nunca se sabe, entende?

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    1. Sim, entendi seu ponto e concordo totalmente. De fato, existe essa tendência muito forte de se deixar levar por estereótipos e, com isso, perde-se a chance de fazer amizades, conhecer pessoas incríveis, contratar excelentes profissionais e por aí vai. Sem dúvidas, todo mundo precisa de uma dose diária de esforço para dar mais oportunidade para conhecer os outros, antes de soltar um comentário maldoso ou de virar a cara.

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  7. Acredito que respeitar opiniões é fundamental, desde que elas sejam expressas de forma respeitosa. Escarnio, sarro e intriga não é opinião, é preconceito. No mundo atual pode até necessário aprender a lidar com o preconceito, mas não quer dizer que ele não deva ser combatido, na minha opinião.

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  8. Nossa, como é que só fui achar esse texto agora? Mesmo sendo antigo achei necessário comentar HUGHUGFDHIGHDUGHD

    Essa coisa de falar dos outros é uma questão enorme na minha vida, porque minha avó faz isso o tempo inteiro. E eu por osmose acabei aprendendo a ser assim e nunca me questionei, nunca parei pra pensar no significado disso, até que um dia acendeu a luzinha na cabeça. Ela me critica da mesma forma que critica as pessoas ao seu redor. Eu me magoo com as críticas, com o desrespeito dela. Porque eu vou fazer a mesma coisa com as outras pessoas, mesmo que seja só um estranho passando por mim?

    Desde então eu venho tentando me policiar e questionar os julgamentos que eu faço. É difícil porque além de ter passado quase uma vida inteira emitindo esse tipo de comportamento, ainda tenho o reforço da nossa sociedade que é extremamente julgadora e preconceituosa. Então cara, o seu post é super importante.

    TODO MUNDO DEVIA LER ISSO!!!

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