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A gente tá sempre criticando os outros, né?

10.2.14Dana Martins


Não, sério. Sempre. Olha, emagreceu. Olha, está mais alto. Cortou o cabelo. Falou demais. Tênis novo. É muito bonito. E por aí vai... Acho que não tem um dia que eu não escute alguém analisar os outros. Só uma pergunta: qual a necessidade disso? Vamos conversar.

Um tempo atrás eu vi um texto chamado "Como é ser gorda fora do Brasil?" e ele mudou totalmente a forma como eu penso. A garota diz que aqui no Brasil as pessoas têm necessidade de sempre apontar que a outra é gorda, fazer comentários e coisas assim. Enquanto eu lia, eu pensei "Nada a ver, eu quase não escuto isso." MAS JÁ ERA TARDE DEMAIS. Meu cérebro ficou: Será mesmo? Vamos ver.

James: "Olha aquele idiota." Rose: "Nossa senhora, aquilo é um cabelo?" Jack: "A coisa tá feia mesmo."

No dia após ler esse texto eu viajei com a minha família (MUITAS COBAIAS! AE!). Sabe que não passou um dia de viagem sem eu ouvir um comentário? Era até cansativo. Elevador? "Será que dá todo mundo?" *algumas piadinhas sobre peso* Comprar roupa? *comentários sobre tamanho* Assistir novela? *comentários sobre o peso dos atores com a tela* Comer? Ih, nem se fala. Falar de ser gordo na hora da comida é mais rotina do que rezar para agradecer a chance de ter uma comida.

Dizem que as pessoas com religião são mais felizes, vai ver é por isso. Alguns rituais são como um 365 Grateful. (:

Como eu comecei a reparar nessas coisas, meu sensor aranha começou a captar além do tema gordura. As pessoas são verdadeiros policiais da moda! É roupa, cabelo, maquiagem, cor da pele e o que mais encontrarem pra falar. Ah, vi homens e mulheres fazerem críticas, de todas as idades. (mentira, não vi crianças fazendo isso, mas também não ando com crianças)

O mais supreendente, contudo, não foi descobrir que as pessoas são críticos ambulantes do corpo alheio. Foi ver a reação de pessoas a mudanças.

Meu irmão colocou um piercing.

Reação: TIRA ISSO AGORA! (não foi o meu pai, nem a minha avó. foram vários dos nossos amigos)

Meu irmão fez tatuagem.

Reação: COMO É QUE VOCÊ FEZ ISSO? É DE MENTIRA, NÉ? (novamente, não foi a minha avó)

Tudo bem, você pode estar falando: MEUDEUS, O SEU IRMÃO É UM LOUCÃO QUE FAZ TUDO ISSO COM O CORPO. Olha aí você criticando!!!

O interessante foi que as pessoas não só viram, criticaram e se "assustaram", elas também reagiram falando para ele tirar. Tem ideia do que isso? TIRA ISSO DO SEU CORPO. TIRA ALGO QUE VOCÊ QUIS FAZER E TE FAZ FELIZ. TIRA ISSO AGORA. Por que? Porque ficou estranho. 

Quando meu irmão decidiu fazer o piercing, eu também fiquei meio assim. (mais porque podia dar problema e eu tenho muito nervoso de ter um furo no nariz. tipo, será que quando respira você sente o ar passando?) E vários outros momentos eu já tive essa reação de "NÃO!", até com coisas que eu achava legal, mas não era muito comum (tipo piercing). Sabe, a gente não tem como se impedir de pensar essas coisas, ainda mais que são tantas e de todos os lugares, mas eu acredito que a gente pode repensar. Na verdade, não é só questão de fé. Eu tenho feito isso. E por eu fazer isso já vejo meu irmão fazendo isso. O Paulo aqui do blog faz isso e já falou comigo uma vez, o que me motivou a fazer mais isso. Pra que negar e reclamar de algo que não faz mal a ninguém, enquanto você poderia estar deixando a pessoa feliz? 

E sabe o que eu reparei? Não é só com o meu irmão. É com tudo que não é considerado normal. O Brad Pitt decide raspar as laterais da cabeça? ISSO NÃO É PARA SUA IDADE! MAS É O BRAD PITT, ELE PODE! Então qualquer outro homem da idade dele que fizer o mesmo não pode? Um garoto decide fazer um discurso mais emocional no facebook. GAAAAAAAY. Mandei uma resposta grande no facebook. DESCULPA POR FALAR DEMAIS!!!

Eu inclusive. Aliás, eu sou um troll ambulante e para zoar alguém o básico é pegar algo que incomoda. AAAAAAH SUA BAIXINHA!!! E se eu encontrar alguém baixinha, eu consigo pensar em todas as piadas ridículas com isso para todos os momentos. É maravilhoso chamar meu irmão de idiota e burro, principalmente quando ele morre outra vez no videogame. Mas o que isso significa para o outro?

Para um minutinho, deixa eu ver ser você tá grávida ou é gorda mesmo. 

Quando alguém se abre e quer desejar o bem para as pessoas aparece um outro sacaneando. Aliás, com um "xingamento" que nem deveria ser um xingamento. Quando alguém fala de coração no facebook e você aparece chamando de gay, você está 1) inibindo a pessoa (e outras que estão vendo, inclusive você!) de se expressar, o que em muitos casos pode ser importante; 2) xingando todas as pessoas que são gays; e 3) desvalorizando tudo o que é feminino. 

COMBO! Parabéns por ser um grande idiota. Mas, ei, eu também sou idiota, só que desde que eu percebi o que isso significa para as outras pessoas, eu decidi repensar o que eu faço.

Se não, acontece como eu vi outro dia. 

"Tuudo a mesma cara! Mentira, essa da esquerda parece ser normal....."
"Ah, e elas não são chineses. São da Coréia do Sul."
"O que importa? É tudo olho puxado!"

Aparece uma mulher que não é chinesa em uma cena na China do jogo. 

Uma pessoa que eu conheço e que se importa com os outros diz sem pensar: "Primeira vez que eu vejo gente normal aí."

Gente normal: pessoas ocidentais. Porque ser chinês não é normal!!!

É claro que existe o normal de comum e o normal de natural, mas em um lugar onde o fora do comum é banido com gritos de TIRA ISSO, os dois acabam se misturando. E por coisas simples assim, sem pensar, você está criando uma cultura que faz as pessoas passarem fome para emagrecer (ao ponto de anorexia e bulimia!), faz se cortarem porque não acreditam que são bons o bastante, faz a escola ser proibida para meninas, faz criarem coisas como o apartheid e faz até tentarem exterminar todos os diferentes em prol do "normal."

"Desde cedo, aprendemos a nomear tudo o que vemos, convivemos e sentimos. Isso nos distancia do sentido real do significado único de cada coisa. Precisamos reaprender a por significados antes dos nomes, e não o oposto disso, como passamos a fazer." - de algum lugar das profundezas do facebook.

Repensar as nossas ações (e palavras) e o significado delas, pode fazer a diferença. 


-dana martins
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Um extra que aconteceu nesse fim de semana e eu precisava dividir com vocês:
Esse fim de semana mesmo, meu primo depois de 7 anos de namoro decidiu pedir a namorada em casamento e disse que faria um jantarzinho (com cachorro quente!) só pra família, enquanto na verdade estava preparando uma surpresa no salão de festas com tudo bonitinho e romântico (tinha pétalas de rosa na mesa do jantar e luzes de vela!), se preocupou até em colocar 7 bolas em formato de coração para comemorar os 7 anos de namoro e pediu o meu avô ajuda em um discurso. Ele estava realmente se esforçando para fazer algo legal para ela. E aí? E aí que mais de uma vez brincaram com ele gritando FEEEEEEELIX! (sim, o da novela) Todo mundo estava adorando tudo, mas ainda havia a necessidade de apontar que aquilo não era exatamente masculino e era vergonhoso. Meu primo, por declarar amor e criar um momento pra celebrar isso, é considerado corajoso

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2 comentários

  1. Quanto a parte dos asiáticos e ocidentais, tem algo que eu vi na tv e até hoje não consigo esquecer. Aconteceu um certo tempo atrás... Tá bem, foi beeem no passado, quando ainda passava Casseta e Planeta (bons tempos) e os apresentadores colocaram três asiáticos um do lado do outro em público e desafiavam aos que passavam por ali e tinham coragem: "Qual você acha que é chinês, japonês e coreano?".
    E por algum motivo isso ficou preso na minha cabeça, como se fosse possível separar três etnias diferentes apenas por olhar a três pessoas diferentes. E só agora eu parei para perceber o que significava realmente.
    E quanto a criança de sete anos. Ele me soa uma graça e os outros que tiraram sarro dele vieram de um lar opressivo e influenciável pela mídia. Qualquer momento em que um homem aparece e faz alguma coisa romântica já o tacham de gay porque homem que é homem tem que ser aquele barrigudo de cerveja sentado na frente da tv, coçando o saco o dia inteiro enquanto assiste futebol. Como se homem não pudesse ser romântico e no momento em que tentam são chamados de gays.
    Apesar de ser contrário à minha religião, adoro pessoas gays e até acho fofo ver um casal segurando mãos. Fico feliz por eles. Acho que posso até ser chamada de heterofóbica. aushaushaus

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  2. Tenho muitas coisas a pensar agora... Muitas.
    Obrigada, por abrir os meus olhos para tal necessidade.

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