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A solidão da mulher negra

3.10.18Taiany Araújo


Quando se fala em solidão da mulher negra, se você não faz parte de um grupo que discute gênero, classe, raça e etc, talvez esse seja um assunto que você nunca ouviu falar. E porquê deveria se as mulheres negras estão afastadas de todos os meios, e quando aparecem, como no caso da Marielle Franco, são rapidamente desvalorizadas e apagadas para que se discutam pautas mais importantes?

Se o lugar da mulher é ainda um pedacinho minúsculo tendo que ser conquistado a tapas e gritos, o lugar da mulher negra nem existe porque mulheres brancas estão nos representando. Não digo isso para segregar as mulheres, e sim para elucidar que apesar de sermos todas mulheres, temos questões e lutas diferentes para discutirmos. 

Em tempos do politicamente correto, vários temas causam polêmica por questionar justamente os preconceitos e lugar comum de privilégio que estamos acostumados. Falar sobre a solidão da mulher negra parece ser um “mimimi” de quem quer fazer textões na internet. Ora, existe um “gosto pessoal”, atração não é uma escolha certo? Ou ainda pode-se ouvir - e esse é um discurso que anula todo um histórico de segregação e exploração - que negros são os maiores racistas, então se mulheres negras estão sozinhas no âmbito afetivo e sexual é porque os homens negros, como os maiores racistas que existem, só querem se relacionar com mulheres brancas. Não é nossa culpa, a culpa é de vocês. O que nós temos a ver com isso? O que o passado tem a ver com isso? 


Tudo. 

Gostos e escolhas são construções sociais, e historicamente a mulher negra, pelo menos no Brasil, é aquela que vive segregada, não faz parte do grupo de mulheres dignas. Todavia, desperta o imaginário masculino por sua forma, cor e porque não, personalidade - coisas a serem “experimentadas”, assim vemos surgir a concepção da mulher negra como símbolo de volúpia e sexualidade. Mulheres negras eram ótimas para se ter na cama, mas em nenhum outro lugar fora dela. Nosso histórico cultural identifica as características (cor de pele, cabelo, forma) da mulher negra como algo negativo não só no âmbito relacional, como no mercado de trabalho, no meio acadêmico. Os cabelos são cheios demais, a estética extravagante demais, o corpo voluptuoso demais, a conduta forte demais como uma guerreira que não é alcançada. Chego à conclusão que somos consideradas demais para a sociedade. 

E antes que digam que isso é invenção de pessoas que escrevem na internet, é só procurar nas estatísticas do IBGE a porcentagem de mulheres negras solteiras/separadas. Digo mais, é só olhar para diversas casas e observar gerações de mães e avós que criam sozinhas seus filhos, e que não lembram a última vez que se relacionaram afetivamente com alguém. Inclusive no meio LGBT+ mulheres negras se encontram num lugar de apagamento, não há um olhar sensível sobre essa questão, muito menos sobre o efeito que causa. Ao contrário, é uma realidade que mulheres negras aceitam desde a infância, caladas e solitárias na esperança de quem sabe não entrarem na estatística. 

Se você perguntar para uma mulher negra sobre seus relacionamentos, não é difícil ouvir histórias de abandono, baixa autoestima, desesperança. Entretanto, ainda lhes é negado expor essa realidade, pois ora, mulheres negras são fortes, trabalhadoras, que arregaçam a manga e vão à luta!! Não existe tempo para chorar ou desejar um relacionamento, pois as mulheres negras precisam estar sempre como rochas. Há todo um imaginário de curiosidade quanto a essas mulheres, ao mesmo tempo em que essa força toda assusta e afasta as pessoas. E é por meio desse histórico de preconceitos, estereótipos e apagamento que mulheres negras são esquecidas à margem, se adaptando e aceitando aquilo que não podem mudar. 

Sempre fui solitária no que diz respeito a relacionamentos românticos e sempre entendi que era por ser gorda. Eu não sabia que sofria pela cor da minha pele, mas então, de um tempo pra cá passei a observar isso e perceber que até com amizades a cor da minha pele influenciou. E foi quando eu percebi, e expus isso que enfim constatei algo que gerações de mulheres negras sempre souberam, mesmo que não usando a mesma denominação. Apesar de conhecermos tantas outras como nós, somos um grupo de pessoas solitárias, e não, estar com alguém não muda esse fato porque a solidão da mulher negra vai para além de ter um/a parceiro/a: é uma solidão de lugar na sociedade.


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