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A utopia LGBTQ: eu sou o ganhador que teve tudo numa tacada só

28.8.18João Paulo Albuquerque


Esse texto pode servir de resposta direta (eu prefiro pensar em reflexão direta) ao texto, ou pelo menos à parte do texto, do Tino; "Do meu ponto de vista... Com Amor, Simon".

Eu vi o filme duas vezes e já escrevi sobre o mesmo duas vezes e quando eu li o texto do Tino, achei não só muito bom, como pertinente, mas não pude evitar o desconforto com a parte que citarei abaixo.

"Outra coisa que enfrentei dificuldade com o filme: que realidade é essa que o Simon vive? Onde é que tem pais com todo esse suporte? Onde é que tem amigos héteros tão "ok" assim? Onde é que tem uma vizinhança que ele não passa a correr risco de vida por ser gay? Onde é que tem uma escola que valoriza as diferenças e tem professores que defendem os alunos lgbt+? Onde é que pode se permitir ser o que é sem medo de não acordar na manhã seguinte? E a pergunta de ouro, quem é o ganhador dessa bolada que consegue ter tudo isso numa só tacada?"

Eu me senti incomodado porque de alguma maneira não é dessa maneira que me sinto, nem que vivo, então eu me senti incomodado porque rolou uma imediata desconexão. Apesar de eu achar uma questão não só importante, como real (já que é a realidade da maioria da comunidade), eu me senti desconectado imediatamente porque eu sou um dos poucos sortudos que tem suporte da família, vive num bairro que não se sente ameaçado, que tem uma escola com professores que apoiam e defendem seus alunos LGBTQ (com excessões, claro, mas vocês entenderam), meus amigos héteros são ok com tudo isso (sendo que posso contar nos dedos quantos amigos héteros eu tenho), e principalmente, eu não penso sobre meu medo constantemente (justamente porque eu tenho esse privilégio de ter mais segurança de vários setores da minha vida).

Não que eu não sofra homofobia, não escute bosta, não tenha que lidar com professor imbecil ou não tenha que educar meus familiares. É que esses não são os focos da minha vida, não são as coisas que estão em todos os momentos da minha vida no meu cangote. Não me entenda mal, não estou falando que eu esqueço dos problemas de viver sendo LGBTQ ou de gente babaca, mas eu tenho muito mais de positivo na minha vida e de segurança (assim como suporte). 

E eu sei que isso não representa nem 0,0091% da comunidade LGBTQ, mas eu sei que tem pessoas que também vivem como eu. E sim, somos privilegiados e extremamente sortudos, assim como nada disso desvalida o que nós sentimos e vivemos, as discussões que a comunidade propõe só abrem novos caminhos e nossos olhos para diferentes situações de vivências.

Meu propósito com essa reflexão, é parar para pensar que apesar dos problemas e tudo o mais, a utopia passada pelo filme de Love, Simon não foge tanto da realidade. Pelo menos não para algumas pessoas. E tudo bem você fazer parte dessa utopia, tudo bem você ser sortudo e privilegiado em alguns quesitos em relação à outros e sua vivência nem problemas são "menores" ou "inválidos" só por causa disso.

O verdadeiro problema é ainda existir gente que amedronta, expulsa e/ou agride os outros por serem quem são, por serem LGBTQ. O verdadeiro problema é ainda existir professor que ofende ou expõe os alunos LGBTQ em sala de aula. O verdadeiro problema é ainda ter "amigos" que se afastam, te xingam, agridem, por você ser quem você é. O verdadeiro problema é as ruas não serem seguras para LGBTQs. O verdadeiro problema é ainda existir gente preconceituosa.

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