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Do meu ponto de vista... Com Amor, Simon

13.5.18Valentino Martins

Oi, meu anjo. Tudo bem? Hoje vim falar sobre o meu ponto de vista quanto ao filme "Com Amor, Simon". Logo após assistir, e me emocionar, e gostar, e tudo mais, fiquei com uma pulga atrás da orelha, cuja qual descobri ser maior do que eu pensava. Enfim, vem que no caminho eu te explico, mas, antes, preciso te fazer um grande pedido: se você vai usar qualquer conteúdo dessa matéria pra invalidar o filme, destilar ódio ou qualquer atitude semelhante, te suplico que prossiga pro próximo post. Sai daqui. Tá bem? Então tá ótimo.

Por que tô aqui falando sobre

Eu estava conversando com a Dana e comentei algumas situações que eu tinha reparado no filme. Ela me falou pra escrever um post, mas eu estava inseguro. O assunto do momento geralmente fala sobre racismo ou machismo ou capacitismo e esses não são meus locais de fala. E eu tinha esquecido que:


É. Eu sou gay. Esse filme está falando sobre mim, sobre a minha vida e sobre como as pessoas me veem. Então, é meu local de fala e eu vou falar.

Antes de ler, por favor, tenho plena consciência desses pontos:
- Reconheço que o filme é importante;
- Reconheço que o filme é revolucionário;
- Provavelmente concordo em número e grau com qualquer matéria (escrito por lgbt+, óbvio) falando do porquê o filme é bom/importante.

"Too Gay"/"Gay demais"

Tem uma parte do filme que mostra o Simon (protagonista) tendo um devaneio sobre, na perspectiva dele, o que seria "se assumir gay". Esse momento mostra ele pensando em um futuro próximo saindo do armário. Nessa cena, ela está na faculdade, ele sai dançando, mudando o vestuário e enfiam qualquer referência que alguém possa rotular de "gay" sobre ele. Se fosse só isso estava ótimo.

Só que sempre tem a hora do "mas...", né? Então, a pessoa que escreveu essa parte teve a brilhante ideia de fazer uma piadinha. Afinal, trazer um humor para o filme não mata ninguém. E então, estamos nessa cena, ele sai dançando, arco-íris, lady gaga e bandeiras lgbt pra todas as direções e... ele para e diz "não, gay demais". 


Eu te juro que eu senti o impacto, estava na minha zona de conforto e fui nocauteado. Eu fui ver um filme sobre um menino gay pra ouvir "gay demais"? É sério? O filme é sobre minha sexualidade ou sobre piada homofóbica de gente antiética? Já ouvi várias vezes pessoas "aceitando" o viado que é na dele e fazendo piada desmerecendo as bichas afeminadas, como se fosse "demais". Ou seja, o filme é sobre os viados ou sobre aquele familiar que te quer bem quietinho pra não parecer o que você é: gay? 

Aliás, o filme não era sobre sermos quem nós realmente somos? Porque se era sobre isso, não tem cabimento um "gay demais". Nós não somos um volume que aumenta e diminui, nós não somos um pote que coloca até dizer chega - "ain, hoje eu vou hétero", "hoje eu vou bem afeminada" ou "hoje vou tirar um pouquinho pra ser pacata". Não. Não é assim que funciona. Nós somos gays. Somos lgbt+ e só. Seja o mano brabo, seja a bicha afeminada, seja lá quem você é. O que nós somos não é quantitativo. E um filme sobre "gay" deveria no mínimo saber isso. Então, assim, isso é inaceitável pra mim.  

Nesse momento me lembrei de algo que aconteceu comigo, minha tia uma vez me abordou no facebook e disse literalmente assim: "tá tudo bem você ser gay, tá? Só... por favor, não se mostra. Não diz pra ninguém. Não precisa ser "muito gay"". Exatamente nessas palavras. Isso não é legal e isso machuca e, bem, foi muito infeliz ter que ver isso no filme, era pra ser exatamente o oposto.

Quem beijou, beijou. Quem não, chama inbox.

Outro momento que não pude deixar de perceber foi o beijo entre o Simon e o Blue. Eles chamam isso de beijo? Pode parecer teoria da conspiração da minha parte, exceto que não é. Faça uma pesquisa, observa como o beijo entre um casal hétero é retratado, agora olha quando são entre pessoas do mesmo gênero. A diferença é gritante, no beijo lgbt+ você vê duas bocas literalmente só encostadas e no hétero, quando já não pula pra cena do sexo, é um beijo intenso com direito a língua e torção de rosto. Pode não parecer nada demais, principalmente se você não for lgbt+, mas é. A gente tem raríssimos personagens lgbt+ em filmes e quando tem (e estão vivos), eles não conseguem nem mostrar um beijo normal.

O problema disso é que cada vez mais parece que tudo é falso. Eu, gay, fui ver um filme sobre uma pessoa gay e, iludido, achei que fosse ser sobre pessoas gays e suas experiências "sem censura". Só que talvez eu querer que a minha vivência seja retratada direito e com um beijo de verdade, seja "gay demais", né? 

Óbvio que tem exceção, só que o problema está na regra. E em regra, é retratado assim:

EXPECTATIVA

REALIDADE

Utópico

Outra coisa que enfrentei dificuldade com o filme: que realidade é essa que o Simon vive? Onde é que tem pais com todo esse suporte? Onde é que tem amigos héteros tão "ok" assim? Onde é que tem uma vizinhança que ele não passa a correr risco de vida por ser gay? Onde é que tem uma escola que valoriza as diferenças e tem professores que defendem os alunos lgbt+? Onde é que pode se permitir ser o que é sem medo de não acordar na manhã seguinte? E a pergunta de ouro, quem é o ganhador dessa bolada que consegue ter tudo isso numa só tacada? (Antes de continuar a ler, pensa e tenta responder sinceramente essas perguntas.)

Você quer saber o que eu vivo? Meu pais não existem e quando existiram me trataram como se eu fosse doente. Nunca tive amigos héteros, mas conheço inúmeros casos de pessoas que perderam seus "grandes amigos héteros" ao se assumir. Teve uma época que não era assumido e ainda assim, sabe quantas vezes já me olharam com nojo? Sabe quantas vezes pediram pra me retirar do ambiente? Muitas vezes e imagine hoje que sou assumido. Todas as escolas as quais estudei eu não vi, nunca, um professor falar sobre os meus direitos ou defender quando o coleguinha solta uma piada homofóbica (e isso porque tive o privilégio de estudar em escola de alto padrão). Pra completar, eu já quase fui assassinado em plena tarde de feriado numa das praias mais conhecidas do Rio de Janeiro, bota fé? Essa é a minha realidade. Ao ver um menino gay como Simon super privilegiado com uma superestrutura familiar, social, estudantil e um lugar que tá ok ser quem ele é. É muito lindo. Só que não é real. Talvez no interior da Islândia, mas no resto do mundo? Não. Se você resistir e achar que é exagero: atualmente, nesse instante, na Chechênia existe campo de concentração pra pessoas lgbt+. Não ouse dizer que estou exagerando.

Eu dei vários exemplos de situações que passo. Quer você acredite ou não, eu nunca vi uma pessoa lgbt+ que não tenha mais de 3 dos problemas que citei simultaneamente. Eu vivo no meio gay e todo dia é um caso mais pesado que o outro. É suicídio. É família que abandona. É um parente que mata ou bate. O que quero dizer é: o filme é lindo, só que ele ignora os problemas.

E não é nem que precise ser mais um filme de tragédia ou drama pesado, não é isso que eu tô falando. One Day At A Time é um grande exemplo de uma série de comédia que mostra pessoas felizes, mas não ignora todas as dificuldades que eles passam - seja por ser gay, ou latino, ou mulher. Com Amor, Simon parece ignorar tudo, quase com medo de lembrar que homofobia existe e "chatear" gente hétero. 

Two is a hilarious hate crime

Em um momento do filme depois que espalham que Simon é gay na escola, logo associam ele a o único outro garoto gay que existe como se fossem namorados. E aí o outro garoto faz uma piada:  "Você sabe como é: uma pessoa gay é ok, duas? Um "cômico" crime de ódio."

Só que no próprio filme, na maior parte do tempo, o Simon é o único personagem gay. Todos os outros três que têm suas histórias desenvolvidas - Leah, Abby e Nick são héteros. Eles chegam a desenvolver em cena mais o relacionamento dos outros personagens héteros do que qualquer relação de mesmo gênero.

Ou seja, o filme faz uma piada e ele mesmo não dá espaço pra mais do que um (1) personagem gay, que é até interpretado por um ator hétero.

Partes boas

Pra não dizer que não vi nada bom (o que já deixei claro ter visto no início do post), tá aqui alguns pontos que me agradaram significativamente:

  • Quotes
Vou pôr essas duas citações porque eu, como lgbt+, me identifico demais: 

"One minute I’m on top of the world, then the next I’m at rock-bottom" - Minha vivência é exatamente essa. Um dia eu quase sou expulso de casa, outro dia eu vi, com meus próprios olhos, o amor transformar uma mulher extremamente religiosa e homofóbica em uma das pessoas que mais me acolhe e respeita, me enchendo de amor e esperança. Acho que ser lgbt+ tem esse pequeno detalhe, sua vida pode se transformar numa montanha russa de altos e baixos facilmente.

"I deserve a great love story and I want someone to share it with" - Essa frase expressa literalmente porque esse filme é bom. Porque é uma história de amor feliz e nós temos esse direito e nós podemos ter isso. (não importa que eles nos matem em todos os outros filmes)

  • Representatividade
Vocês repararam que o elenco do filme não é composto 99,9% de pessoas brancas? Abby, Bram, Jorge e Ethan, sendo todos eles bastante espaço no filme e nenhum deles sofrendo, também estão todos vivos. Chegamos ao ponto que ter alguém bem e vivo de diferente etnia e sexualidade é um avanço pra representatividade. 

Não entendeu? Vou dar um exemplo baseado nas últimas séries que vi:
- Cable Girls: só tem ator branco;
- Grace and Frankie: tem 30 gente branca pra duas negras, e olha lá;
- La Casa de Papel: só a Nairóbi?
- Stranger Things: só o Lucas?

E por último: Lost In Space. Eu só assisti os dois primeiros episódios, mas a maior parte do elenco é de pessoas brancas, e aí você tem dois pingados ali (duas mulheres negras e um cara latino) que tão ali só sofrendo.

Obs.1: Isso porque estou falando de Netflix e eles tentam. Se pegar de canal comum por aí a estatística é ainda mais bizarra.
Obs.2: Isso porque estamos considerando apenas: pessoas gays, bissexuais e negras. Imagine se fossemos considerar todas as demais minorias.

  • Amiga Bi
Leah (interpretada pela Katherine Langford), amiga de Simon, quando encarou a Abby vestida de mulher maravilha explodiu o meu gaydar. Não tem como ela ser hétero, não importa o que você diga. Então, fiz minhas pesquisas e: ela é bissexual (que eles ainda apagaram no filme).



  • Final feliz
Acredite se quiser: final feliz é revolucionário. Eu não sei te dizer um filme que tenha casal lgbt+ que tenha espaço pra desenvolver o personagem e que: um dos lados não morra ou não passe o tempo inteiro sob intenso sofrimento. Se você encontrar visibilidade e representatividade, observe que: um está em doença terminal e o filme se desdobra sobre essa dor. Se você encontrar visibilidade, representatividade e pessoas saudáveis: qualquer motivo vai ser usado pra deixar os dois separados e sofrendo durante toda a trama. 

Eu quando era menor não costumava buscar filme pra ter com o que me identificar. Meu namorado quando era menor assistiu todos os filmes de casais gays que ele achou e adivinha? Ele não aguentou assistir por muito tempo. Por quê? Deixo aqui o que ele me disse: "Eu lembro quando era menor. Minha família era muito religiosa, o único lugar que tinha contato com quem eu sou era em filmes com lgbt+. Mas aí eu parei porque eu não achei, nunca, nenhum filme feliz. Todos os filmes eram sempre a mesma fórmula: opressão, sofrimento, morte, doença, homofobia e etc. Eu nunca vi um filme com uma história feliz, era sempre pesado demais e isso me faz mal".
Essa fala explicita não só como a "imagem" de nós (lgbt+) está muito errada, como mostra a importância de você ter representatividade na mídia. Portanto, é, é bom saber que tem um filme que mostra que posso ser feliz.

Conclusão

Acho que respondendo minha pergunta lá do início ("O filme é sobre minha sexualidade ou sobre piada homofóbica de gente antiética?"), talvez a pergunta ideal não seria apenas "sobre", mas também "pra quem". O filme é claramente sobre pessoas gay, agora talvez não seja feito pensando em nós, mas sim para o público hétero. O filme é uma linda história lgbt+ diluída em dois litros de heterossexualidade e conservadorismo. Olhando dessa perspectiva, os erros até fazem sentido. Afinal, "too gay" nunca foi uma piada pra mim e eles não conseguirem nomear preconceito de homofobia e nem conseguirem pôr um beijo normal é medo de ferir o ego do "sujeito padrão".

Mais uma vez, nada novo sob o sol, outra história interpretada por pessoas que não fazem parte da comunidade e consequentemente os erros imperceptíveis aos olhos comuns, surgem na superfície. O filme é importante porque esse é o tipo de filme que tem alcance, eu vi minha família vendo anúncio diversas vezes na TV e, quanto mais desmitificado nós formos, mais fácil será pra cada vez mais termos uma representatividade melhor e real. Toda essa situação só lembra o meu cotidiano: é um processo e todo dia de luta faz parte dessa movimento. Temos muito o que conquistar e pra chegar lá, é um passo de cada vez. 

Enquanto não podemos desfrutar literalmente os filmes que falam sobre nós  mesmos, deixo a sugestão da série "One Day At Time", fará bem a sua alma.

E é isso aí. Faz parte. Arrasa na vida e sempre: lembre-se de sorrir e ser feliz demais no processo. 


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1 comentários

  1. Esse texto me arrebatou!
    Pelos seus pontos e alguns outros.
    Eu não percebi tudo oq me incomodou, mas algo havia me incomodado no fim do filme. O que vc apontou é real. E eu fiquei irritado.
    Muita gente falando que o filme lhe representava e como chorou e tals e se viu ali. Só que eu notei que o filme não era pra mim, era pra uma pessoa hetero. Inclusive eu arrisco dizer que era pro meu eu "hetero" antes de me assumir.
    E teve gente falando que não era um filme sobre auto aceitação, e que retratava como a pessoa lida pra se assumir pros outros. Eu odiei.
    Eu to cagando pros outros e sempre estive. Não ter algo que eu me veja quando eu precisava me assumir pra mim mesmo é uma droga, e doi uma droga.
    Tudo parece tão bom nesse filme. Parece mesmo que o Simon ta paranóico e que no fim nada ia dar errado mesmo e ele devia saber disso e não se preocupar. A vida não é assim.
    O apagamento é enorme. O beijo é falso. A representatividade não existe. A única coisa real é o preconceito. E ele nem teve que lidar com a própria comunidade LGBT, oq provavelmente iam tratar de uma forma perfeita tbm.
    Enfim, o filme não é todo ruim. E eu amei a parte do povo se assumindo hetero, apesar que não serviu pq ele foi lá se assumir e ninguém exclamou "Valha-me, Jesus!".
    Mas ainda há muito a ser feito. Pelo menos estamos caminhando.

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