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Céu sem Estrelas, de Iris Figueiredo

4.7.18Taiany Araújo


Na bienal de 2017, durante um evento da Seguinte - cujos convidados eram o Eric Novello e a Iris Figueiredo - fomos informados que essa moça tava preparando um livro que iria abordar sobre saúde mental e que a história iria se passar na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Já naquela época fiquei interessada, mas é sempre assim com eventos literários: a gente se interessa por uma história que ainda tá muito longe de vir para nossas mãos e às vezes até esquece delas. Mas não foi o que aconteceu com Céu sem estrelas.

Além de ser a melhor rede social que respeitamos, o twitter ainda nos permite interagir com as pessoas que admiramos, acompanhar autores, cantores, uma infinidade de pessoas que sem as internets não teríamos contato. E foi através dele que pude acompanhar toda a elaboração do livro da Iris, ficar ansiosa e na expectativa pelo seu lançamento, fomentar meu desejo de lê-lo e virar uma caçadora de fuscas azuis.


Céus sem estrelas é meu primeiro livro da Iris Figueiredo, e sinto que comecei muito bem, com uma história não só maravilhosamente escrita, como também com algo que me representa. Vivi muitos anos buscando representatividade nas histórias que lia, e mesmo encontrando um ou outro aspecto, elas nunca conseguiam chegar na questão do que é ser uma pessoa gorda. Muitas das minhas vivências, inseguranças e percepção do eu não eram alcançadas porque não havia com quem me identificar. Fico feliz disso estar mudando de uns tempos pra cá, e essa história é mais um presente que vou guardar com todo amor pelo fato de colocar em palavras diversos sentimentos da Taiany de 18 anos, sentimentos esses que infelizmente não foram todos superados. São muitos anos de coisas para trabalhar ainda, e a gente só continua.

O livro acompanha a Cecília, uma menina super doce e legal, mas que ninguém enxerga. O problema é que ela também não se abre, isso faz com que ninguém conheça a Cecília verdadeiramente, nem a melhor amiga. Todos apenas tem vislumbres de quem ela é, fragmentos que ela solta aos poucos, cada um com uma peça do quebra-cabeça. Isso poderia até não ser um grande problema se a Cecília estivesse conseguindo lidar com todas as coisas que estão acontecendo na sua vida ultimante, no entanto, não é isso que vem acontecendo. E enquanto enfrenta mais uma batalha no relacionamento com a mãe, se sente perdida na faculdade, é demitida do trabalho e tem uma desilusão amorosa, ela vê suas inseguranças tomando cada vez mais espaço e sua saúde mental desmoronando tal qual um castelo de cartas.

Em contra partida, temos o Bernardo, um cara privilegiado e dentro dos padrões, que questiona justamente isso. Ele também tem suas dores, sua dúvidas, dá umas bolas fora algumas vezes, mas percebemos que é uma pessoa boa e sensível que quer muito acertar e descobrir quem é, qual o seu lugar no mundo. Achei isso muito legal no livro, mostrar duas realidades completamente diferentes deixando claro que todos temos nossos demônios, todos fazemos merdas, todos magoamos as pessoas por vezes sem querer. Não existe o perfeito, existe o tentar sempre ser melhor, consertar nossos erros e reconhecê-los.

Acho que a única coisa que fiquei sentindo falta no livro foi um desfecho para a Iasmin. Não no sentido "e assim acabou" - como leitor dava para perceber o caminho para qual ela estava indo - no entanto, nenhum dos personagens fizeram nada em relação a isso, nem sei se eles realmente sabiam sobre o que tava acontecendo apesar de desconfiarem. Ela precisava de ajuda, queria ter visto alguém ajudando. Por outro lado, achei o desenrolar da Luciana, mãe da Cecília, apesar de triste, bem real. Nem sempre as pessoas vão reconhecer seus erros ou mudar, como a gente vai lidar com isso é o que realmente importa.

Uma surpresa agradável foi como a Iris abordou os transtornos psicológicos, saindo do lugar comum que mesmo tendo temas importantes pra serem abordados, é algo já visto. Todavia, a Iris foi além e disse "transtornos psicológicos não são românticos, não é algo que tá na moda, não é bonito ter. Existem uma infinidade de questões que afetam nossa saúde mental ao ponto do adoecimento e é preciso falar sobre elas e mostrar que há uma saída, mesmo quando as nuvens encobrem as estrelas."

Sou cria de literatura estrangeira, acho muito estranho ambientações no Brasil, princialmente quando usam referências de lugares que conheço, tenho dificuldade de enxergar esses lugares nas histórias, mas com Céu sem estrelas isso foi tão natural, acredito que foi uma das coisas que deixou a história mais crível. Parecia mesmo que aquilo tudo estava acontecendo, a faculdade, as festas, as amizades foram retratadas como um dia a dia real. Fiquei absolutamente apaixonada pelo enredo e a escrita desse livro, deu pra ver como que cada detalhe foi bem trabalhado, a insegurança quanto ao trabalho de um psicólogo, o não achar que precisa de ajuda, a certeza que é coisa para maluco. Como psicóloga vejo muito isso, e é algo tão enraizado na crença popular que o ato de procurar ajuda demora, dói, parece mais fraqueza que força. É força, um ato de coragem, um lampejo.

Ah, não posso deixar de falar como a Iris dá uma aula de representatividade. Às vezes as pessoas tentam falar "oi eu coloquei representatividade na minha história" e tudo parece tão forçado, algo que tá ali como uma obrigação, mas que não flui. Outras vezes, e acho que isso é ainda pior, as pessoas fingem que isso de representatividade nem existe. Essas segundas criam justificativas, textos, respostas para se isentarem. "Ah porque na época era assim. O contexto histórico. Minha vivência pi pi pi po po po". Não há o que se possa falar, não existe justificativa para isso. Eis que vem a Iris e simplesmente dá vida para seus personagens. Ela não cria uma representatividade x ou y, ela coloca os personagens na sua história e a gente sabe que eles existem. É assim que se faz.



Eu podia falar cada detalhezinho desse livro lindo, mas acho que a melhor coisa que posso falar agora é :
- Leiam Céu sem estrelas, ele vai tocar o coração de vocês.



E também deixar vocês viciados em fuscas azuis, afinal, dentro deles cabem a quantidade certa de pessoas.

Nota:


É um daqueles livros que se quer emprestar pra todo mundo. 


Ficha Técnica:


Autora: Iris Figueiredo

Editora: Seguinte

À venda em: Saraiva - Amazon - Submarino


Obrigada a Editora Seguinte por ter cedido esse hino em forma de livro  pra gente <3




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