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Homens cisgênero e aborto: 8 mitos para desconstruir já

30.6.18João Paulo Albuquerque




Aborto é um tema delicado, não há dúvidas quanto a isso, mas é necessário de ser tratado. Entretanto, não dá para homem cis (homem que se identifica com o seu gênero imposto ao nascimento) achar que "não deveria ser legalizado" quando não é ele quem vive aquilo, mas mulheres cis, homens trans e algumas pessoas não-binárias, e são essas mesmas pessoas quem deveriam ter o direito de segurança pública. Porque a discussão sobre aborto ser legalizado se trata disso, saúde pública, já que mulher rica vai conseguir abortar sem danos. E é justamente isso que nós, homens cis, parecemos não entender quando desenham pra gente a situação: quem não tem condições financeiras corre risco de vida. É isso. Não há lei que impeça alguém de abortar, se a pessoa está desesperada, não tem condições para cuidar do que nove meses depois será uma criança, não vai ser uma lei que vai impedir ela. Mas vai ser uma lei que vai impedir ela de sair viva do lugar onde vai fazer esse aborto.

Da série Bojack Horseman
Se dizer "pró-vida" se preocupando com o que vai nascer e não com as condições que impactam na vida do que virá a ser uma criança é hipocrisia, é ser "pró-nascimento". Afinal, a gente realmente se preocupa mais com um punhado de células que estão em formação para o que virá a ser um ser humano? Ou a gente se preocupa com a pessoa que vai fazer aborto e muito provavelmente não sairá dessa viva?

Justamente para desmistificar algumas ideias já muito enraizadas na nossa cultura, eu trouxe 8 mitos desmistificados sobre o aborto retirados da edição 370 ("A Verdadeira Maria") da revista Super Interessante (do ano 2017) [com alguns poucos acréscimos das minhas pesquisas para esse texto].


1º) "Aborto é problema de pouca gente"

O aborto é comum em todo o mundo. Legais e ilegais, são 56 milhões ao ano (o que corresponde a quase uma Itália inteira), segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Ser proibido em 119 países não impede que aconteça. 1/4 (um quarto) das gestações do mundo terminaram em aborto voluntário (de 2010 a 2014).

Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, 500 mil mulheres abortaram e a respagem do útero (curetagem) foi o terceiro procedimento ginecológico mais realizado pelo SUS entre 2014 e 16. E 1 em cada 5 mulheres aos 40 anos já abortou voluntariamente pelo menos uma vez na vida.

Entrevista com a artista em AzMina

2º) "Para que abortar? Melhor se proteger"

Segundo o Ministério da Saúde, 50% das mulheres que abortaram no Brasil estavam no uso de algum anticoncepcional quando engravidaram, sendo que são 68% das brasileiras que usam c o n t i n u a m e n t e (sendo 25% contando com esterialização, como laqueadura ou vasectomia) algum tipo de método contraceptivo -- afinal, nenhum método é 100% seguro.

As probabilidades de falha (segundo Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, OMS, Bayer, Ministério de Saúde):

Pílula: de 0,1% a 8% de falha.

Pílula do Dia Seguinte: 5% (dentro das primeiras 24 horas) a 20% (dentro das 72 horas).

Diafragma: de 6% a 20%.

Camisinha: 8% a 20% (incluindo mal uso).


retirado desse tumblr.

3º) "Aborto é um problema de mulher!"

Gestações só ocorrem com participação de duas pessoas: um homem (cis) e uma mulher (cis) [nesse cenário]. Ou seja, gravidez indesejada é um problema de ambas as partes, não só da mulher. A maior parte (70% segundo o Ministério da Saúde) de gestações que terminam em aborto são frutos de relacionamentos estáveis ou casamentos. Entre adolescentes, o número é maior: 97,5% estão numa relação estável, sendo que no mundo 73% (segundo Guttmacher Institute) dos abortos são feitos por mulheres casadas. Levando em consideração ainda que somente 21% dos homens dizem usar camisinha no sexo com parceiras fixas (segundo a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes, e Práticas da População Brasileira de 15 a 64 anos de idade, pelo Ministério da Saúde).

E vale lembrar, vocês criticam o aborto, mas não criticam o abandono/escolha do pai de não assumir a criança, sendo que é registrado pelo Conselho Nacional de Justiça que 5,5 milhões de brasileiros não têm o nome do pai no RG.

retirado do Nexo Jornal.

4º) "Proibir o aborto evita o aborto"

É a decisão mais difícil tomada por meio milhão de brasileiras todos os anos. Quem decide interromper uma gravidez - cometendo um crime, segundo a lei brasileira -, o faz porque não vê escolha. Segundo o PNA (Pesquisa Nacional do Aborto) de 2016, entre as mulheres que abortam estão 25% protestantes ou evangélicas, 56% católicas, 12% declarando não ter religião e 7% de outras religiões.

Segundo o Guttmacher Institute, nos países em que é permitido, o aborto acontece em 34 a cada 1.000 gestações, enquanto nos países que não é permitido, 37 a cada 1.000 gestações.

"A mulher que aborta entra sozinha em um mundo ilegal, que ela não conhece, e precisa comprar os remédios com traficantes ou buscar médicos clandestinos. Ela faz todo o processo sem ajuda. Não é uma situação fácil", disse Debora Diniz, antropóloga responsável pela Pesquisa Nacional do Aborto.



Laura Athayde para a Revista Risca

5º) "Se o aborto foi legalizado, eu vou ter que pagar por ele"

Você já paga por ele (não esperava por essa, não é mesmo? ODKSOKDSOKD), afinal abortos ilegais e procedimentos pós-abortos já vão parar no SUS porque quando ocorre a interrupção de uma gravidez em clínicas sem fiscalização ou com métodos caseiros, as chances são grandes de precisar de cuidados médicos. Ou seja, o aborto sendo ilegal gera um custo para os cofres públicos (não estamos falando de pouco dinheiro) que não existiria se os procedimentos fossem legais.

Para ilustrar melhor a situação, aqui os dados da Organização Mundial da Saúde: O mundo gasta 23 milhões de DÓLARES em tratamento de complicações causadas por abortos sem segurança, e 930 milhões de DÓLARES devido à mortalidade causada pelos abortamentos, sendo 6 bilhões de DÓLARES para tratar infertilidades causadas por abortos inseguros.

No Brasil, segundo o DataSUS e Ministério da Saúde, em 2013 houveram 154.391 internações por aborto induzido registradas no SUS, custando 63,8 milhões de reais, sendo 190.282 curetagens realizadas pelo SUS que custaram 78,2 milhões de reais, resultando em 142 MIL REAIS com abortos ao ano.

Isso tudo, sem falar que aqui no Brasil, 70% das adolescentes que continuam a gravidez abandonam a escola, e isso tem impacto sobre a produtividade do país (segundo Ministério da Saúde: 20 anos de Pesquisa sobre o Aborto no Brasil) e 12 bilhões de reais são perdidos por ano com gestações adolescentes e é mostrado que se as meninas do Brasil pudessem chegar aos vinte anos sem dar à luz, o trabalho e estudo delas geraria grana pra cima (segundo o Jornal O Globo, DataSUS, Ministério da Saúde)


6º) "Aborto é perigoso"

Sim, é verdade que segundo a OMS, o aborto é a causa de morte de 47 mil mulheres ao ano no mundo inteiro (o que equivale a mais ou menos 2 mulheres por minuto) - e de disfunções físicas e mentais de outras 5 milhões, além de ser a razão de internação de 7 milhões, MAS existe um detalhe que muita gente ignora: a interrupção da gravidez só mata quando é realizada de forma insegura, fora dos padrões da Organização Mundial da Saúde.

Em países onde o aborto é legalizado, é seguro. Nos EUA, por exemplo, a mortalidade dos abortos é de 0,7 mortes a cada 100 mil procedimentos, e na Suécia, entre 1988 e 2007, não morreu nenhuma mulher por aborto (embora a taxa lá seja de 17,5 abortos a cada mil mulheres, uma das mais altas da Europa).

As mortes são altas onde não há estruturas. Na África Subsaariana são 520 mortes a cada 100 mil abortos, no Norte da África são 460 a cada 100 mil abortos, em países da Ásia são 160 mortes a cada 100 mil mortos, na América Latina são 30 mortes a cada 100 mil abortos e na Europa Ocidental são 1 morte a cada 100 mil abortos. (dados de Guttmacher Institute e OMS)

Os países mais recentes que legalizaram o aborto foram: Chile, Irlanda e Argentina, respectivamente e isso mostra muito sobre como os números de aborto caíram puxados por países mais desenvolvidos, como lembra G1, e isso só nos lembra de reforçar a visão com os passos retrógrados que tentam dar no nosso país (enquanto ainda tentam agir debaixo de nossos narizes). 

Vale lembrar também que 98% dos abortos clandestinos ocorrem nos países em desenvolvimento (segundo Guttmacher Institute e OMS), neles 75% dos abortamentos ilegais são realizados em condições inseguras (segundo Orientação técnica e de políticas para sistemas de saúde, OMS) e 25% das mulheres que fazem abortos nessas condições ficam com sequelas que precisam de cuidados médicos (segundo OMS, Preventing unsafe abortion). 

No Brasil, abortos inseguros são a quarta causa de morte materna (segundo DataSUS).


7º) "Só mulheres desestruturadas abortam"

Segundo o Ministério da Saúde, quanto maior a renda e escolaridade da mulher, maiores são as chances de sua primeira gravidez resultar em um aborto. 

Em sua maioria, as mulheres que abortam são maduras e esclarecidas (segundo PNA 2016, 67% que optam pelo aborto já tem ao menos um filho, sendo só 33% das mulheres que não têm). Adolescentes que engravidam de forma indesejada não têm autonomia - financeira e psicológica para procurar a interrupção.

E os dados mostram que 18% das brasileiras entre 35 e 39 já abortaram, enquanto só 9% das jovens entre 18 e 19 anos abortaram. (no mundo, a porcentagem de jovens abaixo de 18 anos que abortam é de 14%)

Segundo o PNA 2010 e 2016, mulheres que abortam estudam e trabalham, sendo em 2016, 58% com Ensino Médio ou Superior Completo e 60% com emprego.


8º) "Não precisa abortar, é só dar o filho para a adoção"

Passar por uma gestação e então dá-lo embora é uma decisão ainda mais difícil do que abortar. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é o direito da mãe entregar o filho para a adoção, mas o Estado tenta manter a criança com a mãe ou família. É crime, por exemplo, amigos ou uma família interessada adotarem o bebê sem a Justiça presente.

E ainda vale lembrar que há muitos fatores que impedem ou desaceleram os processos de adoção, como por exemplo: hoje, quase metade (46,6%) dos pretendentes inscritos no cadastro é indiferente à cor das crianças ou adolescentes. Ou seja, dizem aceitar filhos de qualquer raça (Há cinco anos, eram 31,8%). Apesar disso, país ainda registra discrepâncias regionais e só 10% das crianças adotadas são negras. (dados retirados do G1 [outro texto])

Outro fator que impede adoção é a idade das crianças ou adolescentes, porque quem adota procura mais por crianças de 1-4 anos, como o Jornal Nexo explica e demonstra em gráfico:

Tive que improvisar porque não dá para copiar o gráfico direto do site deles.

Espero que eu tenha sido claro nos dados e principalmente em como nós, homens cisgênero, não deveríamos falar que "não achamos que deveria legalizar o aborto", e se você não faria/pediria pra fazer, ok, que bom. E caso você pense em justificar o fato de "achar que não deve ser legalizado" com base na sua religião, leia esse texto sobre cristãos que apoiam a legalização e mantenha em mente que não é porque sua religião diz que você não deve abortar que todo mundo deva ouvir o que sua religião diz, afinal é sua religião, não de todo mundo. Ou melhor, essa é a sua interpretação da sua religião, porque como mostra Camila do texto d'O Globo, ser cristão não é necessariamente ser contra o aborto.

E agora para finalizar, um vídeo (o melhor que eu já vi) de uma mulher falando sobre a realidade (também fornecendo dados) brasileira - e do mundo, em relação ao aborto:

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