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Quando Star Wars vai contar a história da Rey?

24.12.17Dana Martins


Antes de tudo, isso não é sobre se eu gostei ou não de Star Wars: Os Últimos Jedi - eu gostei. Yeey. Pronto. Isso não é sobre se eu gosto ou não da Rey - ela é maravilhosa, incrível, adoro. Esse texto é sobre construção de história, e sobre parece que os criadores de Star Wars continuam contando história de homem mesmo quando uma mulher é protagonista.

~tem spoiler pra dar e vender nesse texto~
~é uma análise do filme~


Vamos pensar no que a Rey fez nesse filme. Qual é o arco dela? O que ela fez pra ela? Qual é a narrativa?

A história parece ser que ela quer descobrir quem são os pais, quer descobrir quem ela é e de onde veio. É uma necessidade tão forte de - não sei, não estar sozinha, que aparentemente ela flerta até com o Lado Negro. Essa é até uma narrativa bem legal. Imagina a Rey, essa garota que cresceu sozinha e foi abandonada, encontrando família em um bando de rebeldes, ou com Luke, ou com Han Solo. Imagina a Rey sendo testada, cedendo ao lado negro, chegando ao ponto de fazer algo terrível ou sei lá. Podia ter uma historinha de: Fulaninho sabe dos seus pais, MAS VOCÊ VAI TER QUE TORTURAR ELES. E AÍ, VAI OU NÃO? IMAGINA O QUE ESTARIA EM JOGO!!!

Mas a gente não vê isso, e o que vê tá dissolvido e aguado em uma narrativa pra promover o Luke e o Kylo.

Tem três coisas sobre a Rey que parece que o filme não sabe lidar, ou eu não entendo, que é: 1. a narrativa do jedi, 2. a história dela com os pais e 3. a história de rebelião.

O filme até agora não me mostrou por que ela se importaria com os rebeldes (tirando o fato de que ela é um ser humano decente). Ela nem conhecia o Poe até o fim desse filme. Às vezes parece até que ela vive em outro universo. Qual é a ligação??? Por que que ela vai lutar???? No fim quando o Voldemort Cabeçudo mostra pra ela que as naves estão sendo atacadas, e depois o Kylo não impede isso de acontecer, cadê ela gritando uns TEM GENTE MORRENDO SEU FILHO DA PUTA?? Não tem. 

Imagina a Rey, por exemplo, naquela narrativa com a Rose vendo o povo sofrer e vendo que pode ajudar outros órfãos como ela, órfãos de guerra ou sequestrados pelo Império. ME DÁ ALGUMA COISA PRA TRABALHAR, FILME. Se esse não fosse um filme de Star Wars, onde já existe esse mundo, e fosse um filme só da Rey, acho que a gente nem ia saber que os rebeldes existem porque isso é o que a gente vê a partir dela. 

No máximo, a ligação dela com os rebeldes é de que ela é a "arma secreta" que eles precisam pra vencer a luta contra o Império. Mas veja bem, é uma ligação baseada no poder dela, não na personagem. Se a Rey fosse uma varinha mágica quase não faria diferença. É aquilo: tu já não me convenceu por que ela vai lutar pela rebelião, agora tu quer me convencer também de que ela vai virar uma super-heroína pra isso?

Rey: tô aqui de boa catando lixo vivendo minha vida quero só ficar em paz no meu planeta de lixo
Povo: não, você tem que ir procurar o Luke!!
Rey: ah, okay. vou abandonar tudo

Pra mim faltou desenvolvimento. O Kylo joga na cara dela que a ela foi atrás do Han Solo e do Luke por causa dessa necessidade de uma figura paterna. Seria até interessante, se isso fosse desenvolvido e não JOGADO NA MINHA CARA COMO SE EU TIVESSE QUE ACEITAR COMO VERDADE. No primeiro filme até foi okay o lance Han/Rey. Mas podia ter mais desenvolvimento nesse?? 

Podia ter a Rey: eu passei a minha vida toda sozinha e encontrei o Finn e o Han, e me senti um pouco em casa, E AÍ ELE FOI LÁ E MORREU, POR CAUSA DO FDP DO KYLO QUE NÃO SOUBE APRECIAR TER PAIS. ELE TINHA TUDO O QUE EU SEMPRE QUIS E JOGOU FORA. Sério, pra que ela vai abandonar tudo- abandonar o Finn, que é a única referência de casa que ela tem- pra encontrar o Luke? 

Bem, porque ela tá sendo perseguida pelo Kylo, seria uma boa justificativa. "Ele tá vindo atrás de mim e eu preciso me preparar." E aí, no meio disso, naquela hora que ela faz o discursinho pra o Luke de "tem essa coisa dentro de mim que despertou e eu não sei o que é" - podia ser revelado que a verdadeira razão dela ressentir o Kylo é ele jogar fora os pais, que é a abertura da ferida pra ela ter crescido sozinha. Essa é a fraqueza dela, como o filme coloca, e o Luke podia ver ali o potencial de destruição e dela ir pra o lado negro. 

O filme perde tempo ali no início com a Rey não contando pra o Luke que ela tá lá pra ser treinada, pra que???? Era a oportunidade perfeita pra isso: TÔ AQUI PRA TREINAR PORQUE O KYLO TÁ ATRÁS DE MIM POR EU SER JEDI SOCORRO PLS SEND HELP. (e seria muito mais interessante, por parte do Luke, ele negar treinamento pra Rey mesmo que isso a coloque em risco de vida) 

Mas por que o filme não desenvolve isso direito? Em parte, porque o objetivo da Rey ali foi bem aguado, em parte porque o foco deles é o Luke - e a história dele com o Kylo. Eles querem fazer a negação do Luke interessante, é isso que eles estão explorando ali.

Logo no início do filme o meu alerta vermelho foi quando a Rey pede ajuda e o Luke nega. Essa é uma das primeiras etapas da Jornada do Herói - o momento que o herói escuta o Chamado, mas recusa. O herói costuma aceitar com relutância. E no filme da Rey, o Luke era o herói.

Se fosse o filme da Rey, esse início teria sido construído de modo que ela ia chegar lá pra o treinamento Jedi, mas a "jornada" dela começaria com o incidente: o momento que ela vê a própria capacidade para o mal. A fraqueza dela em relação aos pais. Como ela tá projetando o ressentimento e dor no Kylo (isso é headcanon, porque no filme ela não faz isso. pra mim, ela ter raiva e querer lutar com o Kylo seria resultado da morte do Han Solo, como eu disse ali em cima) (como é que o filme quer me dizer que ela projetou nele uma figura paterna, se ela não tá nem aí???). A busca por lidar com essa fraqueza é a jornada que ela aceita com relutância. 

Ou seja, o 1) motivo pra ser juntar aos rebeldes, já é fraco. O 2) razão pra ela querer treinamento é fraco também. Aí só resta o 3) relação com os pais.

Esse negócio da relação com os pais é JOGADO NA NOSSA CARA TAMBÉM. Quer dizer, no primeiro filme já tem um tom disso. Mas nesse não fala nada até ela ir parar naquele espelho do Harry Potter lá. E até o Kylo usar isso contra ela. 

Mas aí tem duas coisas nesse filme, pra começar. Primeiro que o Finn é a família que ela encontra, e é lindo como mostram eles perguntando um do outro no início, mas depois desaparece?? E ela projetou querer ter um pai no Han Solo, MAS CADÊ ELA MOSTRANDO SENTIMENTO QUANTO A ISSO? Cadê ela "Porra, me fodi a vida toda e aí encontrei um cara e ele morre." Esse treinamento jedi era o momento perfeito pra isso: ela busca uma figura pra guiar ela. Podiam ter feito isso de modo que mostre que a Rey tá mais interessante no Luke como essa figura paterna, do que como um mestre Jedi. Mostra ele cuidando dela. Ou faz uma ceninha igual Elsa/Anna de Frozen da Rey acordando o Luke pra brincar na neve (VAMOS TREINAR NA NEVE). Me dá algo pra trabalhar aí.

Me dá até ela rejeitando. "Você não é quem eu pensei que você seria." (e aí o Luke ainda dá um vrau de "VOCÊ ESPERAVA QUE EU FOSSE SEU PAI, NÃO SOU.") 

Coisas parecidas até acontecem, mas são todas voltadas pra a Rey como Jedi, o Luke como lenda e o Kylo na verdade é bonzinho!!! 

Sem falar que QUE PORRA É ESSAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA????????????????????? POR QUE ELA TÁ SÓ PROCURANDO PAI????????

A LEIA TÁ BEM ALI, ESSE TEMPO INTEIRO.

Por que tá todo mundo perguntando quem é o pai da Rey, não a mãe? Por que o filme não faz ela buscando figura materna? 

Reflita que eles fazem o centro/fraqueza da Rey ser essa necessidade de uma figura paterna/materna, de ter família, de não ser abandonada, AÍ ELA VAI LÁ E DEIXA O FINN. VAI LÁ E DEIXA A LEIA. E FICA AINDA ATRÁS DO LUKE, QUE TÁ POUCO SE FODENDO.

Então apesar de ser a parte mais Rey que existe no filme, ainda é uma motivação mal explorada e diluída na narrativa do Luke/Kylo.

E eu só tô falando de motivação, de como essas coisas não me convencem, porque ao longo do filme só piora.

A Rey vai lá pra treinar e não treina nada. Ela passa literalmente um tempão do filme indo do nada a lugar nenhum, o máximo que acontece é o "potencial negativo" aparecer, ela entrar lá naquele buraco e tentar encontrar os pais. O que, novamente, dá abertura pra uma nova narrativa dela: a Rey quer ser alguém. Ela quer ser reconhecida! Ela cresceu abandonada num lugar que é "lugar nenhum" e ela quer ser importante!!!! 

Mas aí começa aquela conexão com o Kylo, que novamente se torna sobre ele - o que aconteceu? como ele foi pra o lado negro? ele foi injustiçado????? Pobrezinho!!! Em vez de ser muito mais a própria Rey sendo levada pra o Lado Negro. Quando ela sai do nada atrás do Kylo (do nada. pra que isso??? qual a razão disso???? olhar na cara dele e falar "você é bom?" se eles fossem fugir pra ser jedis juntos, não era melhor marcar em um lugar???) - enfim, quando ela sai atrás dele, soa muito mais como VOU SALVÁ-LO, do que VOU SER MAL. 

A única coisa que a Rey fez esse filme todo foi acreditar que alguma coisa boa poderia acontecer mesmo nas trevas. 

Aí tem lá a briga com aquele cara que parece o Voldemort, em que a Rey: FICA LITERALMENTE PARALISADA O TEMPO INTEIRO E NÃO FAZ NADA. O KYLO É QUEM MATA O CARA. PORQUE É CLARO QUE ESSA ERA A HISTÓRIA DELE - PRA VER SE ELE IA OU NÃO FAZER A COISA CERTA.

Os dois discutem. O Kylo joga na cara da Rey que ela tinha lá os problemas de família e que no fundo ela sabe que os pais dela não são nada.

Pera aí, você tá me dizendo que a única narrativa da Rey era querer descobrir quem são os pais, e a "grande revelação" é gritada na cara dela de qualquer jeito quando a gente não tá nem aí?

Veja bem, essa narrativa tinha tudo pra ser poderosa - se os pais dela não são ninguém, talvez ela não seja ninguém, talvez ela deva mesma ser abandonada pra ser esquecida até se fundir em areia num planeta descartável. Você nunca vai ser ninguém, Rey. O seu poder não é bom o bastante. Você não foi capaz de vencer o Voldemort. Ninguém se importa com você. A não ser eu... Eu acho que era isso que eles tavam tentando fazer, mas a única coisa que eles conseguiram foi eu:


cara, ATÉ SE OS PAIS DELA FOSSEM NINGUÉM, eu acho muito bom. Tipo, uma garota que veio de lugar nenhum e construiu quem ela é?? "Qualquer um" pode ser Jedi. Mas isso trabalhado direito, mostrando ela tendo orgulho ou lidando com isso. Mostrando como algo legal. 

Pra mim, não teve aquele momento de "essa é realmente a fraqueza dela" ou ela "vai pra o lado negro" ou "ela tá em risco." Meu medo era mais dos escritores serem mais machistas do que da personagem realmente ceder. E ela não cede.

Tudo acaba.

A arminha explode jogando cada um pra um lado. 

E é isso. Tchau, Rey. Sua história acabou. Você foi até lá porque acredita no Kylo, mas pra que isso? Por que você se importa com ele? O que isso tem a ver? O que ela achou que tava fazendo? O que ela queria conseguir indo lá? Qual foi a conclusão, de que ele era mal mesmo? O que a Rey aprendeu??? Alguém sabe?????????????



Ou seja, a primeira parte foi sobre o Luke negando, a segunda foi sobre o Kylo ser bom ou mau. A Rey tá ali só observando e sendo o que une a história dos dois. A narrativa da própria Rey mal escrita e aguada na história deles. E a gente sabe que a história é deles, porque na maior parte do tempo é sobre eles tomarem decisões, não ela. 

(a única decisão que ela toma é não querer ir pra o lado negro, mas?? e daí?? já não era a decisão dela desde o início? em algum momento houve dúvida??)

Depois disso, pra batalha final, acontecem três coisas. 

A primeira é que a gente vê o Kylo levantar depois da porrada e tomar controle do Império, indo atrás dos Rebeldes. Vou te falar que até a própria história do Kylo é meio ruim - pra que ele quer matar aquela gente?????? Por que ele é "do mal"? Ok. Mas ainda faz mais sentido ele, agora como líder, querer eliminar a oposição e ir fazer isso. Até ele é mais conectado aos rebeldes que a Rey - porque ele quer poder, ela não. (ou seja, a gente gastou o filme todo pra ver que o cara é babaca mesmo) (e, cá entre nós, o filme parecia que era sobre isso: é os últimos Jedi por causa do poder de destruição dos Jedi, por isso o Luke queria colocar o fim. então acho que a questão do filme era: vale a pena ainda ser jedi? SERÁ que todo mundo vai ser ruim? e a resposta foi que vai ter gente ruim mesmo, tipo o Kylo. mas vai ter gente boa, tipo a Rey).

E a Rey? Cadê? Ela desaparece. A gente não vê levantar, sair. Depois deduz que o Chewbacca resgatou ela. E isso é a segunda coisa: ELA APARECE DO NADA NO MEIO DA BATALHA. NO BANCO DE TRÁS. SE DIVERTINDO.

Se você tira a Rey dali e coloca qualquer personagem - qualquer um - figurante 3, não faz a menor diferença.

Só agora escrevendo isso lembrei que ela provavelmente decidiu ir pra lá porque viu o povo sendo atacado na telinha e foi ajudar. Mas ela chega no meio da batalha, e aí consegue desviar umas naves. Sendo que o Kylo nem tem como saber que é ela na nave?? Só deduz, sei lá?? É a força??? E no próprio diálogo eles focam na nave: ATAQUE AQUELA NAVE. COM TUDO. E o Finn: "caramba, realmente odeiam aquela nave."

Ou seja, se fosse a Rey ali ou qualquer um, parece que daria no mesmo. O próprio Chewbacca sozinho. ISSO QUE A REY É A PROTAGONISTA, NA BATALHA FINAL. SUBSTITUÍVEL. 

Aí pra fechar com chave de ouro: o Luke. A gente tem aquela cena bonitinha em que o Yoda aparece e eles colocam fogo no passado (de certo modo, em paralelo com o Kylo matando o chefão lá pra dar fim na velharia e começar uma nova ordem - repara que é o Luke que tá fazendo paralelo com o Kylo, não a protagonista. Ok.), e o Yoda fala que o Luke tem outras coisas a ensinar pra Rey e o motiva a fazer algo. 

A cereja no topo do bolo: O LUKE NEM VÊ A CARA DA REY DEPOIS DISSO 

PORRAAAAAAAAAAAAAA

Isso é buraco descarado no filme, não dá nem pra justificar. O Yoda fala pra o Luke ir lá ensinar a lição final pra Rey, que ainda tem chance, que fracasso é importante, E ELES NEM SE ENCONTRAM. (só se o fracasso é a lição já ensinada, mas ainda ruim demais)

Mas o que acontecem sem falta é o Luke encontrar o Kylo - porque, no fim das contas, esse filme sempre foi sobre os dois.

E a Rey? Desaparecida. Passeando com a nave por aí. Fazendo passeio turístico. É a batalha final do filme, e a protagonista está desaparecida.

Imagina Harry Potter. Harry sai pra dar uma volta de vassoura ENQUANTO O RONY MATA O BASILISCO. É isso que a gente assistiu. Na nossa cara. Por mais que eu queira amar a Rey e Star Wars esteja fazendo progresso, pra isso não tem perdão. Eu já tô em choque desde Rogue One quando fizeram o Cassian salvar a Jyn na hora H, e Os Últimos Jedi é um show aberto de como mesmo quando uma mulher é heroína, eles arranjam um jeito de colocar homem sendo protagonista na nossa cara.

Em uma batalha final linda, épica. Capas voando. Poses simbólicas. No telão gigante do IMAX com o pico do que a tecnologia e técnica de cinema tem pra oferecer. Dois homens em um duelo num filme da Rey protagonista, quando eu não sei nem onde ela tá.

Tem noção?

Acabei de me dar conta de que não publiquei aqui no ConversaCult meu texto sobre autonomia da mulher que eu enviei no Batdrama (minha newsletter, se inscreva aqui!! HUAH), mas vou postar qualquer hora.

O ponto é que esse é o momento que a gente vê que o filme não é sobre a Rey - se ainda tivesse dúvidas.

E aí ela encontra o povo e levita umas pedrinhas - não que ela tenha aprendido isso com o Luke, ou em qualquer lugar nesse filme.

E quer ver como a narrativa dela é ruim?

A maioria dos personagens tem um arco, por menor que seja, fechado.

O Poe no início tem aquela batalha e recebe a questão: você vai ser impulsivo na sede pra destruir o inimigo, ou se importar em proteger a vida dos seus amigos? (aka. ser um bom líder) Ele decide ser impulsivo, mas na batalha final conclui a própria jornada ordenando o povo pra voltar. Ou seja, teve o arco de desenvolvimento.

O Kylo no início tem a chance de apertar o botão e atirar na mãe. Questão: de qual lado da força ele realmente tá? Ele termina o filme apertando o "botão" ao liderar o ataque. 

O Finn no início tem a questão: fugir pra salvar a própria pele ou ficar e lutar? no início ele decide fugir. no fim ele decide lutar, indo em direção ao canhão pra sacrificar a própria vida. (apesar de que o próprio Finn foi meio apagado nesse filme. Parece que, junto com jogar a Rey de lado, eles jogaram a história dele também)

A Rose é um pouco diferente: no início, ela perde a irmã. No final ela passou por uma jornada boa o bastante em que ela é capaz de salvar as pessoas que importam pra ela. (basicamente a história do protagonista de Pacific Rim) 

O Luke no início tem a questão: tu vai ficar aí isolado fugindo ou vai fazer algo? No fim, ele decide fazer algo.

(acho que esses são os únicos com arco) (a Leia não tem nenhum, nem a Holdo. Elas tão ali pra ser maravilhosa e servir à narrativa do Poe - e Luke, no caso da Leia)

E aí nos resta a Rey... qual é a questão que ela recebe no início? O que ela conclui no final? Essa é uma pergunta real, se você souber, me responda, porque eu não consigo ver nada tão claro e rápido quanto eu consegui achar pra todos esses outros de cabeça. É o que? Ela vai ser uma Jedi? E no final ela conclui que é mesmo a Jedi boa? Porque a questão é introduzida na primeira (ou primeiras) cenas do personagem, e o máximo que tem lá é ela pedindo pra o Luke ajudar a entender o papel dela na história. E no final ela vai lá pra ajudar o povo. 

Até mesmo a questão dela com o Kylo - o que ela aprendeu sobre isso? Que tem gente que é ruim mesmo? Que não pode acreditar nos outros? Eu não sei, e tudo o que a gente pode fazer é imaginar porque depois da batalha dela com o Kylo não tem conclusão pra ela. É como se ele nem existisse mais no mundo dela. 

Gastaram o filme todo nisso e nada



Ainda tem um outro detalhe no filme que é eles mostrarem cada personagem na introdução por ordem de expectativa/importância. Começa com o Poe, aí Finn, aí Rey/Luke sei lá mais o que e só no final a gente vê o Kylo. 

Então no geral, não tô satisfeita e acho que eles falharam muito em dar o protagonismo pra Rey, que é a porra da protagonista. Eles parecem que não sabem o que fazem com ela. Ela tá quase descolada da história principal, às vezes parece que existe em outro universo. Tudo o que ela fez foi servir de bengala pra o Luke e o Kylo. E eu amo muito a Rey, mas meu amor é construído nos farelos que eles jogam pra ela enquanto os homens da história (e agora a Rose, graças a deus) fazem alguma coisa. Até se a gente se forçar a engolir que esse Star Wars é pra contar a história do mundo e de vários personagens, nem Vingadores com 923823 personagens deixa um Vingador fora da batalha final. Acho que a Rey não ter muito o que fazer na batalha final mostra o quanto ela tá descolada do resto da narrativa principal, onde ela é, no máximo, uma varinha mágica.

E o problema não é nem aquilo de "tem homem e mulher" e o público, machista, fica valorizando o homem quando a mulher tá ali. Nem as críticas que a Rey sofreu em Despertar da Força, por ser uma heroína como qualquer homem - sobre o que eu escrevi aqui na época. Isso é questão do pessoal criando o filme de não dar espaço, nem valor e nem desenvolver a história da protagonista. 

Tanta possibilidade. Tanto potencial. E aí... *respira fundo*





ALGUNS COMENTÁRIOS ALEATÓRIOS SOBRE STAR WARS: OS ÚLTIMOS JEDI 
(só porque eu não vou fazer resenha)

QUE PORRA É AQUELA DAQUELE MENININHO NO FINAL? PRECISAVA SER UM GAROTO LOIRO BRANCO DE OLHO AZUL? Sério... Depois disso tudo...

A Rose foi maravilhosa e ela com o Finn naquele planeta cassino foi uma coisa ótima atrás da outra. Ela salva muito o filme. E até o beijo que ela dá no Finn - eu achei forçado (heteronormatividade yey), mas 1) acho que isso é uma prova daquele meu post sobre minorias não terem tropes. Se fosse um cara e uma garota branca, assim que eles tivessem se encontrado já teria sido lido como ROMANCE com letras garrafais. Eles tem toda uma história juntos e parece "do nada"? 2) DEIXA ELES SEREM FELIZES, SOBREVIVEREM E SE AMAREM NO MEIO DA BATALHA. A GENTE PRECISA DE HISTÓRIAS ASSIM. E tão lindo o Finn cuidando dela.

Sdds Finn e Rey. 

Carrie Fisher. 

A Holdo é maravilhosa. Seria uma pena se eles não tivessem cota de mulher por filme e ela não tivesse morrido. (apesar de ter sido fuderoso)

Antes mesmo de assistir o filme, vi umas discussões sobre Star Wars não passar no teste Beschdel. Eu não me certifiquei, apesar de parecer bem plausível já que todas as mulheres estão isoladas em núcleos com homens, e as poucos que se encontram falam sobre homem. Holdo/Leia (fala do Poe) e a Leia/Rey (fala do Luke). Apesar do teste Beschdel não medir tudo, indica demais o tratamento de mulher. Tipo, se fizesse um teste Beschdel ao contrário (dois homens conversando sobre algo que não é mulher), Star Wars: Os Últimos Jedi teria passado várias vezes. Na própria abertura do filme, quando o Poe fala com o Hux, e logo depois quando o Poe fala com o Finn, e o Finn falando com aquele cara decodificador que eles encontram, e o Luke falando com o Kylo, e o chefão falando com o Kylo, e o Kylo falando com o Hux - essas são só as poucas vezes que eu lembrei agora, de cabeça.

Acho que isso indica como a gente tem a maioria de homens carregando os núcleos, e as mulheres são mais acessórios dando suporte ao redor deles, de modo que mesmo quando tem a chance delas se encontrarem além do próprio núcleo, é pra carregar uma mensagem envolvendo os homens. (é tão difícil ver mulher como pessoa que mesmo quando colocam mais mulher num filme, eles conseguem fazer um síndrome de smurfette por cada núcleo) 

Ao mesmo tempo, pra o padrão de Hollywood, Star Wars ainda é um passo a frente - cara, a gente tá vendo a Rey (mulher branca) carregar a história, corta pra uma história paralela com um homem latino interessante tendo duas mães de referência e aprendendo a liderar com elas, aí corta e tem uma garota vietnamita/americana com um garoto negro galopando em um animal alienígena em uma rebelião. 

Star Wars parece também ter aprendido a arte de colocar figurante diversos. Um monte de mulher e pessoas diferentes. Na batalha final, conforme as naves foram sendo explodidas, aparecia rosto de homem branco atrás de rosto de homem branco. (são uns detalhes, coisa inútil que passa despercebida, mas mesmo nesses detalhes a gente via os double standard e a forma como homem branco era priorizado)

E no geral o filme foi divertido de assistir. Acho que eles se perderam muito no final, mas o início foi legal. 

Também acho importante que apesar de toda escrita ruim, não vão poder tirar da gente a Rey como protagonista. A Rose ali, em destaque. E é isso. Espero que no próximo façam melhor. 

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3 comentários

  1. 1) Já era sabido que esse filme seria mais sobre Luke e Kylo do que qualquer coisa; o grande questionamento gerado pelo primeiro filme é "por que Kylo fez o que fez, o que LUKE fez para que ele matasse os outros padawans e fugisse?" não eram perguntas simples que Luke fosse dar a Rey e ao público as respostas assim que alguém perguntasse. Quer uma prova visual? A imagem de Luke SEMPRE é MAIOR que a dos outros personagens nos pôsteres do filme, preconizando a importância e o protagonismo dele. As pessoas queriam Luke, queriam ver mais do grande herói da franquia.
    2) Rey não deixou o Finn simplesmente por deixar. Ela tinha que fazê-lo, ou então não descobriria porque raios ela tinha aquelas sensações com a Força, a razão daquela visão em TFA. Seria burrice ela ficar velando o leito dele enquanto ele está em coma, quando poderia estar indo atrás de respostas pra si mesma.
    3) A relação entre Rey e Kylo é mais complexa de se analisar, mas se olhar do ponto de vista de que a Força é quem conecta e mostra a Rey que a saída dela pode não ser somente matá-lo (afinal, ela é boa demais pra isso) fica mais fácil entender porque ela quer salvar ele, porque ela é boa e inocente pra acreditar no lado da luz que existe nele ainda.
    4) Sim, ela foi tentada pelo Lado Sombrio. Ela caiu na tal caverna e o que o "espelho" mostrou a ela? Deixe o passado morrer, olhe pra frente. Que é basicamente o que Kylo Ren diz a ela quando se encontram pessoalmente. Mas ela entendeu o que aquilo queria dizer, não era só deixar pra trás aquelas coisas e viver feliz com o novo coleguinha governando a galáxia, era dizer sim pro Lado Sombrio.
    Parece que ela foi de lugar nenhum pra região nula, mas eu vi treinamento, tentação, esperança de redenção e a Rey mais uma vez mostrando que é tipicamente uma heroína.
    5) Não, não gostei daquele final onde ela sai da nave do Líder Supremo e de repente aparece na batalha final pra levantar as pedra pro povo escapar, ficou no sense.
    6) "Mestre Yoda diz pro Luke ensinar a ela o que realmente tem de aprender e eles nunca mais se encontram", sim, mas quantas vezes Luke repete que nunca mais vai botar os pés fora da ilha? Ele é um homem de princípios, mulher. E sempre existem os fantasmas da Força, aparecendo e oferecendo sua sabedoria aos aprendizes. Ele sempre pode voltar e terminar as lições.
    Entendo teus pontos de vista, afinal. Tudo nesse filme são pontos de vista.
    Minha numeração não segue a ordem do post, no fim das contas. São só algumas coisas que eu achei por bem comentar.

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  2. "Já era sabido que esse filme seria mais sobre Luke e Kylo"
    você tem a Rey, o Finn, o Poe, a Rose e até a Leia, e a decisão é fazer (mais) um filme centrado no Luke/Kylo?

    Pois é.

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  3. Finn e Rose mais forçado impossível. E fizeram tanta promo pra personagem LGBTQ+ sendo que quem só assistiu o filme e não acompanhou as outras mídias presume que ela é hétero.

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