Camren colaborador

Dentro de grupos minoritários também há muita disseminação de preconceito

17.10.17Colaboradores ConversaCult


Já escrevi sobre Faberry (Quinn Fabray e Rachel Berry) inúmeras vezes, seja no Facebook – isto é, em discussões em grupos e páginas de Glee, pois eu diria que embora muito amado, é também um ship muito odiado – ou em conversas com meus amigos (ou desconhecidos, :v) no WhatsApp, nas quais eu expliquei o que eu vejo entre as duas. E no caso dos amigos, que transformei em Gleeks, também é meio que um processo obrigatório ouvir minhas teorias inacabáveis sobre esse “não-casal” maravilhoso. Contudo, algo que acompanha a fandom Faberry é Achele, que é o ship das atrizes, Dianna Agron e Lea Michele, popularmente conhecidas como “amores da minha vida”.

Achele (assim como Faberry) é, sem dúvida nenhuma, um dos meus grandes otp’s e, não nego, embora não seja nada confirmado e eu sempre terei essa triste dúvida, ao menos para mim foi real, eu vi algo ali, meu “gaydar” apitou, as teorias fizeram sentido e, sinceramente? É algo que eu quero acreditar. Que me faz bem. Entretanto, algo que acho importante falar é sobre quando shippar pessoas reais deixa de ser apenas algo normal, para se tornar uma obsessão... E sobre reconhecer os erros do fandom na qual você está inserido.


Outro ship que eu A-M-O é Camren (Camila Cabello e Lauren Jauregui), relacionamento que as cantoras negam ter acontecido, mas que mais uma vez eu acredito que tenha sido real. Porém, um problema que vejo nas Camren shippers e, na verdade, nos fãs de Fifth Harmony de maneira geral, uma mania de se intrometerem demais na vida das meninas. Digo, eu e minha amiga, Clara, somos Harmonizers, gostamos demais tanto das músicas, quanto das meninas e, sim, de Camren. E de fato, a Lauren graças a sua personalidade forte, muitas vezes acaba sendo muito ríspida com os fãs e já chegou até a bloqueá-los, sempre que se metem demais na vida dela. Às vezes, realmente eu acho que ela está exagerando, até porque ela não é nenhuma deusa, é humana e comete erros... Muitas dessas vezes, nós fãs apenas estamos preocupados, ou discordamos de uma atitude dela, como o suposto relacionamento dela com o rapper Ty Dolla $ign, que já fez várias declarações machistas e homofóbicas, enquanto ela é uma mulher bissexual assumida e feminista ativa nas redes sociais.

Então, sim, nós estranhamos... Porém, existem pessoas que de fato ultrapassam os limites, dizem coisas muito babacas. Algum tempo atrás, Lauren se enfureceu com as Camren shippers por ficarem o tempo inteiro marcando ela em coisas de Camren e desrespeitando a Lucy, ex-namorada da Lauren. Eu não sou #TeamLaucy e definitivamente, não são só as Camren shippers que fazem isso, porém, nesse caso específico, ela se irritou e twittou generalizando, dizendo que shippa-la com a Camila é desrespeitoso, uma ilusão, etc... Lauren é muito explosiva e concordo, foi errado generalizar, mas compreensível. Porque embora eu interprete essa necessidade dela de negar um envolvimento com a Camila tão veementemente uma evidência de que foi real (pois, se nunca aconteceu, qual a necessidade desse stress todo, tendo em vista que ela é assumidamente bi?), é uma invasão de privacidade. E é também insensibilidade. Vi uma Camren shipper americana respondê-la nesse tweet com algo mais ou menos assim: “Você passou dois anos fodendo a Camila e agora vem negá-la”. Tipo... WTF?! Cadê o respeito? Não é porque é uma artista que não tem sentimentos, poxa.


Voltando para Achele agora, o problema da fandom (ao menos o que eu vejo) não é tanto esse, até porque a Dianna é pouquíssimo ativa nas redes sociais e a Lea usa muito como marketing e postou recentemente uma foto antiga – mas que ninguém tinha visto – delas, na época que estava fazendo alguns shows pelos EUA, para mostrar o local onde havia escondido os ingressos. Ou seja, elas não têm tanto isso de negar, elas simplesmente não falam sobre. De qualquer forma, o que tenho reparado em um grupo específico de Achele shippers, que acreditam que elas ainda estão juntas em um relacionamento estável (o que eu não vejo como realista, para mim a opção mais otimista é que elas vez ou outra transam quando vão para NYC e ficam no mesmo hotel, sim, eu chequei kkkk), é que  boa parte das garotas do fandom fazem declarações como:

“Mais mulher que esse marido da Dianna não tem.”
“Esse aí gosta da outra fruta, hein...”.
“Dianna é o macho da relação”.

E, bem, isso me deixa bastante desconfortável. Eu entendo que a intenção delas é continuar sustentando a crença de que as duas continuam juntas até hoje, mas poxa, fazem de uma forma tão problemática... O fato de acharem que o cara gosta de homens não invalida, necessariamente, o casamento dele com a Dianna. Existe bissexualidade! Ele pode muito bem esconder que gosta de homens, mas continuar gostando de mulheres... E mais, essa mentalidade de que “ele é uma moça” tão nociva. Porque, primeiro, ser afeminado não é um defeito, tampouco ser mulher... E elas, mulheres lésbicas zombando ele ser “feminino”. Não faz o menor sentido!  Não somente não faz sentido, como reproduz coisas como homofobia, bifobia, machismo até... Dentro de uma comunidade de um ship de duas mulheres, pensamentos assim não deveriam ter espaço.

"Só porque você é livre pra dizer o que quer, não quer dizer que sempre deva o fazer."

A pior parte, é que Camren e Achele não são os únicos exemplos, são somente aqueles com os quais tenho maior contato. Certamente, é algo para se preocupar. Mesmo dentro desses grupos nos quais eu deveria me sentir inclusa, pertencente, afinal, shippo tanto quanto qualquer um ali, eu apenas não consigo ver atitudes assim e não me sentir mal, incomodada... Falta muita empatia, dentro do próprio meio LGBTTQ+, o que eu já sabia, mas não é somente em aspectos políticos que existem essas questões. Como se já não fosse ruim o bastante, não há abertura para discordância, ou para problematização... Parece que essas pessoas tem ativado um mecanismo de autodefesa com discursos prontos e não aceitam reavaliar onde estão errando.  É triste, porque a cada dia vejo que minha vida seria bem mais fácil se eu não “pensasse demais”, se não fosse a “problematizadora chata”... Mas infelizmente, não é algo que consigo fazer.


***

Sobre a autoraIsabela Duarte, a maior Gleek e Faberry shipper que você respeita. Estou no nono ano do fundamental e faço quinze anos agora em Maio. Meu grande e verdadeiro amor é a escrita e, depois dela, vêm meus passatempos favoritos, que são assistir séries e ouvir música. Militante de causas sociais e a problematizadora do rolê. Gorda e felizmente bi. Tenho os melhores amigos do mundo inteiro e se discordar é porque não os conhece.

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