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Mulher-Maravilha e o tipo de heroísmo que a gente precisa

5.6.17João Pedro Gomes


VAMOS PARAR UM INSTANTE PRA RESPIRAR DE ALÍVIO.

Alívio. Foi minha sensação ao sair desse filme na sexta-feira. Os riscos eram altos: primeira super-heroína dessa nova geração nos cinemas (por acaso, minha favorita), numa empresa que tá com a reputação manchada, com muita gente esperando pra detonar por qualquer motivo… E mesmo assim, mantive a fé e faltei em aula importante só pra assistir.

E ELA CHEGA COMO?


Esse post tá cheio de SPOILERS, porque preciso discutir esse filme em detalhes pra expressar o que esse coração de fã tá sentindo. Vambora.

Primeiro de tudo, e o mais incrível desse filme, é o quão importante foi ter uma história mais focada no desenvolvimento do protagonista do que na trama em si. Acho que a DC não fazia isso muito bem desde Homem de Aço (e olha que lá ainda teve uns tropeços). Mas sabe quando você tem marcados na memória aqueles momentos que definem a personagem e sua jornada? Mulher-Maravilha é cheio deles.

E isso até ajuda a cobrir algumas rachaduras do desenrolar do filme. Tem alguns elementos que poderiam ter sido mais impactantes, como os vilões, que são unanimemente considerados uns degraus abaixo da qualidade que o restante do filme alcançou. Mas sabe que nem me importei tanto? Quando você ama tanto uma personagem e vê que tudo que ela passa é real e significativo, e que até o elenco de apoio, que teve pouco tempo de cena, deu uma contribuição enorme na construção dela... os antagonistas viram acessório. 

Na verdade, o maior antagonista do filme é impecável em sua missão. E não falo do general Ludendorff, da Dra. Veneno, e nem mesmo de Ares. Falo da guerra. Da própria natureza corrompível do ser humano. Da escala de cinza para alguém que só conhecia o preto e o branco. 

Se esse filme é tão impactante, é por ser universal e mostrar uma jornada pela qual todo mundo já passou: a de descobrir que o mundo não é um lugar tão simples quanto as histórias de ninar e a proteção do lar fizeram a gente acreditar um dia.


Entramos aí num outro ponto, que eu vi comentado no Judão e pareceu mais que pertinente: o da atualização da figura do herói grego na Mulher-Maravilha:


"Uma coisa que os semideuses têm em comum, sejam eles filhos de Zeus ou não, no entanto, é que quase todos são heróis, uma figura que estava praticamente no topo dos mitos gregos. Eles eram a representação ideal do que todo ser humano queria/deveria querer ser. Era alguém acima da mediocridade. Alguém SUPER. Mais do que perfeitos fisicamente, eles eram reconhecidos por serem corajosos, obstinados, nobres."


Sem entrar no mérito dos motivos pra ter uns pés atrás com a origem de semideusa da Mulher-Maravilha, acho mais válido a gente focar que, FINALMENTE, temos uma figura mitológica heróica do mesmo calibre de Héracles, Teseu, Jasão, Perseu e afins na cultura popular. E fizeram isso sem deixar a paternidade de Zeus, que nem aparece no filme enquanto personagem, sobrepor a criação que a mãe, Hipólita, e a tia, Antíope, deram a ela.

Teve a espada e o escudo e o laço roubados, mas a gente vê que ela vira a heroína meeeesmo quando coloca a tiara da tia, presente da mãe :)

Mais do que isso, e o que mais me fascina, é que Diana não atualiza o herói clássico só por ser mulher, mas também por estar num mundo moderno. Não há mais valores absolutos pra guiarem a todos: bem e mal se misturam, princípios são relativizados… até o tempo, que é totalmente cíclico na ilha de Themycira, “começa a passar” quando ela sai de seu mundo isolado. Sabe o relógio que Steve dá pra ela? Pois bem, tem mais conotações do que parece, e metaforiza o próprio mundo urgente, intenso e findável dos homens.

Mas ainda que a jornada dela no filme tenha a ver com descobrir que a complexidade do ser humano não é lá a coisa mais fácil de lidar, ela permanece uma heroína exemplar por acreditar nos bons valores acima de tudo. “Eu acredito no amor” é uma frase que eu NUNCA esperaria ver num filme de super-herói, não sem algum fundo de ironia, mas a Mulher-Maravilha veio, falou e foi mais do que lindo: foi necessário.



Era fácil, num mundo clássico, distinguir de que lado ficar. O da nação, do exército, daqueles em perigo, dos deuses. Apesar de coragem e habilidade, conflito existencial não era um problema muito presente, e os valores inabaláveis eram mantidos até o último instante, fosse ele na glória ou na morte. Mas num momento como o nosso, em que tudo se mostra instável e nada parece seguro, onde tantas tensões políticas fariam uma terceira guerra mundial não ser lá grande surpresa, ver uma heroína como a Mulher-Maravilha foi uma nova forma de enxergar o mundo. Porque se alguém como Diana, que viu pessoas que conhecia há centúrias morrer num único dia, viu todas as dores e horrores da guerra destruir vidas de perto, e viu homicídio em massa destruir uma vila que ela acabara de salvar, consegue manter a esperança… por que nós não conseguiríamos? 

Neste mundo fragmentado em tantos níveis, Mulher-Maravilha trouxe uma forma de heroísmo que retoma um pouco da integridade de valores que nunca deveriam ter sido quebrados: amor, compaixão, respeito ao próximo e otimismo.

Porque sim, ainda somos capazes de viver de acordo com eles. Mesmo que o mundo dê na nossa cara todo dia e tente nos dizer que tais princípios são uma fraqueza, e não uma virtude.

Quando isso acontecer novamente, eu vou lembrar da cena da trincheira, me convencer do contrário e seguir em frente com a cabeça erguida.


***

- Temos que manter nossa missão. Essa é a Terra de Ninguém, Diana. Quer dizer que nenhum homem pode atravessá-la. Esse confronto esteve aqui por quase um ano e eles mal conseguiram avançar um centímetro, porque do outro lado tem um monte de alemães apontando armas pra cada pedacinho desse lugar. Isso não é algo que você pode atravessar. É impossível.
- Então nós não fazemos nada?
- Não, nós estamos fazendo algo! Nós estamos. Nós só... Nós só não podemos salvar todo mundo nessa guerra. Não é pra isso que estamos aqui.
- Não. Mas é isso o que eu vou fazer.


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