13 Reasons Why assédio

13 Reasons Why e a adolescência.

10.5.17João Paulo Albuquerque


Depois de ter feito o texto de 13 Reasons Why: Vale a Pena?, eu olhei para a tela e deixei esse – que esta sendo postado agora – para outro dia, e então os dias passaram e eu só me lembro da semana de aula e de provas intermináveis. Uma dessas provas me deu a minha maior chance, era a de Artes, e pensando nisso de suicídio e estupro, a questão bônus que servia para dar sugestões para as aulas, coisas que nós gostaríamos de fazer, e como eu havia conversado com uma das chapas do grêmio já sobre a campanha deles de anti-bullying para incluir uma campanha sobre suicídio, eu coloquei que uma sugestão era fazermos uma campanha de conscientização de estupro e suicídio.

Estou falando disso porque é importante mostrar para as pessoas que elas são importantes, é preciso ter iniciativa dentro da escola e mostrar que elas importam, sim. É preciso unir professores e alunos para algo comum e necessário. E se você puder fazer isso, principalmente com ajuda e apoio de outras pessoas, isso vai estar tornando o ambiente colegial melhor e com menos bullying.



Claro que essa ideia que me surgiu de conscientização do suicídio e estupro foi graças à 13 Reasons Why. E apesar de ser tenso, é necessário falar de tudo que a série está querendo passar para nós todos. Mas antes de começar, devo falar que muitos psicólogos estão falando para quem tem Depressão, Ansiedade, Indícios Suicidas, entre outros, não veja a série, inclusive a própria Netflix avisa em certos episódios que pode haver um gatilho, deixando explícito que não é uma boa ideia assistir se você estiver em uma dessas condições. 

Caso você não saiba o que de fato significa a palavra, eu explico, conscientização vem de consciência, é o fazer algo com consciência. E isso é o que a série, baseada no livro de Jay Asher, tenta fazer, e faz de modo mais esplêndido e real que eu pensei que nunca veria. 

Sendo assim, bem-vindo ao texto '13 Reasons Why e a Adolescência'. 

O texto terá tópicos, todos em um único texto – que depois de uma semana após começar (talvez um pouco menos) eu consegui formular em como abordar – e haverá spoilers:

  • Ser Adolescente; 
  • Bullying; 
  • Sexualização das mulheres; 
  • Estupro e Assédio; 
  • Machismo e Bro Code; 
  • Falta de diálogo e percepção dos adultos; 
  • Suicídio; 
  • Não seja um porquê.
Eu não recomendo que leia esse texto se achar que os assuntos possam ser muitos pesados para você processar no momento, e eu não te culpo, primeiro sua saúde mental, depois todo o resto.





Vou começar pelos erros na série, que foram não ter colocado modos de prevenção (número para ligar para ajuda) em todos os episódios e somente colocado nos 4 últimos. E segundo os psicólogos: romantizaram o suicídio e falta de estudo sobre efeitos que poderiam ter sido causados nos jovens. 

Concordo no quesito de modos de prevenção, mas discordo na falta de estudo e romantizaram. Eu não sou especialista e estou longe de chegar a ser, mas não houve momento algum que mostraram que o suicídio era algo romântico ou de boa, ou que deixaram de mostrar que se importavam ou que não haviam estudado para fazer aquela série. 

E falo isso pela minha visão, visão de amigos e pessoas que vi em discussões pelas redes sociais, inclusive pessoas com alguns sintomas de Pânico, Ansiedade e Depressão, até com histórico de tentativa de Suicídio que decidiram assistir. Porém, não sei se esses mesmos psicólogos que tanto reclamam sabem, mas aumentou quase em 50% as ligações pedindo ajuda no número 141 aqui no Brasil. 

Inclusive, após perguntar para a Natália Carvalho se ela permitia que eu divulgasse o comentário dela num post de uma page do face e a mesma ter permitido, eu trouxe para cá: 

"Falando como pessoa que lida com depressão e síndrome do pânico desde os 13 anos (tenho hoje 27, ou seja, passei mais da metade da vida lutando com isso): a série não romantiza o suicídio. A cena da morte da Hannah foi fria e de revirar o estômago e os pais a encontrando mostrou a quem pensa em fazer isso a dor que deixa para trás. 

A série teve vários gatilhos pra mim, momentos em que eu precisei pausar porque era pesado demais continuar vendo e ouvindo aquilo. Mas PRECISAMOS falar sobre estupro. PRECISAMOS falar sobre suicídio. Para que as pessoas que passam por isso e/ou pensam em acabar com tudo saibam que não estão sozinhas. 

Mas, principalmente, precisamos falar sobre isso para que quem não passa por nada disso possa entender que não temos a mínima ideia do que se passa na mente e na vida das outras pessoas. Muitas vezes quem está do nosso lado precisa de ajuda e nós não notamos. E nossas ações têm consequências. Para nós e para os outros."


Sinceramente, quando comecei, meu medo foi: "E se um dia eu chegar a considerar isso?". Por mais que sua autoestima seja alta e você tenha muito bom-humor, essa pergunta pode surgir logo nos primeiros episódios e te fazer se pôr no lugar dos personagens, afinal somos adolescentes. E das pessoas na vida real também, caso não tenha o feito antes. Mas na minha cabeça eu fico: "Se as pessoas precisam de uma série para se pôr no lugar do próximo, o quão problemático isso é?"

A série fala de tanta coisa que acontece na nossa adolescência e que a gente às vezes não tem noção do impacto na vida de tanta gente. E como isso vai afetar no futuro. 

Vamos começar por depressão, afinal, quem olhou cada sinal e percebeu cada mudança após um pedaço de Hannah fosse destruído, via que ela estava entrando em depressão, o auge da mesma foi quando ela foi estuprada por Bryce, você vê no olhar dela, já não há mais vida, não há mais nada. 

E se não sabem, adolescentes nos últimos anos são os que mais vêm sofrendo dessa doença. E isso é uma questão de saúde pública, o que infelizmente, o governo não vem tentando conscientizar e se politizar nesse quesito. Depressão é sério, é algo que tem que ser falado e discutido, é preciso haver explicação em sala de aula. 



Slut-shaming, sexualização, tentativa de estupro, estupro, assédio e perseguição. Tudo cultura do machismo. Tudo que maioria dos homens cis reclamam falando que é "mi, mi, mi" e que isso não existe. E eu não sei como responder civilizadamente, POIS COMO QUE O MACHISMO NÃO EXISTE?! CADA DOIS MINUTOS CINCO MULHERES SÃO ESPANCADAS NO BRASIL, COM DENÚNCIAS SOMENTE A CADA 7 MINUTOS, 5 MINUTOS E UMA MULHER ESTUPRADA, E VOCÊS ME VÊM COM ESSA QUE NÃO EXISTE? 

Esses cinco tópicos foram abordados, respectivamente e em ordem de como coloquei acima, há os nomes: Justin Foley (inclua mais a maioria dos meninos), maioria dos garotos da escola, Marcus Cooley, Bryce Walker, Zach Dempsey + Alex Standall e Tyler Down. 

O que ninguém entende é que aquilo é uma representação da realidade. Aquilo representa, esfrega na nossa cara, tudo que acontece diariamente, tudo que está acontecendo e que todos se negam a falar, tudo que todos tornam um tabu e tentam discutir somente embaixo de panos. E já tentaram vir com desculpa de que: "Nossa sociedade não está preparada para falar disso.". E EU COM ISSO?! GENTE, REALIDADE TÁ LIGANDO, TÁ ACONTECENDO, NÃO DÁ PRA APAGAR E VIVER SUAS VIDAS COM PANOS NOS OLHOS!


As notícias explodem para todos os lados quando se trata de machismo, recentemente teve o caso do Marcos expulso do BBB17 (a Globo não fez mais que obrigação), e a foto dos médicos fazendo apologia ao estupro. Sem falarmos do caso do assédio dentro da Globo, ou de quando famosos e mais famosos que agrediram ou estupraram admitem e ainda sim o mundo se curva diante deles. Não vamos contar os casos de feminicídios. 

O problema é que com Machismo vem o Bro Code. 

Bro Code é a parceria, código dos homens cis, o sentimento de gratidão entre os caras. E isso é explícito na série, quando mesmo que Justin falasse para Jessica que não estava tentando justificar, ele estava tentando o fazer. E isso é algo que ultrapassa o limite de gratidão, apoiando o cara em algo cruel, horrível e mostrando que essa cumplicidade entre caras pode ser muito problemático. Tudo bem ser grato, apoiar o cara, mas não é tudo bem, não é nada bem apoiar o cara numa atitude questionável.


"Isso tem que melhorar.".

E essa coisa de se cegar perante às coisas é que acaba nos comprometendo, nós adolescentes, saímos prejudicados por causa das escolhas dos adultos. Por causa de Roma e da Igreja Católica que nós, pessoas não-héteros e mulheres, não-binários ou trans, fomos e somos crucificados, pela escolha deles de se cegar, pagamos pelos erros e ignorâncias deles. 

Pode-se perceber que isso que a série tenta mostrar, que ações tem consequência e que o que aconteceu no passado, as decisões, afetam nós nos dias de hoje, porém eles não podem nos afetar nas decisões e escolhas pessoais atualmente. 

Por mais que nossos responsáveis nos protejam, eles não podem tomar nossas decisões, quem escolhe sua carreira é você, o que usa e como se comporta, é algo seu. O problema de escolher uma profissão é que Eles (escola e Estado) nos prendem dentro de salas por anos e nos falam como pensar e agir, para de repente jogar essa bomba de que temos que escolher uma profissão, inclusive isso é dito pela Hannah numa das gravações de suas fitas. 

O problema de se cegar perante às coisas é que os adultos fazem isso com uma frequência assustadora. Às vezes eles esquecem que foram adolescentes e que já passaram pelo que nós passamos, em modos diferentes, mas ainda sim. Falta diálogo dos pais para com seus filhos, mesmo que eles sejam teimosos e de início se recusem conversar, tem que haver uma balança para o equilíbrio de espaço pessoal para o 'vamos conversar, eu quero saber do seu dia', ou conversar sobre outras coisas, ou como seu filho se sente. Porém, isso não quer dizer que todos os pais ou adultos não irão te escutar... Sabe aquele seu professor que você gosta e ele gosta de você? Você pode contar com ele. E isso é algo que a série erra em demonstrar, como se todos os adultos não fossem te escutar quando nem sempre é assim. Claro que alguns não entendem, mas isso não generaliza, não quer dizer que todos serão assim.

Claro que nós, adolescentes, temos que sair da defensiva de vez em quando

Agora o que me entristece, é ver familiares meus - que sofrem de Depressão ou Pânico - compartilhando imagens falando que o que falta nessa geração é porrada - falando desse jogo da Baleia Azul -, ou um vídeo de uma mulher (acho que todo mundo conhece, ela corrige o português e fica criticando quem fala errado) em que ela diz que tá muito difícil atualmente, porque você não pode invadir a privacidade do seu filho, e que quando ela era criança, a mãe dela queria saber até sobre os sonhos dela, e se mentisse apanhava. 

Agora, vamos analisar. Se você, desde que seu filho nasce, procura entender mais do nosso mundo como um todo, entendendo a diversidade dele e o que são os Transtornos Mentais, ou somente se mostra presente e busca sempre esclarecer e conversar com seu filho, se mostrar receptivo e que sempre estará do lado da criança; então a criança vai confiar em você e não vai se sentir intimidado de te contar algo.

Suicídio não é brincadeira, não é 'querer chamar atenção', não é frescura ou falta de Deus. Suicídio é algo sério, e se está pensando na possibilidade de fazer isso, saiba que você é importante sim, você é uma pessoa forte – independente do que decida – e estamos aqui para te escutar, se precisar. 

Tenho vários exemplos de pessoas que enfrentam isso, e sei que não é fácil e como falta compreensão dos outros. Tive uma leitora que se suicidou ano passado, e eu não consegui a ajudar, na época eu não entendia tanto de suicídio e não tinha base para pesquisas sobre, mas espero hoje conseguir melhorar no que for possível através da internet, escola e convivência. 

Se quiser conversar, estamos aqui.

Se estiver considerando, procure de preferência um psicólogo e/ou terapeuta. Se quiser conversar com alguém anônimo, só ligar nesse número: 141 ou acesse o site deles: http://www.cvv.org.br/

E você que fica rindo dos outros, zombando, praticando bullying ou sendo um babaca - conheço alguns -, pare. Não seja um porquê, respeite as pessoas, procure se informar e ser empático.


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