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Turbantes, apropriação cultural e a desculpa perfeita pra ser racista

20.2.17Dana Martins


Esses dias eu estava no twitter quando uma porção de textos sobre apropriação cultural começaram a brotar. Eu pensei, "que bom, eu estava mesmo querendo aprender sobre isso, ainda mais em português escrito por uma mulher negra!!!!", e continuei meu caminho até me dar conta de que o aparecimento dos textos não era um fato aleatório - algo tinha acontecido.

O quê? Uma garota branca aí postou umas fotos com turbante falando "vai ter branca usando turbante, sim!" e umas coisas mais, só que no caso, a garota tinha câncer. Daí a discussão se espalhou pela internet com gente branca falando "que absurdo, como as pessoas vão falar pra pobre garota branca com câncer que ela não pode fazer isso!!! ela tá com câncer!!! essas mulheres negras não tem compaixão!!!"

Enquanto isso, no mundo real, as tais mulheres negras reforçando que apropriação cultural não é uma questão de ir atrás de indivíduos, mas de um sistema:

"Então, minha opinião é que vocês focam no inimigo errado, insistem em colocar uma questão sistêmica como problema individual e em pôr as coisas na linha do “quem pode” e do “quem não pode”. 
A permissão a sociedade já deu. 
Capitalizados e com seu significado cultural original alterado ou esquecido os elementos já estão. 
A gente tem é que aprender a atacar quando vemos os discursos oficiais endossando isso, a reclamar quando a banalização disso permanece sendo vendida nos bailes da Vogue."



Esse foi o primeiro texto que eu li - e nem é sobre a questão do turbante, então eu nem tinha pensado sobre isso. É um texto bem simples que mostra como pra o sistema a cultura minoritária é ruim, sem valor, até se apropriar pra vender - aí de repente é aceitável, valorizado, desejado.

Fico pensando, passei a minha vida toda e não lembro de momento nenhum ver gente branca usando turbante - no máximo em fantasias racistas. Vi gente usando pochete, calça de cintura alta, baixa e alta outra vez - tenho quase certeza de que teve um momento de que piercing no umbigo era algo que um monte de garota adolescente queria fazer, era radical (na época a palavra "radical" também era legal). Mas não lembro de todo mundo querendo usar turbante. Se eu visse na rua (nem lembro de ver), era estranho. Se eu aparecesse com isso em casa ninguém ia achar que eu tava fazendo algo sério, muito menos estiloso.

Aí as mulheres negras foram se empoderando, buscando a liberdade de usar o cabelo natural, a se dar suporte mútuo através da internet e fortalecer uma própria cultura - que inclui os turbantes - e aí...



“A cultura negra é popular, mas as pessoas negras, não” 



O que não por acaso, é praticamente a mesma afirmação da autora Sarah Kuhn, no texto que eu li hoje sobre representatividade asiática nos EUA: We Were All Trini: Searching for Asian American Mirrors in SF/F

"Nós [indústria] gostamos das suas Coisas, mas não o seu rosto"

Quando duas pessoas completamente diferentes, de etnias diferentes, em países diferentes, falando sobre assuntos diferentes e que tocam a apropriação cultural, falam a mesma coisa... Bem.


E de onde que vem esse desejo tão grande de usar turbante agora?

Por que quando é vendido, quando é celebrado, quando é estampado na capa da revista; por que nesses casos o foco não é na mulher negra?

Eu não vou responder, eu acho que o objetivo, como muito do que eu faço no ConversaCult, é questionar.

Por que as pessoas [brancas] não param pra conversar a sério sobre apropriação, pra ler o textos escritos pelas pessoas negras - que tiveram sua cultura apropriada - sobre isso?

Por que o primeiro impulso é rebater pra negar, tentar dizer que a "minoria" faz igual também, com alguns argumentos que não tem nem fundamento?


*clica pra ler a thread/sequência de tweets

Por que a garota com câncer não diz "eu queria usar porque isso me faz bem" e, em vez disso, ela fala "vai ter mulher branca usando sim"? Como é que esse negócio vira um "grito de guerra" de gente branca contra mulheres negras? Por que você acha que isso acontece?


Mas o que me trouxe aqui foi uma terceira questão, uma lembrança.

Há muito, muito tempo, em outro universo, eu encontrei um post que ironizava a necessidade das pessoas brancas de encontrar a Exceção Ideal™, a permissão pra ser racista.

Era algo tipo "Mas e se eu tiver morrendo e for o meu último desejo, eu posso chamar as pessoas negras de Tal Palavra?" 

Não é nem piada, a pergunta hipotética era essa mesma, se eu tiver morrendo e for meu último desejo será que eu posso ou vão querer me chamar de racista também????

E se você for reparar, volta e meia que uma minoria afirma algo, vai ter alguém procurando a hipótese absurda pra tentar discordar.

Esses dias eu vi com feminismo.

O post: Feminismo não me ensinou a odiar homens, ele me ensinou que eu não preciso priorizar homens em vez de mulheres e acabou que pra muitas pessoas, isso é considerado ódio. 
Pessoa aleatória: Então se você tivesse presa com um homem e uma mulher e um soldado não-binário chegasse com uma arma falando pra matar um dos dois, quem você mataria?

[supostamente, se a pessoa escolhesse matar o homem seria a prova de que ela, de fato, odeia homens]

Se você tá lendo isso com essa cara:



Você tá certo. Isso não faz o menor sentido, o objetivo (inconsciente) é criar uma armadilhazinha pra acusar a minoria de estar sendo "opressora" de alguma forma e tira o foco do assunto.

É absurdo. E ao mesmo tempo, volta e meia surge alguém com "então se eu tiver na lua e cair alienígenas, eu vou poder [ser homofóbico, racista, machista]?" e se a resposta for negativa, a minoria vira o vilão.

Aí que a garota do câncer surge. A vítima ideal. A desculpa perfeita.

"jovem com câncer" vs. "ativista negra"


O objetivo da narrativa da garota do câncer, não é falar se ela pode usar, é pegar algo que é Aceitavelmente Terrível pra desvalidar a importância da discussão sobre apropriação cultural. Mais do que isso, é pintar as mulheres negras como as vilãs crueis da história, "Como é que elas se importam com isso quando a garota está com câncer?!!!" (o que eu ainda acho que se soma a um estereótipo racista sobre mulheres negras).

Eu escrevo isso pensando "alguém vai ler e me chamar de cruel por dizer isso sobre uma garota que está com câncer" - e simples assim, a discussão sobre apropriação sai dos trilhos, é centralizada na "crueldade feita com a garota". E eu ainda tenho o privilégio branco.

Aliás, esse "tem alguém pior" é outras das respostas padrões pra desvalidar voz de minorias. "Como você pode se importar com um turbante quando tem criança passando fome?!!!!" Como se a pessoa tivesse fazendo alguma coisa pelos dois, né, e como se não fosse possível ter mais de uma preocupação na vida.

Essa conversa de "tem algo pior, como você pode se importar com X", nada mais é do que uma forma de dizer "isso não é importante o bastante [pra mim]." E eu vou deixar aqui: você não decide o que é importante pra outra pessoa. Ainda mais em uma questão que envolve minorias, porque a gente já vive em um contexto que diz que minorias não são importantes o bastante.

Importante pra mídia: mulher branca querendo usar turbante sem se sentir culpada
Não é importante pra mídia: qualquer coisa que afete a mulher negra

Não se engane. A discussão não é pra aprender sobre apropriação cultural ou ver pontos de vistas, é pra vilanizar as mulheres negras e justificar branco fazendo o que quiser com cultura dos outros.

"E, no entanto, temos que observar calados, sob a pena de tentarem nos calar à força, como a bestas raivosas que vocês acham que nós somos – não é ação, é reação! –, vocês meterem os pés nas nossas portas, invadirem nossos turbantes com gritos de “VaiTerBrancaDeTurbanteSim!. Para vocês é morada provisória, das quais vocês entram e saem conforme dita a moda e a vontade, porque vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude. Nós não temos, porque nossa existência está cravada na pele, nossa morada está acoplada às costas, à maneira dos caracóis. Nossa casa, para você, é fetiche, é exotismo, é acessório, é fantasia. A nossa casa." 


Mas enfim, a questão da garota com câncer é a desculpa ideal pra ser racista. É a situação hipotética extrema. É o fetiche branco realizado: Ser racista e gritar que é vítima em um campo que é difícil argumentar contra sem parecer um vilão. Quer dizer, minorias já são vistas como vilões agressivos em qualquer discussão com pessoas privilegiadas, mas a garota com turbante com câncer é a desculpa ideal pra destrilhar a discussão sobre apropriação e, mais uma vez, vilanizar as mulheres negras.

Eu não me excluo dessa discussão, sendo branca, e se tiver problema no texto, por favor aponte. Provavelmente tem, porque mesmo com boa intenção eu não sou livre de racismo internalizado.

É por isso que você deve ler os textos sobre o caso do turbante e apropriação cultural escritos pelas mulheres negras:

obs: Eu nem sei o que aconteceu no fim no caso do turbante. Eu ouvi falar que descobriram que a garota tava mentindo?? Ela não tem câncer?? Pior ainda. Mas vamos aproveitar a leva de textos sobre apropriação cultural pra pensar sobre o assunto. Se você conhece mais (escrito por pessoas negras ou minorias), recomende!

minha newsletter!!! yeeey

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1 comentários

  1. Na moral, esse mundo tá cheio de mimimi
    Cada um veste o que quer!
    Se a branca quer usar turbante e a negra quer usar alguma coisa que seria remetido a cultura branca, dane-se! O problema desse mundo é que as pessoas gastam muito tempo da vida delas tomando conta da vida dos outros. Se parassem com essa palhaçada de "ela é branca", "ela é negra" e fossemos pro discurso de "elas são seres humanos", metade dos problemas do mundo já estariam resolvidos.
    Eu tava lendo um artigo onde a garota dizia a mesma coisa com apropriação da cultura alheia em fantasias de carnaval!!! Ah, faça me um favor...
    Esse mundo tá muito chato.

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