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Será que a faculdade é para todos mesmo?

10.11.16Taiany Araújo


Uma das frases que me dá mais trecos ao ouvir é: "Hoje em dia só não faz faculdade quem não quer". Isso é tão equivocado e até maldoso que nem sei, a vontade é sacudir a cabeça de quem fala isso para ver se entrar alguma noção de realidade. E em época de Enem/vestibular, esse chorume em forma de palavras é cada vez mais derramado.

Eu não sei se você também acredita que QUALQUER UM pode fazer faculdade (nem é que não possa, é mais uma questão de não ser tão fácil assim), no entanto, espero tentar me fazer compreender sobre como essa ideia não é tão viável como se pensa.

Não é bem assim não
De uns anos pra cá realmente o ingresso em faculdades ficou mais fácil, isso não quer dizer que agora aquele que não entrou numa instituição de ensino superior não fez isso porque não quis estudar, porque não tem ambição ou força de vontade. Você tem ideia do custo que é estudar numa universidade, seja pública ou particular?

No meu ano de vestibular, eu ganhei bolsa de 100% para estudar numa instituição privada, e fui. Entretanto, se minha família não tivesse condições financeiras para me dar suporte, eu teria que desistir porque eu gastava quase 200 reais de passagem por mês, fora alimentação (e não pensem que eu almoçava na rua não, levava barrinhas de cereal para não passar mal de fome e porque comer todo dia na rua estava fora do meu orçamento) e os materiais pedidos pelos professores (durante meus cinco anos na faculdade, consegui comprar apenas 2 livros, no qual um deles custava uns 200 reais. Eu me virava baixando na internet quando tinha pra baixar, pegando na biblioteca da universidade quando tinha - nem sempre - e estudando sem livros quando não havia o que fazer. Além disso, o que gastava com xerox não tava no gibi). É, tudo isso só foi possível porque eu era uma pessoa privilegiada.

Só de lembrar dá canseira
Parece fácil falar para alguém trabalhar num horário, e estudar no outro. Muita gente faz. Mas será que é realmente fácil? Ir para a faculdade não é só assistir meia dúzia de aulas e ir embora, no meu curso, por exemplo, eram uns 100 números de visitas técnicas, vários relatórios, seminários, fora os estágios que a partir do 6º período não dava mais para enrolar (até o 6º tinha como fazer num tempo de aula, depois era prática profissional mesmo). O pessoal que trabalhava seguiam 3 direções: ou eles saiam do trabalho, ou se embolavam e conseguiam ir descontando as horas no trabalho, aí trabalhavam num dia, outro iam pra faculdade (era o típico jeitinho brasileiro), ou iam adiando as matérias infinitamente até conseguirem por fim concluírem o curso.

Essa questão de trabalhar e estudar se complica ainda mais quando falamos de instituições públicas, já que muitas vezes os cursos são em horários integrais. Como diabos você vai conseguir trabalhar? Às vezes você tem aula 8 da manhã e a próxima só 13 da tarde. É complicado. Não é que seja impossível, já que muitas pessoas conseguem fazer, mas tomar essas pessoas como regra é uma maldade com aqueles que não conseguem ou não podem fazer a mesma coisa.



O problema da frase “Hoje em dia só não faz faculdade quem não quer” é que ela supõe que todos têm as mesmas oportunidades, disponibilidade de tempo, apoio familiar, condições financeiras. Que todos tiveram ou um bom ensino ou tempo para estudar por si mesmos, que aquele que não está numa faculdade é menos do que o que está. Isso é tão injusto. É preciso pensar um pouquinho sobre oportunidades, realidade social e econômica, é preciso ser um pouquinho sensível para com o outro.

Apesar das diversas oportunidades de ingresso ao ensino superior, ainda não é fácil seguir por esse caminho. Ainda há muitas questões a serem levantadas que eu nem citei nesse post, questões que talvez nem eu mesma nem saiba. Ainda vivemos numa desigualdade que enaltece as exceções como regras e despreza aquele que sem nenhum apoio, não consegue superar as expectativas injustas e irreais que vendem.

Matérias como essa só reforçam a ideia de que VOCÊ SÓ PRECISA SE ESFORÇAR, OLHA SÓ
Eu não acredito que a faculdade seja uma realidade para todos, até gostaria, mas a meu ver, não é. Esse discurso só difunde um sentimento de incapacidade e desvalor que não agrega em nada. Só machuca.

E você, o que pensa sobre isso? Concorda comigo? Discorda?

Deixe um comentário e vamos pensar sobre isso.

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3 comentários

  1. Bem interessante a reflexão. Antes de entrar na faculdade eu pensava coisas parecidas com o que você pontuou no post. Depois de 5 anos, aprendi que faculdade pública não é tudo isso, que nem sempre estudar em uma faculdade particular é sinônimo de fracasso, e que fazer faculdade talvez não seja imprescindível, dependendo do que você quer da vida.

    Entrar não é fácil, porque o vestibular não necessariamente escolhe quem tem mais conhecimento, e sim quem foi mais bem treinado. A escola em que estudei era bastante focada em treinar o aluno para o vestibular. E não estou negando o meu mérito e nem o de qualquer outra pessoa que estudou em escolas tão boas quanto, porque mesmo matriculado em uma escola dessas, você não passa se não se esforçar. Mas hoje eu vejo que talvez pessoas que tenham se esforçado tanto quanto não passaram por não terem tido a oportunidade de estudar em uma boa escola.

    E, como você bem pontuou, passar no vestibular é uma coisa, ser capaz de bancar o curso inteiro é outra bem diferente. Quem estuda em período de integral consegue pegar bolsa de IC, mas paga bem pouco e na maioria das vezes é para quem mora na mesma cidade em que estuda. Em relação aos livros, os professores do meu curso sempre tiveram o cuidado de escolher uma bibliografia que estivesse disponível na biblioteca, ou então deixavam textos no Xérox. Nos primeiros anos gastei bastante com isso, mas depois parei de tirar porque tinha vezes que acabava não lendo e, como boa procrastinadora que sou, me virava com os slides nos últimos 30 min antes da prova.

    Confesso que a maioria dos meus problemas na faculdade são porque eu percebi que o curso que estou fazendo não é o que eu realmente queria. E o que eu realmente quero ser é escritora, então passei anos presa nos preconceitos da minha família (principalmente minha avó), que não consegue ver a escrita como mais do que um hobby, que deve imediatamente ser deixado de lado em prol de algo mais "importante" quando o tempo escasseia. Foi só nesses últimos dois anos que comecei a frequentar grupos voltados ao tema e percebi que a escrita pode sim ser uma profissão, e aí já estava no 4º ano (atualmente estou no 5º), e aí "não vale a pena largar o curso". Tenho certeza que, se fosse um curso de escrita criativa, sacrificar uma noite de sono ou outra para correr atrás do fretado não ia ser um grande desafio.

    Mas depois de 5 anos (e depois de me desiludir um pouco com a profissão), mudei bastante o meu pensamento sobre quem opta por não fazer faculdade e sobre quem quer fazer, mas não tem como. (E também acho bem danosa essa ideia de que fazer faculdade deve ser o sonho de todos; existem várias profissões honestas e que até pagam bem que não exigem faculdade, mas você é preguiçoso se optar por seguir uma delas).

    Enfim, desculpe pelo textão, e obrigada pela reflexão (com toda essa história de ENEM, andei pensando nisso esses dias, então o texto veio em boa hora!)

    Abraço!

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    Respostas
    1. Laís você tocou em vários pontos que também são os meus. Estou com o desejo de escrever sobre faculdade publica e privada, uma vez que eu tinha esse preconceito, mas ao estudar em uma faculdade privada percebi como ele e irreal e que me foi infundido ao longo da minha vida como estudante.
      Quanto ao preconceito da sua família contra a escrita como profissão, infelizmente isso é tão comum, e acho que as artes em geral tem esse estigma. Talvez realmente seja mais difícil se estabelecer como um profissional no meu das artes, mas não significa que a pessoa vai morrer de fome, além disso, até a questão se é mais difícil mesmo é questionável, há tanta gente ai sem conseguir se firmar na sua profissão. Acho que essa dificuldade envolve muito mais coisas do que o curso escolhido.
      E sobre as outras opções ao invés da faculdade, acho tão valido, dependendo do que a pessoa quer fazer, é até a melhor opção, além disso, cursos profissionalizantes ou técnicos tem uma duração melhor, é bom pra testar se é aquilo q vc realmente quer por exemplo.

      Adorei sua resposta, com suas reflexões e que elas possam gerar outras e mais outras.
      Abrs.

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  2. Nossa, esse texto! <3 Estou passando por essa fase atualmente e não tem um dia que não me pergunto porque ainda insisto. Tudo é tão difícil... Mas daí que eu convivo com pessoas que estão numa situação pior que a minha e isso me dá forças pra continuar. Mas é triste ver alunos que pais bancam totalmente não tendo preocupação, matando aula e às vezes conseguindo nota maiores que a sua... Eu ia escrever um textão, mas é tanta coisa...

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