A História Secreta CCLivros

As Duas Histórias Secretas (ou: daqueles livros que se transformam no meio do caminho)

16.10.16João Pedro Gomes



DOIS RECADOS:
- Este post é continuação do diário de leitura número 1 do maravilhoso A História Secreta, da Donna Tartt. Nenhum dos dois tem spoilers!;
- Leia ouvindo esta playlist aqui embaixo, que também é maravilhosa e tudo que tenho ouvido nos últimos meses, pra pegar o clima do livro;
- Ah, a fanart sensacional aí em cima é daqui :)


E então A História Secreta foi de drama universitário para thriller policial. Se eu gostei dessa mudança? Não sei. Mas que foi foi intenso, FOI.

Como eu tinha dito antes, o livro é repartido em duas partes quase do mesmo tamanho, divididas com o antes e o depois do assassinato que entregam no prólogo. E o ponto de divisão foi uma das coisas mais legais e diferentes que eu já li.

Talvez seja uma consequência de este ser um livro com pessoas ruins protagonizando. Olha que estranho: eu acho que nunca vi uma história com pessoas planejando um assassinato??? Pessoas assim, comuns, que estudam e tem uma vida próxima da minha. Que não sejam bandidos tradicionais com os quais você não consegue simpatizar, sabe?

Provavelmente por isso essa parte I (ou Livro I, como é chamado) seja tãaao boa. A gente vai, como quem não sabe de nada, conhecendo Richard, o protagonista, e vendo ele tentando entrar no grupo de grego… vendo ele se virar do avesso pra esconder suas condições financeiras e não ser rejeitado… sofrendo, mesmo assim, uma agressãozinha verbal aqui e uma exclusãozinha ali… E quando vê, BOOM:  

REVIRAVOLTAS, MORTE, LIVRO I ACABANDO

Olhando em retrocesso, o que sinto é que fui todo manipulado até esse momento. Distraído com aquilo que tanto apelou pra mim no Richard, que é aquela linha tênue entre pertencer ao grupo e se pertencer, entre remoldar a própria imagem pra algo diferente para que o outro goste mais do formato, e não percebi o que estava por vir.

E, no final, essa primeira parte parece ter sido a grande motivação das grandes tragédias que acontecem. Richard se transforma em algo tão diferente pelo grupo que a sensação de “absurdoooo” da morte no prólogo não tá mais lá. É como se o destino do grupo de estudos todo já estivesse traçado desde que ele chega ali, os encontra na biblioteca pela primeira vez e decide que vai fazer parte daquilo.  

E não sei como, mas esse livro fez matar alguém que não cometeu nenhum crime tradicional algo totalmente plausível.

São muitos sentimentos conflituosos, eu não sei de mais nada.

Uma pausa pra retomar a sanidade: no fim desse post eu tentei fazer um fancast pra um possível filme desse livro e falhei miseravelmente. O único que consegui pensar foi o Nick Robinson como Richard, o protagonista. Sim, aquele mesmo, que faz o adolescente chato de Jurassic Park. O Richard é bem do tipo “sou bom demais para esse mundo” no comecinho, quando ainda tá na sua cidadezinha,  e “quero ser bom o suficiente para esse mundo” quando se muda pra Vermont, o que combina com essa aura mesquinha/blasé/meio chapada/inocente dos papéis que ele faz. E ele é um bom ator. Vejam The Kings of Summer! Ansel Elgort também seria uma boa, e o Joseph Gordon Levitt se fosse mais jovem.

Mas enfim. A tal pessoa do grupo morreu e, basicamente, agora estão lidando com as consequências do assassinato. COMO É MARAVILHOSO ver um livro onde os efeitos colaterais da ação “principal” não são trabalhadas só depois do clímax. Ou, em outras palavras, ver um livro que tem dois clímaxes, e que as coisas não saem correndo pra se desenvolver.

Talvez nesse começo do Livro II eu desejasse um pouquinho mais de momentos simples entre o grupo pra fazer a narrativa tão bonita quanto no começo. Por agirem mais na linha policial agora, a tensão entre serem pegos ou saírem impunes é o que prevalece, e não mais os diálogos tão filosóficos das aulas de grego e jantares na casa de campo. 

Estarei aqui aguardando mais desses momentos e esperando que A História Secreta não vire A História Genérica.

Mas mesmo se virar, à essa altura eu já posso dizer com segurança que vou continuar amando o livro mesmo assim. Ele já desconstruiu o bastante do que eu tomava por garantido, e mais do que ansiar pela continuidade do tom único, eu só quero ver a que fim tudo isso vai levar.


Um salve à Cia das Letras novamente, porque agradecer nunca é demais :)

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