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Every Heart A Doorway e o que acontece depois que você sai de Nárnia

17.10.16Dana Martins


Uma história sobre uma escola interna para crianças que foram expulsas de seus portais de fantasia - tipo, as crianças que foram para lugares tipo Nárnia, Terra do Nunca e País das Maravilhas, mas agora voltaram e não conseguem se adaptar às suas vidas normais, vão parar  nessa escola.

Prós: Tem uma garota assexual e garoto trans. Contras: só tem em inglês. 

Mês da visibilidade assexual, e eu decidi ler o livro com uma protagonista assexual! Na verdade, não. Foi mais ou menos por acidente, ou acaso. Eu queria algo bom pra ler. Na verdade, precisava.

Sério, esse ano eu quase não li livros, e nada tem me animado muito, e eu estou em um vácuo de histórias boas. Ainda quero assistir Luke Cage e The Get Down no Netflix, mas qualquer coisa que necessite mais do que uma internet pré-histórica está fora do limites. (sério, a S3 de Black Sails vai acabar chegando no Netflix antes desse download terminar) Enfim. 

No gif: Cena de Jessica Jones que mostra Luke Cage rolando os olhos depois que um cara quebra uma garrafa na cabeça dele, enquanto o cara atrás olha pra garrafa confuso com o que aconteceu
eu toda vez que lembro que não posso usar netflix

Eu sobrevivi assistindo filmes, mas chegou um momento que eu precisava de... literatura. 

Não sei o que é isso, nunca tinha sentido isso, mas eu queria uma história escrita, e aí começa a busca pela minha pilhazinha de livros "pra ler", só que nada parecia muito bom. Os dois mais interessantes, "Meia-noite e Vinte" e "Eleanor & Park", que eu cheguei até a ler uma parte, estou com medo que sejam deprimentes e acabem comigo. Porque também tem isso, histórias tem "climas", e na minha estante de espera só parece ter 3 tipos de climas: os deprimentes, os inspiradores e os tediosos. Eu queria algo novo.

Aí fui eu lá pedir pra o Google, "pf me indica um livro" (aka. BOOK YA REC TUMBLR) e apareceu uma lista.


Encontrei "Every Heart A Doorway" da Seanan McGuire logo nessa primeira que eu li, onde era a última indicação e nem a minha escolha inicial. ("Radio Silence" é o que eu ia acabar lendo. Mais por falta de opção, mas gosto do nome) (E "My Year Zero" porque adorei o título, fica me chamando atenção toda hora, e toda vez que eu releio a sinopse espero que dessa vez vá ser algo interessante. Não é.) Já o resumo de "Every Heart A Doorway" me pegou de cara, e o fato de que é uma "novela" (nem tão grande quanto um livro, nem tão pequeno quanto um conto) me pareceu o ideal para uma maratona literária no meio da madrugada. 

Caso você não tenha lido no início (primeiro parágrafo), aqui o resumo de Every Heart a Doorway:

"Uma história sobre uma escola interna para crianças que foram expulsas de seus portais de fantasia - tipo, as crianças que foram para lugares tipo Nárnia, Terra do Nunca e País das Maravilhas, mas agora voltaram e não conseguem se adaptar às suas vidas normais, vão parar  nessa escola."

A IDEIA NÃO É MARAVILHOSA? Pensa só que tu faz uma viagem dessas sinistras de ficção. Cai num buraco e fala com cartas de baralho, voa até um lugar mágico com fadas ou conversa com deuses do Olimpo e aí, puff, você está preso outra vez na sua realidade. E esperam que você viva... normalmente. 

Não dá certo, e é por isso que a Eleanor Wayward criou essa escola interna, onde esses adolescentes expulsos de todo tipo de mundo mágico acabam se juntando para tentar se adaptar novamente ao mundo real... e aceitar que não vão voltar. 

E A HISTÓRIA INTEIRA ME DEIXA TÃO ANIMADA. Não é algo tipo adolescente cool tipo X-Men, ou como Percy Jackson. Até porque os jovens em si não têm poderes, o que os torna diferentes é que eles viveram em outras realidades. O clima da história pende um pouco mais pra o bizarro, histórias de terror antigas como Frankenstein (mencionado, inclusive) e Família Addams (também mencionado). Mas também tem os mundos de fadas, e arco-íris. Enfim.

Não assisti nem li O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, mas acho
que o clima meio bizarro é parecido. Só que ninguém é bizarro em si, só os mundos...
acho que esses são os 2 principais tipo de "clima" dos mundos que as pessoas visitaram


Na maior parte do tempo, eles dividem os mundos entre "Alta Lógica" e "Sem Noção", mas a maioria das pessoas visitaram lugares diferentes, com regras próprias. Tipo reino das aranhas, ou terra dos mortos, ou mundo dos esqueletos, ou qualquer porcaria com fada. Fico imaginando que o mundo de a Hora da Aventura seria o tipo de coisa que você encontraria numa dessas portas.

E a história vai acompanhando a personagem, Nancy, chegando nessa escola, conhecendo alguns dos outros estudantes, tentando se adaptar a realidade e tentando descobrir seu lugar no mundo (ou... seu mundo no meio de todos esses universos). Pelo menos até uma série de assassinatos ameaçar a escola. 

Eu tô feliz até agora por ter lido isso. Eu adorei todos os personagens, e queria mais deles, por mais bizarro que eles sejam. (no sentido literal mesmo, alguns vieram de universos que parecem histórias de terror, e eles eram felizes lá) 



E, depois de escrever esse post, eu me dei conta de como ao longo da história a Seanan McGuire (autora) desenvolve duas coisas: Uma é caracterização. Mesmo que os personagens em si sejam pessoas normais, o mundo que eles viveram é tão ligado a personalidade deles, e a quem eles se transformaram depois de viver lá, que eles quase parecem sobrenaturais. Isso é muito legal, ainda mais quando você compara com história onde as pessoas têm mesmo "poderes extraordinários". Aqui você sente esse efeito, sem fugir dos padrões da nossa realidade. 

O segundo é que uma das razões de existir essa escola Wayward é encontrar pessoas que passam o mesmo que você. É feito de maneira tão natural, que dá pra passar despercebido. Aos poucos forma um grupo de personagens e eles se divertem com suas semelhanças - e estranhezas.

Every Hear A Doorway - Seanan McGuire

Sobre representatividade, além da protagonista assexual, tem um garoto trans, e tudo isso é muito bem costurado na história. Não é aquilo de "sexualidade não importa" (ou gênero, no caso do garoto trans) - isso importa, e molda os personagens em quem eles acabam sendo, e no dia a dia deles, mas ao mesmo tempo é natural e está ali só como uma parte da história. Aliás, acaba tendo tudo a ver com o tema, que é existir um mundo do qual você pertence, e ao mesmo tempo ser excluído dele. 

Adorei o conceito. Adorei os personagens. Em uma história curta deu pra ficar com medo, triste, feliz e torcer pra tudo dar certo pra os bichinhos. O enigma dos assassinatos me prendeu. E eu lutei contra o sono pra terminar, e terminar foi tão bom que no fim eu não tinha mais sono nenhum.

(e por isso tô aqui escrevendo isso PORQUE EU GOSTEI MUITO E MUNDO TEM QUE SABER E EU QUERO MAIS E LER HISTÓRIAS É MUITO AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH)



Não tenho nada mais pra falar, que não seja spoiler. Mas queria ficar falando sobre "Every Heart A Doorway", da Seanan McGuire, por um tempão. Vou encerrar só dizendo que me lembrou a um conto que o João escreveu uma vez, e isso foi bem legal. 

E menção honrosa à Jack, porque não dava estaria completo se eu não fizesse isso.

Sdds assistir histórias com personagens interessantes (e diversos) assim em filme/série. "Sdds" no sentido de "nunca vi isso, mas já sinto falta" porque né

(além disso, a autora Seanan McGuire é bissexual e encontrei uns textos dela falando sobre representatividade que são muito bons)



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Em outras notícias, o Batdrama agora é enviado por email, só se inscrever nesse link. Falo sobre vida, cultura pop, representatividade e escrita. São coisas mais passageiras que não cabem num post, mas são legais de compartilhar. 

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6 comentários

  1. nunca li nada com personagens ace, preciso. 

    (poremmmm eu estou absolutamente apaixonada por uma série que tem um protagonista demisexual e a autora é ace/aro)

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    Respostas
    1. all for the game, da nora sakavic. a série é mais conhecida pelo nome do primeiro livro, the foxhole court (que é de graça na amazon!!!!! e os dois outros livros são 1 obama cada!!!!)

      é sobre o time de exy da universidade de palmetto. exy é tipo lacrosse, mas em um campo do tamanho de um campo de futebol e tão violento quanto hokey na grama (ultima vez que eu fiquei tão animada com um esporte fictício tinham 3 bolas e vassouras envolvidas). o técnico só convida (chama pro time?? escala?? nao falo esportes desculpa) atletas que precisam de segundas/terceiras/quartas/etc chances pro time, e todos os personagens são absolutamente fantasticos. esse ano dei muita sorte com livros que falam sobre saúde mental e all for the game ganha destaque (porem pesadissimos os livros, a lista de gatilhos é extensa http://cabeswaterlovesthem.tumblr.com/post/142112202373/detailed-list-of-trigger-warnings-for-the-foxhole )

      pra mim foi uma coisa meio magica ler uma historia narrada por um personagem demi, fiquei o livro todo gritando por dentro "entendo isso!!!!!!!!!!!! eu vivo isso!!!!!!!!! eu me sinto assim!!!!!!!!! wow filho voce realmente nao entende atração eu sei como é!!!!!!!!!!"

      e a autora é super bacana e interage horrores com os leitores e posta muito conteúdo adicional no tumblr http://korakos.tumblr.com/

      ENFIM eu sei que voce só perguntou o nome mas eu li essa série 3 vezes em um mes e já sonhei!!! com ela varias vezes e minha namorada provavelmente nao aguenta mais me ouvir falando sobre mas eu não tou nem perto de cansar dessa historia. porém quando eu consegui pensar em alguma coisa que não seja all for the game vou querer ler every heart a doorway.

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  2. [parte 1]
    Ohayou, Dana-chan :) Eu não sei se se lembra de mim, mas sou a tal Anilyan que uma vez comentou com um textão num dos seus posts e de repente desapareceu. Até no meu bloguinho dei sumiço - por causa da escola e tretas assim - mas não consegui manter-me afastada daqui por muito tempo. QUEM É QUE EU QUERO ENGANAR? EU VIVO PELOS SEUS POSTS!... Não, agora a sério, eu passo a semana todinha a esperar pelos seus batdramas no email e parece que em todos eles a minha lista de coisas para ver/ler/assistir/jogar/ouvir aumenta (eu não dedico mt tempo a séries nem filmes, mas adoro as suas recomendações de músicas e anotei todas as últimas indicações literárias). O tumblr é soberbo para recomendar coisas com boa representatividade. Aliás, foi graças a ele que eu consegui descobrir este site» http://doublediamond.net/aow/tagpage.php «(o link leva ao motor de busca), dedicado exclusivamente a trazer livros de fantasia/sci-fi com personagens lgbt+, poc, etc... foco em lgbt+. Ele é realmente bem extenso e apesar de só listar livros em inglês, e ser impossível lê-los todos, enche-me de alegria saber que AFINAL HÁ TANTOS LIVROS EM QUE APARECEMOS! Sei lá, até cerca de um ano eu juraria que não havia praticamente livros nenhuns com personagens lgbt+, quando havia eram sempre gays ou lésbicas que terminavam morrendo ou bissexuais indecisos ou assim. Raios. Estereótipos. Não é que haja uma representação errada de algo - pois não há maneiras erradas de se "ser" algo - mas a frequência com que certas imagens são passadas modelam a cabeça de toda a população. Exatamente como nessa quote de Chimamanda Ngozi Adichie que você fez no post de OITNB, aliás, vou já pesquisar mais sobre essa pessoinha sábia que passei a admirar profundamente.

    Eu nem sei mais o que queria dizer, porque eu era para ter escrito mesmo depois do almoço mas tive de estudar primeiro. Mas antes que esqueça, eu queria pedir um contacto seu - eu não tenho twitter, que sei que é o que você usa mais, então queria saber se não tem, sei lá, facebook, tumblr ou um email que pudesse passar para irmos mantendo contacto. É que eu sinto mesmo, mesmo necessidade de falar com você! Sempre que você escreve, parece que está a transcrever os meus próprios pensamentos, e numa fase em que eu não tenho tido tempo para "desabafar" e escrever eu mesma - sei lá, dantes o meu blog servia um pouco para isso - ver que há pelo menos alguém a projetar todas as ideias que tenho para o mundo ver faz-me quase sentir que não estou a abafar pensamento nenhum. Faz-me sentir realizada. Bah, eu não tenho jeito para esta tagarelisse, mas eu sei que se não fosse por você eu NUNCA, NUNCA teria sido capaz de me entranhar tanto com este assunto imprescindível que é a representatividade, e eu conheci o seu blog graças a Korra - numa fase em que Korrasami ser canon foi o passo final para eu admitir para mim mesma que era bissexual, e andava à procura de análises do ship e do significado do mesmo - e por sua vez eu só consegui aceitar esse final devidamente porque antes disso tinha visto/lido o mangá/lido os livros de No.6, que é a história que mais me marcou até hoje. Aliás, recomendo imensamente, e apesar de eu saber que você não é grande fã de mangás, caso queira dar oportunidade, o mangá completo em inglês só pode ser achado aqui» http://no6-manga.tumblr.com/chapters «Nota: o anime não vale a pena, e as novels são mais ricas que o mangá, mas têm um inglês um pouco difícil e o ritmo não é tão bom, apesar de terem detalhes magníficos. Anyway, fica aí a recomendação.

    Falando em recomendações, e Korra, acho que um dos colaboradores de Korra anda a trabalhar num projeto chamado Voltron. Eu vi a primeira temporada e a segunda está prestes a sair (pelo trailer, será bem mais intensa que a primeira), então não resisti a recomendar, até porque as personagens são uns amores. Além disso, não há nenhuma personagem trans, mas dá para notar uma abordagem de algo próximo a um coming-out de pessoas trans na personagem de Pidge. Se vir, perceberá o que quero dizer. É algo rápido, mas bem feito.

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    Respostas
    1. [parte 2]
      *pausa para lanchar*
      AINDA, eu tinha de dizer a coisa mais ridícula de sempre, mas: quer partilhar um blog comigo? Certo, coisa estúpida de se dizer, mas SERIA UM SONHO! Eu neste momento não me tenho podido dedicar de todo ao meu blog principal, pois ele tem assim uns esquemas de organização bem rigorosos e, com a pressa com que ando ultimamente, não sou capaz de manter esses padrões. Então eu estava a pensar em criar algo bem mais desleixado só para despejar pensamentos, dividindo posts em partes, colocar imagens sem passar séculos a editá-las, sem a preocupação de responder fielmente aos comentários nem tendo um público grande, e onde eu pudesse misturar todos os tópicos que me viessem à cabeça. E como você já tem o hábito de misturar tudo, e as suas ideias são tão consistentes com as minhas (não que tenhamos de concordar sempre, claro), eu literalmente adoraria meter-me num projeto desses com você. Sem compromissos, nem nada. Só um novo espaço para divagar um pouco. Eu tive a ideia agora mesmo e NEM SEI O QUÊ QUE ME DEU! Portanto, se não tiver disponibilidade, não gostar do meu estilo de escrita (pode vê-lo em 4ever-sapo.blogpost.pt ) ou achar que o projeto não vale a pena, só rejeite. Por outro lado, se eu aceitar, fico ansiosa por falar de mais detalhes consigo ^^ Se quiser o meu facebook, é Anilyan Leounear, e o email é anilyanl@hotmail.com

      Já agora, e não se sinta obrigada a responder a esta pergunta, but: você é bissexual? Eu sou, e tenho notado que você faz imensos posts sobre o assunto e mesmo que percebe imenso dele, mas até agora não pensava em você como sendo. Se calhar porque eu nunca vi você a dizê-lo explicitamente, mas é possível que eu tenha perdido alguma coisa. Essa noção só me ocorreu quando, num batdrama algo recente, você escreveu esse parágrafo divino: "O problema disso é que isso é a visão distanciada, a visão do privilégio, que pode tratar isso como uma discussão intelectual em um debate informal com os amigos. Ou inimigos. Pras minorias, é realidade. É a vida delas. É a minha vida." - Esse "é a minha vida" não tem de indicar nada, mas agora comecei a ficar em dúvida, então se você fosse bi, seria a segunda blogueira que eu conheço que o é. E caso eu esteja enganada, gómen, mas se voce for hétero, então a maioria dos supostos aliados podia-se basear bem mais na sua atitude.

      Acho que é isso. Jaa! ;)

      Excluir

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