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O que é isso de neurodivergente/neuroatípico?

19.6.16Isabelle Fernandes


Não faço parte de coletivos feministas por uma série de razões, mas tenho muitas militantes no meu facebook, então o meu feed tem um textão atrás do outro, sobre os mais variados temas. Vez ou outra surge um termo que eu não sei o que caralhos quer dizer (como "tw" que mais tarde descobri ser "trigger warning" ou "aviso de gatilho emocional"), mas eis que vejo dois que me chamaram a atenção: neurodivergente/neuroatípico.

Ele me parecia ser ligado à alguma coisa psicológica e claro que eu como psicóloga fiquei encucada, mas acabei esquecendo de ir pesquisar. Até que esses dias algumas amigas se perguntaram a mesma coisa e foi a minha deixa pra correr atrás da informação. Pensando que com certeza tem muito mais gente por aí sem saber também, resolvi condensar tudo o que eu descobri nesse post.


Afinal, que negócio é esse?

O termo neurodivergência (ou neuroatipicidade ou neurodiversidade) surgiu lá nos 90 com uma socióloga australiana chamada Judy Singer, que era autista (mais precisamente ela foi diagnosticada com o que se chamava de Síndrome de Asperger) e defendia que o espectro autista não era uma doença, ou seja, algo que precise de uma cura, e sim uma forma diferenciada de funcionamento do cérebro. Com isso, ele seria mais uma diferença humana, uma característica inata que merece reconhecimento e respeito assim como etnias, orientações sexuais e etc.

A partir daí, muitas pessoas diagnosticadas com algum grau de autismo, principalmente a Síndrome de Asperger, e seus familiares passaram a lutar por essa causa, pelo reconhecimento da "cultura autista", que é visto por eles como algo normal, um jeito diferente de ser e ver o mundo. Só que claro, tem toda uma polêmica por trás disso. O autismo é uma condição MUITO diversa, uma amiga minha que faz pós nessa área me disse que é como se fosse uma doença única em cada um, o que reforça a ideia de neurodivergência. Porém, muitos pais de pessoas diagnosticadas com formas mais graves de autismo são contra a ideia de que ele seja "apenas" uma forma diferenciada de ser e defendem políticas públicas pra que seus filhos possam se desenvolver da melhor forma possível. A treta é bem mais embaixo, mas em resumo é isso.

Símbolo da neurodiversidade

Aqui no Brasil não se vê muito esse movimento, até porque a luta tá mais centrada no básico de assistência que ainda tá bem complicado de ter. Então o debate em torno da neurodivergência tem mais força mesmo no exterior.


Ok...e o que isso tem a ver com o movimento feminista?

Num primeiro momento, a neurodiversidade ganhou força quando o feminismo começou a ter expressão, possibilitando que as mães de filhos autistas pudessem contestar a visão psicanalista (e prevalente no assunto naquela época) de que a responsabilidade pela doença era delas, as mães.

Daí eu fui atrás desses termos no google, em sites voltados pro feminismo e tudo o mais, mas não achei nada explicando a apropriação deles (porque vamos combinar, é uma apropriação sim), o máximo que eu vi é uma citação de variados grupos dentro do feminismo, por exemplo: "ah, tem que se pensar também nas mulheres negras, mulheres lgbt+, mulheres neuroatípicas...". Então resolvi fazer uma pesquisa por palavras no facebook e encontrei uma postagem do serviço de psicologia aplicada de uma faculdade anunciando um evento e explicando o termo "neuroatipia":

"É uma nova terminologia que surgiu a partir de alguns movimentos sociais contra o capacitismo pra determinar pessoas que sofrem de algum tipo de transtorno psicológico, como por exemplo: borderline, ansiedade, depressão, etc..."

Com isso fica bem mais claro então. O feminismo não se limita apenas a equidade (não igualdade, importante frisar) entre gêneros, porque dentre as mulheres há diferentes vivências, diversos tipos de preconceito que viram meio que um combo de desgraça. Se você é mulher, já tá na merda. Se você é mulher negra, por exemplo, tá duplamente na merda porque além de sofrer com a sociedade patriarcal, ainda tem o racismo.

Daí levando-se em consideração que: 1. problema psicológicos são estigmatizados e vistos com preconceito na nossa sociedade e 2. os termos "transtorno mental", "doença mental" e entre outros estão carregados com esse estigma, faz sentido ter uma nova palavra mais ok pra se referir a pessoas que tenham sua saúde mental prejudicada de alguma forma, seja permanentemente ou não. E também faz sentido a chamada psicofobia entrar na pauta do feminismo, já que problemas psicológicos como depressão, ansiedade e anorexia tem uma prevalência enorme entre mulheres.

Graças a deusa está surgindo essa campanha

Mas aí eu questiono uma coisa: neurodivergência, neuroatipicidade e neurodiversidade são originalmente termos de movimentos de pessoas diagnosticadas com autismo que lutam para que não sejam vistas como portadoras de uma doença e que portanto não precisam de cura. Como é que você vai fazer desses termos como guarda-chuva pra questões COMPLETAMENTE DIFERENTES como a depressão, os transtornos de ansiedade e até mesmo os transtornos de personalidade? Porque eles não se limitam a uma forma diferenciada de ver o mundo ou de funcionamento do cérebro, a presença destes transtornos causam PREJUÍZOS e SOFRIMENTO, repito, SOFRIMENTO na vida dessas pessoas. Sim, viver com o estigma causa sofrimento, mas as doenças em si já fazem a maior parte do trabalho. Além do mais, depressão e transtornos de ansiedade tem cura, transtornos de personalidade, transtorno bipolar e TDAH são crônicos, ou seja, são pra vida toda. 

Vocês percebem? Há muitas diferenças, não dá pra jogar tudo num barco só.  

Ainda tem uma problemática quanto à interpretação de texto. Quando algum se refere às "mulheres neuroatípicas/neurodivergentes/neurodiversas", estão se referindo a quem? Às mulheres diagnosticadas com autismo ou às mulheres diagnosticadas com outros transtornos? São dois movimentos usando o mesmo termo, o que pode dar alguma confusão tanto pra quem tá sabendo dos seus usos tanto pra quem nunca viu isso na vida. Por mais que a neurodiversidade seja mais forte no exterior, se você for pesquisar no google em português a maior parte das respostas terão a ver com o autismo, não como um termo guarda-chuva.

A cara da Alicia já é legenda o suficiente HGUDFHGIFDHGDHF
Então assim, agora que eu entendi exatamente do que se trata acredito que a iniciativa seja ótima, mas precisa de uns bons ajustes. Minha maior preocupação é que com essa coisa de "tudo é normal" a romantização de transtornos psicológicos ganhe ainda mais força, e vamos combinar, a questão já é complicada o suficiente sem essa parada. Além do mais, pessoas se recusam a procurar ajuda terapêutica porque acham que psicólogo é "pra maluco", deixam de seguir as recomendações do psiquiatra porque "é contra a medicalização da vida"e entre outros chavões que podem ganhar força com esse movimento.

Daí eu fico pensando: se fosse uma doença física, digamos assim, como câncer, diabetes ou algo até mais bobo como uma gripe, ninguém hesitaria em se tratar e ainda crucificaria quem desse um pio contra (inclusive a Taiany falou um pouco sobre isso aqui).

Mas isso é papo pra outro post.

EU AMO ESTA TIRINHA E IREI PROTEGÊ-LA



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5 comentários

  1. Eu curti o termo neuroatípico porque ele é bem menos estigmatizado do que transtorno (seja mental ou afetivo como alguns colocam) além de ser mais curto. Usar o termo trás a vantagem de não ter que expor meu cid. Eu digo "sou neuroatípica" e assim não preciso explicar o que eu tenho. Tenho um "problema" que é problema meu, portanto não tenho que explicar pro outro.

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  2. Amada, bom dia! Parabéns pelo texto e pelas explicações, gostei bastante, exceto pela agressividade nessa frase: "Se você é mulher negra, por exemplo, tá duplamente na merda porque além de sofrer com a sociedade patriarcal, ainda tem o racismo." Sei que eu e você somos mulheres brancas, não aceitamos o racismo e procuramos desconstruir o pensamento racista em nós mesmas e nos espaços onde convivemos. Por isso mesmo não é necessário se dirigir às leitoras negras nessa forma. Espero que tenha sido "escura" nas minhas palavras! Abraço forte! =)

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    1. Oi Suria, eu quis responder seu comentário mesmo não tendo sido a pessoa que escreveu o texto porque eu sou uma mulher negra, e como você levantou uma suposta agressividade em relação a mulheres negras, quis vir falar sobre como enxerguei isso.

      Quando a autora diz "Se você é mulher negra, por exemplo, tá duplamente na merda porque além de sofrer com a sociedade patriarcal, ainda tem o racismo." Ao meu ver não houve nada de agressivo e nem racista, ela expor uma verdade, é inegável que quando mais você se distancia do lugar de homem branco cis e hétero, mais você é apagado, mais você tem que lutar por seu lugar e sua voz. Ou seja, quando ela diz que mulher negras estão duplamente na merda, ela tá certíssima. Talvez você tenha se chocado pela palavra "merda", no entento o conversa cult é um site informal, então acredito que há uma liberdade para usar um linguajar menos estruturado.

      Fico muito feliz com sua busca de desconstruir o racismo em você mesma e nos seus espaços de convivência, isso é algo que todos deveríamos buscar. E por isso mesmo, me sinto obrigada a te alertar sobre essa frase "Espero que tenha sido "escura" nas minhas palavras!" Primeiramente, pessoas negras não são pessoas escuras, que tem voz escura e nem palavras escuras. Pessoas negras são simplesmente pessoas negras, como brancas são brancas, asiáticas são asiáticas e por ai vai. Segundo, apesar da sua busca por desconstruir o racismo arraigado, você não é negra, ou seja, suas palavras por mais solidarias que sejam, nunca será como a nossa. São lugares de fala diferentes.

      Espero que você possa entender o que eu tentei transmitir nesse comentário, a desconstrução tem que começar primeiro internamente, nos nossos conceitos, pensamentos, crenças e só então ela vai se manifestar na nossa falar.

      Obrigada por seu comentário e espero que pense com carinho no que eu falei. Aqui é um espaço de troca, e estávamos sempre dispostos a ouvir e juntos nos desconstruirmos um pouquinho mais.

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  3. Eu tenho uma dúvida. O termo neuroatipico pode ser usado também pra pessoas com TDAH, TOD , TOC ?

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  4. Eu achei o texto maravilhoso.
    Mas nessa segunda leitura, meses depois, fiquei encucado e tals.
    Eu concordo com o seu ponto, apenas queria colocar um oitro ponto de vista que eu formei.
    Realmente levar esse termo às pessoas que tem algum transtorno (no sentido sofrido mesmo) psicológico é problemático, mas acho que quando as pessoas usam o termo é mais pra evidenciar os diferentes contextos das pessoas.
    A comunidade "lgbt+" tbm usa o termo e explica que é pq pessoas que estão fora do que é considerado normal mentalmente sentem as coisas de uma forma bem diferente, então muitas até tem seus próprios rótulos de sexualidade, genero, ou outras identidades, por exemplo. Isso tbm acontece com mudanças culturais, por exemplo.
    Então acho que esse termo é usado nesses contextos pra mostrar que: ta, não somos heteto cis brancos ricos no pain no gain, mas alguns de nós também não são mulheres cis brancas ricas, ou mulheres negras trans pobres; temos então também mulheres cadeirantes no movimento feminista, e cegos no movimento lgbt, além de pessoas boderline no movimento negro. Então a gente tem que entender que elas tem suas necessidades também, e como nos ajudam com as nossas, devemos também ajuda-las com as delas.
    Sem contar também que tem muita gente no movimento preocupado apenas com o próprio umbigo. Então se eu sou gay, eu não quero bissexuais perto de mim. Eu sou mulher, mas não quero compartilhar banheiro com lésbicas e trans. Nem eu que sou gordo to interessado na acessibilidade do transporte público, menos se for a minha.
    Eu acho que isso poderia ser resolvido com outro termo, claramente. Mas acaba sendo costume os termos virarem guarda chuva pra outras coisas. E muitos termos as pessoas nem ressignificar e desestigmatizar querem, imagina se tão interessados em se apropriar de termos de outros movimentos.

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