CCSociedade colaborador

Obrigada a todos os fãs LGBT+

3.5.16Colaboradores ConversaCult


Hoje faz 2 meses desde o episódio 3x07, onde escritores mataram a personagem Commander Lexa e mostraram que a indústria de entretenimento está longe de entender o poder da representatividade. Pra celebrar esse dia, um relato do que é crescendo sendo jovem LGBT+ e se encontrar na televisão.


Obrigada

Era 2004, aqui no Brasil nós tínhamos essa novela chamada Senhora do Destino.

Essa foi a primeira vez que eu encontrei representação.



E honestamente, era incrível. Eu sentava na frente da TV e ouvia minha mãe resmungando quando elas apareciam na tela e eu não sabia o motivo. Eu não sabia porque me sentia tão envolvida na história delas. Eu não sabia porque eu queria que elas fossem felizes e que a sociedade parasse de tentar derrubá-las. Eu, com 12 anos, vi esse casal e senti uma conexão instantânea, mesmo que tenha sido 2 anos antes de descobrir minha sexualidade.

Eu, com 12 anos chorei quando a novela acabou porque elas estavam juntas e elas adotaram um bebê e elas tinham um cachorro e viviam perto de pessoas incríveis que tinham filhos e gatos e cachorros e gostavam delas. Eu chorei quando vi essas duas mulheres olhando para uma criança que tinha sido abandonada por uma pessoa heterossexual com tanto amor.

Um ano depois disso eu assisti Assunto de meninas. Minha irmã mais velha encontrou esse filme quando ela estava começando a aceitar sua bissexualidade, ela nem sabia sobre o que era, só que era sobre meninas.

Eu tinha 13 anos e eu chorei como um bebê porque todas nós sabemos como esse filme acaba. Nós todas sabemos o que acontece. É, depois daquela primeira experiência maravilhosa, eu tive essa. Mas mesmo tendo me deixado muito triste, eu ainda era hétero, eu tinha um 'namorado' (a gente andava de mãos dadas e ele fazia minha lição de matemática e eu fazia a lição de história dele) então não era comigo. Foi aí que eu comecei a chorar no banho. Eu não conseguia explicar o motivo daquele filme me deixar tão triste. Eu não conseguia olhar nos olhos da minha mãe e falar alguma coisa porque eu não sabia o que falar.

A vida continua. Minha irmã arrumou uma namorada e ela tinha uma irmã.

Minha família decidiu visitar uns amigos e nós convidamos as duas para passar o fim de semana. Elas ficaram muito bêbadas e eu acabei no sofá assistindo filmes com a garota. Eu tinha 14 anos. Eu sabia que as pessoas podiam ser outras 'coisas' além de hétero e eu estava começando a ficar nervosa porque o casal na tela estava se beijando e ela (que tinha 15 anos) não parava de olhar para mim. Ela pediu pipoca e me seguiu para a cozinha, eu coloquei o pacote no microondas e quando eu me virei, ela me beijou.

Obviamente não foi um Beijo™ mas me fez sentir aquela coisa quando cada pedaço de você está mudando de posição e entrando lugar certo.

Pareceu certo.

E eu me odiei. Eu ignorei a garota. E ignorei a sensação. Eu beijei meu namorado. Eu disse para minha mãe que queria casar com um homem parecido com ele e que queria ter filhos. E eu chorei. Porque eu sabia um pouco do que era não ser hétero, eu via as pessoas rindo, ofendendo a minha irmã e eu via o que as amigas lésbicas dela viviam. Eu não queria aquilo então, enquanto eu, uma criança de 14 anos, tivesse um namorado tudo ia ficar bem.

E foi assim. Por 2 anos tudo ficou bem. Eu vivi essa mentira e todos pareceram aceitar. Eu assisti filmes lésbicos e eu as vi morrer, chorar e matar mas estava tudo bem. Não era eu. Eu aprendi a achar lesbianismo em coisas heterossexuais, eu precisava porque eu precisava continuar beijando meu namorado. E então a pior coisa aconteceu:

Uma lésbica na minha sala na escola.



Ela me conquistou em 2 segundos mas eu só a beijei quase 7 meses depois. Ela nunca forçou nada, nem falou sobre. Eu lembro de uma garota de outra sala dizendo que queria ficar com ela e ela respondeu 'foi mal, mas eu já estou com alguém', mas ela não estava. Ela estava esperando por mim. E ela estava lá todas as vezes que eu negava, chorava, todas as vezes que eu queria desaparecer porque eu nunca seria capaz de contar para o mundo, eu nunca seria capaz de andar por aí segurando a mão dela. Ela estava lá quando eu terminei tudo e disse que a odiava, ela me abraçou e disse 'tudo bem se você não gosta de mim, mas eu não vou te deixar sozinha.' (eu tenho apenas gratidão por ter tido ela como um tipo de 'modelo' como lésbica)

Ela não foi embora. Ela ficou por 1 ano e meio, ela me abraçou quando eu me assumi e minha mãe me disse para não contar a ninguém porque ela não queria passar vergonha. E quando coisas horríveis aconteceram numa festa na faculdade, ela também estava lá. Mas as pessoas crescem e as coisas acabam.

Quando nós terminamos eu reassisti aqueles filmes.





E foi diferente. Dessa vez, era eu. 100% eu. Era eu matando pessoas, perdendo pessoas, morrendo.

Eu entrei pro fandom de Glee e depois Faberry. E foi a primeira vez na vida que vi essa palavra. Queerbait. Você sabe o que eu fiz? Eu fugi, parei de assistir. E escolhi nunca assistir produções do Ryan Murphy. Eu escolhi parar de shippar, eu escolhi não me dar a chance de me apaixonar por esses casais porque eu sabia que não terminaria bem.

The loo foi um acidente. Eu comecei a assistir logo depois que a primeira temporada acabou e eu estava bem meeh, tipo, era legal e tudo mais mas eu tinha outras coisas para assistir/fazer então eu não dei tanta atenção e nem entrei no fandom. Eu assisti a segunda temporada porque meus amigos estavam bem viciados e é sempre melhor assistir coisas com amigos, mas aí ela apareceu.


Eu não preciso dizer como eu reagi e quão rápido eu comecei a seguir as pessoas aqui e no Twitter, não é? Minha última experiência com um fandom tinha sido Glee e nós todas sabemos como aquilo terminou então eu estava um pouco relutante mas, de novo, ela estava lá.

O que você não sabe é que no segundo em que elas se beijaram eu senti a mesma coisa que senti naquela primeira vez que beijei uma menina.

Por que Clexa? Eu não sei. Talvez porque veio de um lugar puro e carinhoso, talvez porque não havia nada além de afeto genuíno entre elas. Não era manipulação. Não era forçado. Era eu mudando a minha história e beijando aquela menina que eu gostava quando tinha 15 anos ao invés de me preocupar com o que as pessoas iam falar. A falta de medo, o amor, isso foi o que me ligou a Lexa. Lexa era tudo que eu não consegui ser quando adolescente e de algum jeito, ela conseguiu ser o que eu quero ser daqui pra frente.

E agora, aqui estou eu.

E tudo que eu quero dizer hoje é obrigada.

Obrigada por lutar por um amanhã melhor. Obrigada por começar isso e por acreditar nessa comunidade. Obrigada por acreditar em vocês mesmas. Obrigada por acreditar em mim. Obrigada por ser quem vocês são.


”Você é boa, você é esperta, você é importante”

Eu sinto muito se dói e eu não sei se vai melhorar, eu posso apenas esperar que algum dia não vá doer tanto. Eu posso apenas lutar com vocês hoje. E, como sempre, CB está aqui para... qualquer coisa.

Se cuidem e nos chame se precisarem de alguma coisa.

Escrito por Lana Freiman e publicado originalmente no Clexa Brasil.


TAGS: , , , , , , , , , ,

Mostre para o autor o que você achou Recomende:

MAIS CONVERSAS QUE VOCÊ VAI GOSTAR

2 comentários

  1. Antes de mais nada, desculpa.
    Desculpa pelo anonimato. É o meu momento, é o meu instante, eu vou me respeitar do jeito que dá.
    E o anonimato me deixa comentar em paz, sem a preocupação de que alguém vai ler e me apontar na rua.
    Eu sei que isso é tipo, exponencialmente impossível de acontecer, mas eu quero curtir o meu medo enquanto eu escrevo.
    E foi medo que eu senti lendo o seu relato.

    Eu acho curioso como a gente se acha em determinados personagens. Eu não vou lembrar o primeiro personagem gay que me marcou, porque enfim, bissexualidade nunca foi tratada como agora e agora nós temos bissexuais (oi? Agora? Ah, tá.)
    Eu me lembro de Les Chansons d'Amour. Que uma amiga lésbica me recomendou. E como, COMO aquilo soou natural. Tipo, eu posso seduzir - e ser seduzido - sem precisar do gueto? Sério? Que legal!
    E o mais legal: eu posso transitar. Eu não preciso me preocupar com o rótulo, mas sim com a identidade. Não é sobre ser gay ou ser hétero ou ser bi. É sobre ser. É sobre se reconhecer no papel representado.
    Como desde pequeno sofri bullying, ser gay soava errado. Era o motivo pelo qual eu apanhava.
    Hoje eu posso beijar quem eu quiser. Tranquilamente. Porque, enfim, alguém para tentar me bater tem que ser bem mais forte do que eu - e eu acho que ninguém arriscaria descobrir só para tirar um sarro.
    Só existe uma coisa bacana na dor. Com ela, você descobre que não quer que as outras pessoas passem pela mesma situação.
    Seria melhor se não doesse. Mas, doendo, a gente olha com mais compaixão para aquele que está no seu momento de descoberta. Por razões evidentes eu sou completamente avesso ao outing. Ninguém tem que sair do armário à força. A função daqueles que superaram suas dores é só deixar claro que a porta está aberta.
    E isso me deixa inseguro em relação ao mundo, mas tranquilo em relação a quem me procura pedindo ajuda sobre o assunto.
    Se for pensar em seriados, alguns personagens me marcaram sim. Santana, de Glee. Ela sabe quem é, mas sofre por amor porque... Enfim. Blane (quem não se apaixonou por ele? Sério?).
    Mas Oberyn Martell, de Game of Thrones, levou a bissexualidade a níveis inesperados para mim. Apaixonado, galante, violento, um príncipe dos meus contos de fadas.

    Novamente, desculpa, gente, por usar o anonimato. É que eu li e fiquei tocado e não soube bem o que fazer. Mas acho que precisava falar sobre isso, sobre minhas questões e inseguranças e sobre o quão importante é termos gente - na luz e nas sombras - aceitando o fato de que é.
    É alguém, num mundo de grupos, que não está sozinho.

    Obrigado pelo papel de vocês, descobrindo-se e ajudando-nos a descobrir quem somos.

    ResponderExcluir
  2. Não sei nem como agradecer por este artigo absurdamente maravilhoso. Tudo que esse blog posta eu leio, sinto, Rio e choro junto e envio para metade dos meus contatos no whatsapp. Só tem coisa boa aqui e útil, e importante, e imprescindível. E vocês explicam conceitos, termos, preconceitos, tanta coisa de uma maneira com a qual se torna mais fácil até para quem já concorda com vocês entender. E, obviamente, ajuda quem não concordava ou não entendia mas agora repensa tudo porque eu mandei o link com o artigo de vocês :)

    Só quero agradecer e enviar o texto que uma amiga enviou quando compartilhei com ela este texto em especial:
    "Cara !! Q texto maravilhoso.
    Veio tudo na cabeça de qnd eu era pequena e me achava completamente fora do mundo, msm sem entender o q eu realmente era. E como fui crescendo achando q era louca, q eu deveria morrer, q ngm sentiria falta, pq so causaria desgosto. Dos segundos q comecei a aceitar e entender o q eu queria, da sensaçaão de achar q nunca teria coragem de ir em frente e do momento q tive..da sensação louca q foi. E de todo sofrimento depois. E porra..parece q nunca passa. Melhora enqt vc ta crescendo, mas de algum jeito ainda é sempre a msm coisa. Aquele medo de ser descoberta, a falta de representatividade, os olhas julgadores..
    Enfim..foda."

    ResponderExcluir

Posts Populares

INSTAGRAM


Instagram

FALE COM A GENTE!

Nome

E-mail *

Mensagem *