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Eu queria indicar Todo Dia do David Levithan. Queria.

29.8.15Dana Martins


Ok, esse era pra ser um livro muito bom. Se você acompanha o Balanço de Leituras sabe que esse ano eu não to lendo quase nada. O que você não sabe é que eu to num desânimo tão grande com a literatura que mal encontro livros que me animam a ler, ainda mais em português. Entendeu o contexto? Aqui é que entra Todo Dia, dos David Levithan. No meio disso esse era um livro que eu queria ler.


David Levithan é marcado por representatividade LGBT+ e Todo Dia tinha um conceito interessante: uma pessoa que a cada dia acorda em um corpo diferente. ALGUÉM PRECISA DE MAIS ALGUMA COISA? Não. 

Ainda assim, levou uma era glacial e meia para eu começar a ler. Minha prima me emprestou o livro!!! E ficou aqui pelas prateleiras. Acho que a única coisa que me fez ler de uma vez por todas foi o olhar de julgamento dela toda vez que eu dizia que ainda não comecei. Eu ainda não comecei a assistir The Fosters, não assisto Doctor Who, então ler Todo Dia é o mínimo que eu podia fazer em nome da Irmandade Secreta de Pessoas Espiãs (ISPE, pronunciado CUSPE). 


Voltando para a realidade, foi assim que eu comecei a ler Todo Dia. O livro começou tão bem que na segunda página eu tive que parar pra escrever um post (que ainda não foi publicado aqui, hm... enfim). E a partir disso ele continuou sendo muito bom. Daqueles que me dava vontade de voltar a ler pra ver o que vai acontecer. Quem vai ser o próximo corpo? Como a pessoa protagonista vai fazer pra, mesmo com essas mudanças, ficar com a garota que ela gosta? 

Eu troquei fanfic por isso. ESSE É O NÍVEL DE ANIMAÇÃO.

Até que depois do iníciozinho ficou estranho. Veja bem, a pessoa protagonista, que se chama de "A", acorda no corpo de pessoas diferentes da mesma idade. A tem personalidade própria e pensamentos próprios, mas a cada dia vive a vida de outra pessoa. Hoje pode ser a minha vida aqui em casa com a minha família, amanhã pode ser uma cantora pop da minha idade, depois um surfista e por aí vai. Então muito do livro é sobre conhecer a vida a partir de outras perspectivas. Como é ter depressão? Como é ser uma garota muuuito bonita? Ou um menino trans? 

Bem Sense8, só que A não tem um corpo. É um parasita. E a pessoa dona do corpo tira um dia de folga quando A tá no controle.


A questão é que A, essa pessoa sem gênero, acordou no corpo de uma garota. E aí, depois, acordou no corpo de outra garota. 

"Dana, o livro não é sobre isso?"

Pois é, PORÉM. A narração é em primeira pessoa e, mesmo no corpo de uma garota, A se referia a si como um garoto. Tipo "eu estava deitado quando te vi", "eu era o único"... Isso começou a me incomodar demais, porque começou a formar a imagem de um garoto na minha mente. Foi tanto que no dia seguinte a primeira coisa que eu fiz quando acordei foi procurar se em inglês era assim. 

Não era. 

imagens reais que a Record usa pra divulgar o livro.
Me diz se você pensa que A não tem gênero. 

Em inglês não tem marcação de feminino ou masculino. Você consegue ler a história inteira sem saber o gênero de A, e eu acho que isso é parte da experiência de leitura. 

E o livro fala sobre como A se sente:

"Eu não penso em mim como um garoto ou uma garota - eu nunca pensei. Eu só pensava em mim como um garoto ou uma garota por um dia. Era como um diferente conjunto de roupas."


"Houve dias que eu me senti como uma garota e dias que eu me senti como um garoto, e esses dias não correspondiam com o corpo em que eu estava. Eu ainda acreditava em todo mundo quando diziam que eu tinha que ser um ou outro. Ninguém estava me contando uma história diferente, e eu era muito jovem para pensar por mim. Eu ainda estava para aprender que quando se trata de gênero, eu era ambos e nenhum. É uma coisa horrível o seu corpo te trair. E é solitário, porque você sente como se não pudesse falar sobre isso."


Eu acho que é um pouco difícil delimitar A por termos de trans e cis, porque essas coisas dizem mais respeito a relação do seu senso de gênero com o seu corpo - e A não tem um corpo. Mas, de qualquer modo, A se define além da binária de gênero. E, de fato, o livro é feito de modo que você não tem como saber o gênero de A. Na verdade, isso não importa.

Então ler o livro que começava a definir A como um garoto foi irritante - ainda mais quando você olha a capa. A pessoa em destaque é um garoto. E praticamente só tem um garoto e uma garota que parecem os mesmos dois repetindo através da capa. E é lindo, né? Você pega um personagem sem corpo, QUE PODE TER QUALQUER CORPO NO UNIVERSO, e coloca num corpo de um garoto branquelo.

a versão em inglês é igual

Você pega uma história de uma pessoa que não é garoto e nem garota, ainda mais que é alguém mais pra pansexual (A não se define explicitamente, mas em uma parte diz que não vê gênero quando se trata de se apaixonar), e praticamente apaga tudo em mais uma história de amor hétero cis protagonizada por um garoto branquelo.

Tipo, não dá pra apagar totalmente. Nem se quisesse. Em alguns momentos A entra no corpo de garotos que têm namorados, garotas que têm namoradas e até um menino trans. Inclusive, há essas discussões sobre gênero e atração sexual. Mas principalmente graças ao combo tradução + capa, você pode ler esse livro sem pensar que a pessoa protagonista também se encaixa nessa descrição.

Capa de Portugal. Podiam mexer com esse cabelo porque continua expressão de gênero considerada masculina.

Isso é, inclusive, o que mais me irrita. Eu não acho que a Galera Record e a pessoa que traduziu o livro tenham feito de sacanagem (apesar de achar que pode ter rolado uma censura), mas acho que o costume de imaginar o garoto branco hétero protagonista é tão grande que simplesmente vai. Mesmo com esses trechos que eu citei do livro - eu acho que eles caíram na armadilha de não considerar que existe algo além da binária. 

"Mas, Dana, no português é difícil não determinar gênero! Como é que quem traduziu poderia resolver isso?"

É, eu sei que escrever em português é difícil, mas em Todo Dia isso é tão fácil. Primeiro, que são poucos os momentos em que isso é necessário - e eles podem facilmente ser trocados por algo que não seja indeterminado. Mas Todo Dia ainda tem uma vantagem: é a história de A que passa um dia sendo alguém diferente. Então é só colocar de acordo com quem ele é naquele dia. Se é uma garota - eu estou cansada. Se é um garoto - eu estou cansado. Se é um garoto trans - eu estou cansado. Normalmente. 

Se tivesse dúvida, o próprio livro diz "Eu só penso em mim como um garoto ou uma garota por um dia." A literalmente explica como se refere a si.

E quando comentei no twitter rolou uma conversa sobre "isso não ia fazer parecer que A é genderfluid?" (ou seja, também não ia servir ao propósito de ser neutro) Eu não posso determinar a identidade de gênero de alguém, mas A parece ser muito mais genderfluid do que "sem gênero"? E parecer genderfluid é mais positivo do que cis, porque quebra a ideia de que alguém precisa se limitar a um gênero

E mesmo que esse não fosse o caso, só em variar o gênero de acordo com o corpo é uma forma de reforçar que A não se define através de gênero.

Enfim, isso me irritou muito e terminei de ler o livro em inglês pelo meu celular numa letra minúscula que não sou obrigada. 

Mas, é claro, isso era só uma etapa da leitura. Eu não gostei de como o livro terminou, parece que o David Levithan não soube mais o que fazer e colocou um ponto final. Todo Dia é quase um OLHA, EU TENHO ESSA PREMISSA INTERESSANTE, OLHA COMO É VIVER DESSE JEITO, OLHA OS CONFLITOS. VIU? TO INDO. VLW FLW. 


Mais do que isso - eu já tinha sentido no capítulo que A vai na parada gay que só fala de "Gays e lésbicas" (não devia ser uma parada LGBT+...), mas ficou doloroso em um episódio gordofóbico. Em um momento A acorda no corpo de um garoto muito gordo. Até aí ok. O capítulo basicamente diz "ser gordo é nojento e coisa de quem não se cuida". O objetivo do capítulo praticamente é dizer o quanto ser gordo é uma coisa horrorosa e, pra piorar, é colocado em um momento pra enfatizar os problemas de se relacionar com alguém quando você troca de corpo todo dia. "pode ser que você acorde no corpo de alguém tão grotesco que a pessoa que você ama não consiga te beijar" - sabe, ser gordo. E poderia ser uma narrativa aceitável se A acordasse no corpo de outra pessoa gorda em outro dia e não fosse assim. Ou até se tratasse o dilema, sei lá. Não essa gordofobia pura. 

Até que de um lado é interessante, né? Porque mostra todo o estigma de ser gordo. Ser gordo é ser essa pessoa nojenta que ninguém quer tocar, ser visto como quem não tem o menor amor próprio. Esse mesmo pensamento se reflete em A Escolha Perfeita 2, que apesar de Fat Amy ser super segura de si e representada com uma vida sexual ativa, é sempre mostrada como meio que nojenta. Isso é algo tão merda pra perpetuar. Praticamente me desanimou do propósito de todo o livro. Se tivesse dado tempo, né? Porque aí a história acaba e tchau.


Então Todo Dia é um livro que eu queria muito indicar. E, perto da maioria que tem por aí, é uma grande indicação. O olhar do David Levithan (nas coisas que ele percebe como problema) é afiado e tem umas observações sobre a vida muito legais. Também tem um capítulo dedicado a depressão, o que é muito bom. E uma personagem chamada "Dana", que eu adorei a homenagem. Sem falar de que beijos entre pessoas do mesmo gênero e pessoas trans existem dentro das páginas, não é só o clássico "yaaay! eu dou suporte!" *e não tem nada* Inclusive, são uns dos momentos mais fofos.

Enfim, foi legal ler. E só me mostrou a importância de posts como o da Taiany para começar a pensar em pessoas gordas. Eu indico, mas de preferência: em inglês. 

"Eu sempre me impressiono com pessoas que sabem que algo está errado, mas ainda insistem em ignorar, como se de algum modo fosse fazer o problema desaparecer. Eles se livram do confronto, mas acabam fervendo com ressentimento de qualquer forma."

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3 comentários

  1. Eu era nem tchum pra esse livro, daí comecei a ver bastante indicações e fiquei animada e agora desanimei de novo com seu post. Mas ainda acho a parte da troca de corpo muito legal.

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    Respostas
    1. olha, eu ainda acho que é melhor que outras coisas e um livro que eu indicaria. pelo menos faz pensar e tem umas partes muito boas

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  2. Eu senti esse mesmo incomodo quando li o livro. Adorei a ideia, foi o primeiro livro que me fez pensar em questões LGBT+, em pessoas com depressão, etc e tal. Digamos que eu comecei a desenvolver empatia, quando nunca tinha parado pra pensar na realidade de outras pessoas. E amei aquela frase "toda pessoa é uma possibilidade" que A fala em alguma parte do livro. Eu costumo lembrar dessa frase quando encontro alguém que não vou muito com a cara pra me lembrar do quanto aquela pessoa é única e tem muito a oferecer. Li antes de entrar na faculdade, e tava com essa ideia na cabeça. Fiquei completamente aberta a conhecer qualquer um, mesmo quem eu não conversaria porque não "é meu tipo". Foi muito bom, mudou minha visão de mundo. Mas esse negócio do gênero do A foi mesmo uma falha horrível da tradução. Eu não consegui imaginar o A como alguém genderfluid (? assim que escreve?), eu só conseguia imaginar ele como um menino branco, e hétero, apesar dele também gostar de meninos e até namorar um outro num capítulo (eu amo o capítulo que ele acorda no garoto que vai pra parada gay). O capítulo da pessoa gorda eu não me lembrava, acho que na época eu não tinha tanto senso crítico assim pra perceber.

    Saiu a continuação dele agora né, chama Outro Dia, vamos ver como vai ser.

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