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Você não está Sozinho: O discurso da Shonda Rhimes

1.4.15Eduardo Ferreira

Uma conversa para pensar o significado de diversidade na TV.




Shonda Rhimes é a mente por trás de Grey's Anatomy, Scandal e a recente, mas não menos importante, How To Get Away With Murder. Três dos shows mais populares da ABC atualmente. Três shows que são conhecidos por dar voz às mulheres, por representar muito bem os negros e por estar sempre representando a comunidade LGBTQ. 

Desde 2009, quando comecei a ver Grey's Anatomy, me tornei um fã de carteirinha dessa mulher. Ela sabia exatamente o quê, quando e como abordar, assuntos que não víamos sendo tratados assim tão "normalmente" na TV, mas sim como se fossem uma exceção. Algo novo. Algo diferente. Mas, nada do que ela abordava (e ainda aborda) nas séries que produz é novo. É novo para a TV, mas faz parte do dia a dia de toda a população.

Foi então, no último dia 14, que Shonda abriu os olhos do mundo fazendo um dos discursos mais memoráveis ao receber um prêmio no baile da Campanha de Direitos Humanos. 

"Você não está sozinho
Eu tenho sido uma escritora desde antes mesmo de aprender a soletrar.
Eu costumava ditar histórias para um gravador de fitas com minha irmã Sandie. Então, eu tentava convencer minha mãe à transcrevê-las. Eu tinha 3 anos. E quando eu aprendi a soletrar...escrever abriu mundos.

Nada mais me fornece aquele "hum" no meu cérebro, aquela viagem especial até a imaginação. Escrever era...bom, para mim é como sentar-se num piano pela primeira vez e perceber que eu sempre soube como tocar. Escrever era minha melodia. Escrever era quem eu era. Escrever era EU.

Passei meus dias na escola escrevendo em diários. E ainda os tenho. Pequenos livros cobertos de pano, desgastados e desbotando. Ainda os tenho guardados em uma caixa no meu sótão - cerca de 20 deles, eu acho.

Pequenos livros inundados com esperanças e sonhos e histórias e dor.

Deixe-me descrever-me quando criança: altamente inteligente, exageradamente fofinha, incrivelmente sensível, nerd e dolorosamente tímida. Eu usava óculos fundo de garrafas. Duas trancinhas viajavam pelos lados da minha cabeça de um jeito que não era nada bonito em mim. E aqui está o problema - Eu era, muitas das vezes, a única garota negra na minha sala.

Eu não tinha amigos.

Ninguém é mais malvado que uma aglomeração de humanos de frente para alguém que é diferente.

Eu era muito solitária. 
Então... eu escrevia.

Eu criava amigos. Nomeáva-os e escrevia cada detalhe sobre eles. Eu os dava histórias e casas e famílias. Eu escrevia sobre suas festas e seus encontros e suas amizades e suas vidas e eles eram tão reais para mim que -- 

Veja bem, Shondaland, o mundo imaginário de Shonda, tem existido desde meus 11 anos. Eu o criei na minha mente como um lugar para minhas histórias existirem. Um lugar seguro. Um espaço para meus personagens existirem. Um espaço para EU existir. Até que eu pudesse dar o fora da vida de adolescente e pudesse correr até o mundo lá fora e ser eu mesma
.
Menos isolada, menos marginalizada, menos invisível aos olhos de meus pares.
Até encontrar minha gente no mundo real.

Não sei se alguém notou, mas eu costumo escreve apenas sobre uma coisa: estar sozinho. O medo de estar sozinho, o desejo de não estar sozinho, as tentativas que fazemos para encontrar nossa pessoa, para manter nossa pessoa, a convencer nossa pessoa a não nos deixar, a alegria de estar com nossa pessoas e portanto não mais sozinhos, a devastação de ser abandonado.

A necessidade de ouvir as palavras: Você não está sozinho.

A necessidade humana fundamental de um ser humano ouvir outro ser humano dizer para eles: "Você não está sozinho. Você é visto. Eu estou com você. Você não está sozinho"

Me perguntam muito o porquê de eu investir tanto em diversidade na televisão. "Por que é tão importante ter diversidade na TV?" eles dizem. "Por que é tão desafiante ter essa diversidade?" "Por que Cyrus tem que ser gay?"

Eu odeio muito a palavra “diversidade”. Sugere… Alguma coisa além. Como se fosse algo especial. Ou raro. 
Diverso! 
Como se tivesse algo incomum sobre contar histórias de mulheres, pessoas de cor e personagens LGBTQ na televisão. 

Eu tenho uma palavra diferente: NORMALIZAR
Estou normalizando a TV. 

Estou fazendo a televisão parecer mais com o mundo real. Mulheres, pessoas de cor e LGBTQ somam muito mais que 50% da população. Isso significa que eles não são qualquer coisa. Eu estou fazendo a TV mundial parecer NORMAL.

Eu estou NORMALIZANDO a televisão.

Você deveria ligar a TV e ver a sua tribo.  E sua tribo pode ser qualquer tipo de pessoa, qualquer um que você se identifique, qualquer um que se sente como você, que te faça sentir-se em casa, sentir-se verdadeiro. Você deveria ligar a TV e ver a sua tribo, ver a "sua turma", alguém lá fora que é como você, existindo. Para você saber no seu momento mais obscuro que quando você correr (metaforicamente ou fisicamente CORRER), existe um lugar, alguém, para correr em direção. Sua tribo está te esperando.

Você não está sozinho.

O objetivo é que todo mundo ligue a televisão veja alguém com quem se parece, que ame da mesma forma. Mas o mais importante, todo mundo deveria ligar a TV e ver alguém com quem NÃO se parece ou que ame diferente. Porque assim, todo mundo aprenderia com essas pessoas. 

Talvez, então, eles não vão isolá-los.
Marginalizá-los.
Apagá-los.
Talvez, eles até aprendam a se reconhecer neles. 
Talvez eles até aprendam a amá-los.

Eu acredito que quando você liga a TV e você vê amor, vindo de qualquer pessoa, com qualquer pessoa, para qualquer pessoa -amor verdadeiro- um serviço foi feito à você. Seu coração foi expandido de alguma forma, sua mente cresceu de alguma forma. Sua alma abriu um pouco mais. Você experimentou alguma coisa.

A simples ideia de que o amor existe, de que é possível, de que você pode ter uma "pessoa"...

Você não está sozinho.

Ódio diminui, amor se expande.

Eu falo muito nas minhas Salas de Escritores sobre como a imagem importa. As imagens que você vê na TV realmente importam. Elas te contam sobre o mundo. Elas te dizem quem você é. Como o mundo é. Elas te moldam. Todos sabemos disso. Existem estudos para comprovar.

Então, e se você nunca ver um Cyrus Beene na tv? Um  mais velho, fodão, sem ressentimentos, republicano, conservador, Rumsfeldiano homem gay que ama seu esposo James tão intensamente e tenta desesperadamente não ter que matá-lo...

Se você nunca ver um James puxando Cyrus para o século 21...

Se nunca ver um Connor Walsh em How To Get Away With Murder tendo o mesmo tipo de vida amorosa que vemos personagens heterossexuais tendo na TV temporada após temporada...

Se você nunca ver uma Erica Hahn exuberantemente recitar o monólogo que ficou conhecido como "Folhas nas árvores" dizendo à Callie que ela percebeu que ela era uma lésbica...

Se você nunca ver uma bisexual Callie Torres dizendo abertamente para o pai que "Você não pode rezar para afastar os gays"... “You can’t pray away the gay!!!” (minha fala favorita de todos os tempos).

Se você nunca ver um transgênero na TV ter uma família que entende e que a apoia, uma Dra. Bailey para amá-la e apoiá-la...

Se você nunca vê nenhum tipo de pessoa assim na TV... O que você aprenderá sobre a SUA importância no tecido da sociedade? O que héteros aprendem? O que isso ensina aos jovens? Onde é que isso os leva? Onde é que isso deixa qualquer um de nós?

Eu recebo cartas e tweets e pessoas vindo até mim nas ruas. Contando histórias tão incríveis. O pai me contando sobre como o que ele viu em um dos meus shows o mostrou como entender seu próprio filho quando ele saiu do armário. Ou os adolescentes, todos os adolescentes homens, que me contam como contaram aos pais que eles eram gays ou lésbicas. As meninas adolescentes que encontraram uma comunidade de apoio online por causa do relacionamento Callie Arizona - Calzona. Eu recebo todo tipo de história.

Houveram tempos em minha juventude em que escrever aquelas histórias na Shondaland, basicamente, foi o que salvou minha vida. E agora, ter crianças me dizendo que essas histórias, basicamente, salvaram suas vidas. Isso está além de humildade.

E todas as vezes se resume a uma unica coisa.

Você não está sozinho.
Ninguém deveria estar sozinho.

Então, eu escrevo.

Nós estamos na beira da mudança; Ainda existe tanto trabalho para ser feito. Eu vou aceitar esse prêmio como um encorajamento e não como uma realização. Não acho que o trabalho está terminado.

Eu tenho muitos amigas lésbicas e gays aos quais eu gostaria de ver seus casamentos serem reconhecidos em todos os estados desse país. E ainda existem tantas mentes e leis que ainda precisam ser mudadas. Eu queria aplaudir o HRC pelo seu trabalho lutando tão bravamente pela igualdade e o fim da discriminação de todos os tipo para a comunidade LGBTQ. O trabalho que vocês estão fazendo é extraordinário.

Escrever não é nada diferente, para mim, de quando eu ainda estava conversando com aquela gravadora de fitas com minha irmã Sandie. Sim, é uma paisagem maior. Sim, está em toda a programação da quinta-feira à noite. Sim, eu sou menos tímida, sem dúvida menos nerd, claramente com melhor estilo. Os óculos foram substituidos por lentes.

Eu ainda sou muita das vezes a única mulher negra na minha sala (Olhe ao seu redor.)

Mas, aqui está: Eu não estou mais sozinha.

Os personagens que viviam dentro da minha cabeça estão agora nas telas da TV. Eles não são apenas meus amigos, agora - eles são os amigos de todo mundo. Shondaland está aberta e, se eu estiver fazendo meu trabalho certo, existirá aqui uma pessoa para todo mundo se identificar.

Para terminar, eu quero dizer isso: se você é uma criança e está por aí, gordo, não tão bonito, nerd, tímido, invisível e ferido. Qualquer que seja sua raça, seu gênero, sua orientação sexual, eu estou aqui para dizer: você não está sozinho. Sua tribo, ela está por aí no mundo. Esperando por você.

Como eu sei disso tão bem? Porque a minha? Ela está sentada naquela mesa bem ali.
Obrigada."

E é por isso, pessoas, que Shonda é a melhor escritora do universo e você deveria estar vendo suas séries.

Você pode também ler o discurso original (em inglês) aqui.


-eduardo ferreira

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3 comentários

  1. Eduardo, você me fragilizou com esse discurso, ok?!

    Mas Deus, que mulher! Como eu não vejo as séries dela, ainda, mesmo que estejam na minha listinha mental? Como o mundo não tá vendo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu ainda não consegui superar esse discurso, Helena. Volta e meia tô abrindo o arquivo pra ler de novo UAHSAHSUASUH

      É a pergunta que eu me faço todo dia! Todo mundo deveria estar vendo as séries dessa mulher!!

      Excluir
  2. Muito bonito o discurso! Vejo Grey's Anatomy e HTGAWM, e elas são realmente as melhores séries em questão de representatividade das que assisto.

    ResponderExcluir

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