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Como os discursos do Oscar 2015 são uma ótima forma de empoderamento

27.2.15Paulo V. Santana


Por dentro do Oscar 2015: podemos tirar várias mensagens dos filmes que foram indicados, mas e dos discursos dos vencedores?

O Oscar desse ano pode ter tido um sério problema com o excesso de homens brancos entre os indicados, mas foram justamente as mensagens pró-diversidade que ganharam força na premiação que aconteceu no último domingo, dia 22. Inicialmente, pretendia falar sobre as mensagens dos principais filmes, mas me dei conta de algo tão - ou até mais - poderoso: os discursos de agradecimento feitos pelos vencedores. 

Digo que os discursos podem ser ainda mais impactantes que os filmes por conta da capacidade de alcance que as palavras ditas num programa de TV assistido por milhões de pessoas têm. Foi a pior audiência do Oscar nos últimos seis anos, mas ainda assim são 36,6 milhões de pessoas ouvindo. O que foi dito nos discursos apareceu na TV, foi reproduzido em diversos sites e redes sociais, comentado entre amigos… uma repercussão ampla, e cada pessoa atingida por essas mensagens é uma pequena vitória.

Num evento composto majoritariamente por homens brancos, a diversidade se destacou. Houve discursos sobre mulheres, pessoas negras, pessoas LGBT+ e imigrantes, além das menções a questões que precisamos prestar mais atenção, como o alzheimer e o suicídio. Como li no Twitter, “Se a Academia não promove um "Oscar da minoria", a minoria promove um Oscar da minoria. E que coisa linda é isso.” (@grabauskafer)

Um das mensagens mais fortes da premiação foi a da vencedora de melhor documentário curta-metragem (Crisis Hotline: Veterans Press 1), Dana Perry, que afirmou que deveríamos falar sobre suicídio em voz alta. Graham Moore parece ter ouvido e, mais tarde, ao ganhar como melhor roteiro adaptado por O Jogo da Imitação, faz exatamente isso. Além de contar que se sentia deslocado na adolescência e que tentou se matar, o roteirista deixou uma mensagem que provavelmente vou guardar comigo por muito tempo.



Esse foi, de longe, meu discurso favorito da noite. O Jogo da Imitação já tem uma mensagem linda, sobre a importância de defender as minorias - nas palavras do Diego, “Todo o ser humano é uma expressão de potencialidade infinita da humanidade como um todo. Cada pessoa perdida é um prejuízo para todos.”. O que o Graham Moore disse complementa essa ideia e, mesmo sendo dita no contexto de um filme sobre um homem gay, é válida para todos que, de alguma forma, são considerados estranhos. Continue estranho, continue diferente. 

Common e John Legend fizeram um duplo trabalho de conscientização: depois de deixarem a mensagem de resistência negra com a linda música Glory, foram claros em seus discursos ao  falarem da situação atual da comunidade negra americana - que não é muito diferente no resto do mundo. Hoje há mais negros presos nos Estados Unidos do que havia na época da escravidão; como a música diz, “Selma ainda existe para cada homem, mulher e criança”.

O meme da Meryl Streep gritando foi um dos mais engraçados, mas ainda melhor que a piada é o motivo pelo qual Meryl reagiu daquela forma. A atriz gritava em concordância ao discurso de Patricia Arquette - melhor atriz coadjuvante por Boyhood - que reivindicava a luta pelos direitos das mulheres. Apesar da controvérsia sobre o que ela disse na entrevista após a premiação*, as palavras que ela disse no palco e que realmente ganharam uma grande proporção no mundo provavelmente despertaram muitas mulheres.
*o chamado “feminismo branco”, que considera como foco apenas a luta da mulher cisgênero, branca e heterossexual.


No fim, todas essas mensagens empoderam pessoas. São discursos pró-diversidade postos em evidência para o mundo todo. Palavras que despertam, reforçam sentimentos e inspiram. E você, enquanto minoria, se vendo no holofote e vendo outros como você recebendo destaque é absolutamente renovador.

ENFIM (comentário da Dana)

Queria falar que a surpresa com a Lady Gaga cantar é um exemplo do que esses discursos todos falam. Não é que ela não cantasse antes, é só que você nunca enxergou. O mesmo vai para as minorias: não é que elas não existam, ou não tenham valor. A gente é que não enxerga (elas e o valor). Esse é um maldito Oscar em que uma mulher precisou pedir por salário igual, com a Meryl Streep concordando. To falando de salário. Valor. Dinheiro. Quanto vale esse ator. Uma mulher, só por ser mulher, vale menos dinheiro do que um homem, até a Meryl Streep. E isso se reflete em todo um pensamento. O que aconteceu com a Lady Gaga ali é o relativo a uma mulher ter que se vestir de homem para receber o mesmo dinheiro. Naquela noite, todo mundo que se surpreendeu tinha "pagado" menos para a Lady Gaga até ali. Ela não mudou. Ela só trocou o vestido.

- paulo v. santana,

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