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A Festa da Insignificância, de Milan Kundera

18.8.14Diego Matioli

“As pessoas se encontram na vida, conversam, discutem, brigam, sem perceber que se dirigem uns aos outros de longe, cada um de um observatório num lugar diferente do tempo.”

Depois de um silêncio de mais de uma década, um dos meus autores favoritos chega com um novo trabalho para me entusiasmar. Kundera mudou minha vida com sua obra mais famosa “A insustentável leveza do ser”, e por isso eu sou eternamente grato a ele. Eu leria até suas listas de compra, imagine então meu entusiasmo com esse lançamento – que ainda veio em edição de colecionador maravilhosa com capa dura.


Mas com expectativas tão altas assim, será que o novo material agradou?


Milan Kundera tem um estilo de escrita maravilhoso. Fácil de ler, mas difícil de compreender plenamente. Sua narrativa é de ficção, mas se mistura com filosofia, sociologia, psicologia e forma um maravilhoso tratado sobre a vida real. Para este homem não há separação entre a teoria mais complexa e o entretenimento mais tolo. Essa qualidade lhe trouxe evidencia na década de oitenta e é obvio que está presente em “A Festa da Insignificância” também. Por trás da história aparentemente tola há uma camada de percepções sombrias sobre a nossa sociedade que poderia deixar até o mais alegre homem melancólico e introspectivo.

A breve (muito breve) história gira em torno de cinco amigos franceses. Seus nomes são difíceis de lembrar e suas idades são indeterminadas. Vemos estes personagens fazerem coisas absolutamente ordinárias, e ainda assim extremamente peculiares, durante a história. Um deles tem um fascínio sobrenatural por umbigos femininos, outro teme anjos por medo deles anunciarem a morte de sua mãe, outro finge ser paquistanês como distração enquanto trabalha como garçom. São aventuras simples as destes nossos heróis, pois o verdadeiro sumo do texto não está nas ações, mas nos pensamentos deles. É absolutamente impossível explicitar a genialidade da história, você tem de ler. O que digo é que as discussões sobre Stalin e Kalinin e as conversas de um dos personagens como a mãe desconhecida que ele imagina em sua mente são o ponto mais alto do livro, e eu o releria só por elas. Alias, já reli.

“Nós compreendemos há muito tempo que não era mais possível mudar este mundo, nem remodelá-lo, nem impedir sua infeliz trajetória para a frente. Havia uma única resistência possível: não levá-lo a sério”

Sei por fato que este livro não precisa ser compreendido para ser apreciado. Já revisitei ele desde que o recebi, e mesmo só entendendo alguns fatos na segunda leitura, desde o primeiro momento os sentimentos que o autor quer passar são tão nítidos que é impossível não acabar comovido. Kundera é hábil em suas razões, mas faz uma literatura inegavelmente emocional e é isso que mais amo em seus trabalhos. “A Festa da Insignificância” não causou tanto impacto quanto o primeiro livro de dele que eu li. Tampouco acho que essa foi sua intenção. Esse não é um texto para marinheiros de primeira viagem, apesar de sua simplicidade e tamanho convenientes. (ou talvez seja o contrário, e este livro seja próprio para preparar a pessoa aos trabalhos mais arrojados do autor, não sei).

Sinto que o trabalho de Kundera é como um bom vinho e está ficando mais saboroso, porem exige um paladar mais apurado.

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Livro: A Festa da Insignificância

Autor: Milan Kundera


Paginas: 134

Comprar: SaraivaSubmarino.

Leia um trecho



(5 conversinhas)


Este livro nos foi enviado pela incrível Companhia das Letras, que merece todo o meu amor por essa edição de altíssima qualidade. É graças a eles que essa resenha existe!

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4 comentários

  1. E isso quer dizer que pra le-lo precisa ter um paladar apurado? Ou só quem é cult e descolado consegue "decifrar os enigmas" de um autor cult? Goumertizando....

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  2. Lerei até sua lista de compras!! Perfeito!
    Ainda terminando a festa da insignificância,que acredito estar fora do pódio do Kundera,mas sem dúvida uma agradável leitura!!

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  3. Bela resenha. Esta leitura é muito saborosa e divertida. Ressalto o uso do narrador típico de Kundera, aquele que disserta a respeito dos personagens. Recomendo a obra e também A Insustentável Leveza do Ser.

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