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Analisando Universo Desconstruído: O que essa tal ficção científica feminista tem a dizer? (parte 2)

24.10.13Dana Martins



Eu li Universo Desconstruído e decidi ver o que cada conto tinha a oferecer. O resultado é uma análise para discutir literatura, feminismo e ficção científica. A primeira parte você já encontra aqui (clique para ler) e agora vou falar dois 5 últimos contos. O que tem pra hoje Dana? Vamos falar de "protagonista mulher ideal" (existe?), de como ficamos cegos dentro do que acreditamos, da causa da extinção do ser humano, de barriga de mulher e de... dividir o mesmo corpo. Vamos ler! \o/


Um jogo difícil - Leandro Leite

O que eu quero destacar nesse conto é a protagonista, a 002. Ela tem um jeito bruto e um maxilar torto - e é pequena o bastante para fugir pela janela do banheiro. Ela poderia ser categorizada como "homem de saia." E não seria qualquer um, seria aquele homem bem "machão". Mas acho que é esse jeitão que faz dela uma personagem legal. 


É comum se discutir, quando vai fazer uma personagem feminina fora do estereótipo, como ela vai ser. Porque se ela lava louça, vai parecer a dona de casa subordinada. Se ela cospe no chão, ela vai parecer aquela puro homem com peito. Se ela usa roupa curta, ela é puta. Aliás, é comum você ver essa discussão quando falam de A Lenda de Korra. Enquanto foi uma luta para eles conseguirem lançar com uma protagonista mulher, algumas pessoas comentam: Do que adianta fazer com uma mulher se ela é bruta igual um homem? Aí é que tá. Primeiro, é importante mostrar que não existe só um tipo de mulher (aquela submissa/tesouro de aventura). Tem que mostrar que elas também conseguem quebrar a cara de um homem quando precisam, ou fugir de uma jaula sem esperar o príncipe. E o segundo passo é aceitar que certas características têm mais a ver com a pessoa do que com ser mulher e homem. 

Acho que só do conto abrir espaço para esse tipo de discussão já vale muito. (e eu adorei a estética do mundo e a personagem)

Memória Sintética - Camila Mateus

O que eu mais gosto nesse conto é a questão de "Será que se a gente tirar a nossa memória e colocar em outro corpo, ainda seríamos nós? Ou nós somos algo além das nossas memórias?" Mas isso não é muito o questionamento sobre feminismo que nós estamos procurando, então deixa eu focar em outra parte legal do conto.


Aqui eu diria que a questão é preconceito. O que acontece aqui é que as pessoas se recusam a enxergar uma verdade sobre as máquinas, cegas demais pela própria busca por poder, vida eterna ou dramas particulares. Acho que nenhum dos personagens percebe muito bem o que está acontecendo até o final. É legal que é como um elefante na sala: as máquinas estão ali, mesmo com memória sintética estão ganhando "vida própria" e fazendo o que bem entendem, mas ainda são tratadas como máquinas (seres de metal sem sentimento) ou como se fossem as pessoas de quem receberam a memória. 

"Nesse momento, Gilvana e Kaira entenderam que não é preciso um coração para sofrer, para ser humano."

É interessante como não só nesse conto, como em outros daqui, a máquina acaba sendo a referência-metáfora para transmitir a situação da mulher. O ser funcional que é submetido à vontade de seus "donos."

Réquiem para a humanidade - Thabata Borine

O que levaria o ser humano a ser destruído? 

Vamos fingir que quem tá apontando é uma mulher. Por que não?
Aqui tem um ponto interessante que é a ajuda ao outro vs. busca pelo poder. Tivemos isso em Memória Sintética, mas no anterior acaba sendo mais voltado para o preconceito, enquanto nesse é uma questão de dominação. Durante o conto temos diversos conflitos:

1- Ela é discriminada por sua área de trabalho. Em vez de ajudarem, parece que ela é uma criança brincando. Uma piada simples, mas que pode acabar custando até a existência da nossa espécie. E que machuca! Aliás, muito legal a discriminação ter sido voltada mais para o trabalho dela do que para ela ser mulher. Mas não se engane: o sentimento é o mesmo. 

2- Depois o amigo dela decide que é hora de retomar seu favor e tenta estuprar a mulher. Esse é legal que joga diretamente com a questão da ajuda. Em toda a história ele é o único que está lá para ouvir e ajudar. Mas é uma ajuda pelo próprio ego. Na verdade, na cabeça dele é quase um pagamento para ter o direito de ser dono dela. 

3- E, por fim, o tal cara da primeira espécie pacífica que decide dominar todo mundo até eles se matarem. Outro exemplo do ego nessa busca pelo poder passando por cima da ajuda.

fonte
É muito legal ver algo assim na coletânea e abre espaço para discutir justamente: por que essa discussão de quem é o melhor/quem domina? Aliás, falar "feminismo" em uma conversa tem mais capacidade de explosão do que mentos com coca-cola. É briga na certa. Por que as pessoas ficam brigando em vez de se ajudarem? Vale a pena ouvir o que a Niara Yeza tem a dizer e torcer para que no futuro não precisemos de algumas Niara Yezas sozinhas tentando salvar o mundo. 

(Aliás, a existência da Universo Desconstruído já é uma boa prova de que Niara não estaria sozinha naquela nave, né?)

Cidadela - Lyra Libero

Esse conto é recheado de alfinetadas e bons temas para a discussão, desde desigualdade social até a história acontecer em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Mas o tema grande aqui é... gravidez. Novamente. Até Universo Desconstruído eu nunca tinha parado pra pensar que a mulher é definida pela barriga.

[fonte] Jesus! Vocês não têm ideia de como foi difícil encontrar uma imagem. As pessoas têm mania em ridicularizar as proporções da barriga de mulher grávida (wtf) e a opção de uma foto com duas mulheres amigas foi mais difícil ainda! Até esse momento nunca tinha parado pra notar a falta de uma protagonista com melhor amiga. E quando tem algo próximo disso (Korra/Asami), só encontro foto das duas se pegando!!! Nenhuma das grandes séries literárias atuais passaram no teste. Talvez eu devesse ter procurado Crepúsculo...
Mesmo que Cidadela e Eu, Incubadora estejam lado a lado no tema gravidez, eles parecem existir a 20 mil léguas um do outro. Além de um estilo narrativo e universos bem diferentes, em Cidadela o foco não é o aborto em si e se diferencia pela relação com a escravidão. A gravidez é a escravidão da mulher? Não diretamente, mas no mundo de Cidadela "gravidez tornou-se assunto de Deus. E do Estado." Quando a gravidez fica tão importante, a mulher perde o poder sobre seu corpo e vira um objeto, além de causar vários outros problemas (tipo estupro).

Acho que esse conto serve para gente pensar o que significa a gravidez para a mulher - agora e no passado. Eu consigo imaginar um grupo de discussão usando esse conto e pegando vários contextos da História para comparar. Por exemplo, quando a questão de linhagem e herdeiros era tão importante. A mulher era responsável pela barriga oficial de reprodução de certa linhagem? Porque o homem com certeza podia espalhar seu "sangue" em outras barrigas por aí...

Cidadela ainda aborda tantos temas sérios que merecem uma boa discussão, dava para separar cada um em um livro diferente.

E não é que Crepúsculo tem?

Projeto Áquila - Gabriela Ventura

Depois de ler esse eu parei pra pensar se ela teria alguma mensagem a mais na causa feminista além de ser uma boa história de ficção científica. E tem. Na verdade, é realmente um modo interessante de se fechar o livro. A história é sobre um homem e uma mulher disputando em diversos níveis. Aliás, é legal que eles disputem o mesmo corpo, porque é algo além de ser homem ou mulher, é a pessoa X vs a pessoa Y independente do corpo ser feminino ou masculino. 

O resultado bizarro dessa disputa também é legal. Os dois acabaram castigados no caminho, o que eu acredito que é o que acontece quando os dois lados decidem brigar em vez de se ajudar. 

Fim! E o tumblr me presenteou com Teen Wolf e lembrando da amizade das duas. 
Se você leu esses contos e encontrou mais temas para uma boa conversa, compartilhe também. Se a leitura terminar na última página nenhum livro vale a pena. Eu ainda sinto vontade de falar mais do Universo Desconstruído, mas por enquanto ficamos por aqui. Se você ainda não leu (COMO ASSIM?),
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Parte 1: Analisando Universo Desconstruído: O que essa tal ficção científica feminista tem a dizer?


-dana martins

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