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Analisando Universo Desconstruído: O que essa tal ficção científica feminista tem a dizer? (parte 1)

16.10.13Dana Martins

Parte 1, de 2


Hoje eu terminei de ler o Universo Desconstruído, uma coletânea de contos que busca desconstruir estereótipos do universo da ficção científica e que está abordando a questão da mulher na sociedade. Os autores se reuniram para escrever histórias que eles gostariam de ver por aí. Uma ficção científica que não seja só naves espaciais e disputa de quem tem a espada maior, mas que também aborde temas relevantes para a sociedade ou a represente de forma mais igualitária. Ou seja: um monte de histórias legais sem estereótipos e com temas legais para pensar.

Eu li cada conto e decidi ver que tipo de questionamento eles levantam. E um spoiler: eu me surpreendi! Tudo fica bem melhor quando a gente para pra pensar um pouco. (:



Codinome Electra - Lady Sybylla

O primeiro conto te faz torcer pelos machistas, o que é uma ótima maneira de começar o livro de ficção científica feminista. Não, não é irônico. Eu acho que a mensagem do conto é muito boa. A história é basicamente: você pode estar mais "certo" que o outro, mas ao rejeita-lo você se torna mais errado ainda.

vamos levar as pessoas legais para outro planeta e fingir que nada aconteceu
Aliás, dá para ligar o conto com aquilo de "I don't wanna live on this planet anymore." Aí você pega o que acha bom, vai pra outro planeta, cria sua utopia bonitinha e finge que nada de ruim aconteceu. Isso é basicamente o que o povo da Electra fez. E no final das contas termina como aquela mãe superprotetora que esconde tudo do filho enquanto a criança só quebra a cara por não saber da verdade. Ignorar os problemas é melhor do que lidar com eles?

"Eu não posso me calar diante da execução sumária de um prisioneiro que pode nem mesmo representar aquela sociedade que tanto nos reprimiu."

Só pra completar, o conto conclui mostrando que as pessoas podem mudar. Vale uma segunda chance ou até uma primeira: Às vezes você está julgando a pessoa sem nem conhecer. 

Quem sabe um dia, no futuro - Alex Luna

Acho que nesse fica claro o grande tema: a função da Esposa. Você já parou para pensar em qual é a função de uma esposa? Ou de uma mulher em uma sociedade onde tudo o que ela pode fazer é ser esposa? E foi uma certa surpresa ver que uma esposa - a mulher - pode ter apenas três funções específicas. Cuidar dos filhos, cuidar da casa e fazer sexo. 

Posso falar que eu li imaginando ela? Eu sei, eu sei... mas!

O interessante é que isso é desenvolvido através de uma robô - Esposa - que às vezes conversa com um outro robô - Marido - em uma sociedade futurista onde homens e mulheres são independentes. A história é quase como uma carta dessa robô (a Esposa) falando sobre seu cotidiano e até se permitindo sonhar um pouco. 

A relação com a vida real é bem clara e você pode ver o mesmo contexto em vários lugares por aí: nessa novela das 6, "Joia Rara", ou na série brasileira "Brilhante F.C.", que não têm nada a ver com a ficção científica. E o diferencial do conto está nisso, porque quando o Alex Luna destaca essa questão e ainda a insere em um universo cru futurista, fica mais evidente ainda a situação degradante. Quem sabe um dia, no futuro, vão ver a mulher (e o homem também!) como mais do que um robô com funções específicas. Vão ver o homem e a mulher como pessoas que têm desejos particulares. 

Uma Terra de Reis - Dana Martins

Esse fui eu que escrevi e é impossível eu fazer uma análise justa. Mas acho válido eu comentar uma coisa. Vou usar aqui um quote do Diego quando a gente tava conversando sobre super-heróis, mas que também serve para esse caso:


E isso é algo que me perturba quando se trata de "incluir minorias." Por isso quando eu decidi criar essa história, eu quis criar uma história comum. Isso mesmo. Uma história que eu faria por diversão em qualquer outra situação. (na verdade, eu coloquei alguns detalhes que não existiriam em outra situação, mas)

Acho que se tem alguma mensagem que eu quis transmitir, foi isso: Você não precisa ler apenas sobre abortos, a situação da mulher ou algo assim para estar lendo algo feminista. Você pode continuar escrevendo as histórias de fantasia, você pode continuar lendo os "próximos Harry Potters." O diferencial é criar uma história que não fique presa aos estereótipos (tanto do homem quanto da mulher) e estimule a visão negativa. 

Com isso eu perdi a boa chance de usar meu conto sobre mandar as mulheres para Marte e discutir estereótipos. Por outro lado, todos os outros contos do Universo Desconstruído fazem isso muito bem. (:

Meu nome é Karina - Ben Hazrael

Acho que aqui a gente pode falar de... rejeição. Ou aceitação, ainda mais se você se basear na ideia de que o conto tem esses dois universos opostos e é sobre uma fase de transformação. Mas quando eu falo rejeição, eu penso na história como um todo. Afinal, ela só acontece por causa de uma rejeição inicial. E é, de longe, o conto mais doloroso em todo o livro. Não é nem um pouco bonito. É triste, é sujo, é ruim, é feio. E acho que é por isso que nós conseguimos no final respirar aliviados quando tudo se encaixa, ainda que meio errado. 

Qualquer um que busque um conto sobre a dor da rejeição, ou sobre a luta pela aceitação, o conto é esse. Acho muito válido ter uma abordagem assim para completar o livro. Também é o único conto protagonizado por um homem. Quer dizer... 

Eu, incubadora - Aline Valek

Nesse nós temos um tema mais direto que é discutido até em redação de escola. Mas não se engane, esse conto não é uma redação de escola. O que acontece é que nós vemos uma situação de modo geral onde o tema máximo é o aborto. Mas mais do que isso, porque ele abrange todos aqueles assuntos que o aborto trás nos calcanhares: O que é considerado humano? Uma pessoa é mais humana do que a outra? E o que significa para a mulher ter um filho?


Confesso que até ler esse conto, eu nunca tinha parado pra pensar desse último ponto de vista. Sempre considerei o aborto pelo lado de: Será que a mulher vai ter condições de cuidar de um filho? Se tem dinheiro, se tem estrutura, se vai dar amor. O que é uma vergonha, né? Eu nunca tinha pensado do ponto de vista da mulher! Ou pelo menos não como esse conto desenvolve. 

Só pra completar, ainda tem religião no conto. (como poderia ficar de fora?!) Mas apesar de ter a figura religiosa, o forte desse lado na história é o paralelo geral que faz. Ainda mais na questão criador-criação. 

Você pode baixar para ler de graça aqui.

Bem, então agora eu fico por aqui... são 10 contos no livro Universo Desconstruído - Ficção Científica Feminista. Eu já tive que condensar muito o que falar de cada conto, imagine se eu fosse falar dos 10 aqui! Minha visão dos próximos 5 vou trazer na parte 2. 

Atenção: Por mais que eu tenha feito parte da coletânea, não significa que eu seja "dona" do conto dos outros autores! Li cada um deles como teria lido qualquer conto por aí e fiz análise com base no que eu entendi. Não faço ideia se foi a intenção deles ou não. Mas também não importa a intenção. Como diria o John Green: "o livro pertence aos leitores." Apenas quis compartilhar o que eu vi de legal. 



Artista incrível da primeira imagem lá em cima. E artista da imagem da menina ruiva.

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5 comentários

  1. Dana, eu meio que discordo do seu disclaimer. Quando a história é publicada, ela meio que deixa de ter dono. Acho que ouvi um cantor de uma banda que eu gosto dizer isso numa entrevista uma vez. Ele não explicava o que as letras queriam dizer porque sempre que via uma interpretação pro que tinha escrito, ele aprendia uma visão nova sobre aquelas palavras.

    É tipo você associar a minha história com uma novela que passa no Brasil ou uma série que eu nunca nem tinha ouvido falar. Criticar é associar, e as associações sempre dependem da bagagem do crítico, logo o leitor nunca vai ler com os olhos do autor.

    Já os autores podem aprender bastante com outros olhares.

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  2. Que legal, Dana. Gostei das resenhas e olha, acho que sem querer você acabou definindo a mensagem do meu conto(entre outras), quando menciona o seu. Em parte minha ideia era criar algo apenas que fugisse do estereótipo, sem abordar necessariamente um tema feminista. Assim como você fez em Uma Terra de Reis.

    Quanto ao conto do Diego, sem comentários. A história é sensacional!

    Aguardando a parte 2 \o/

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  3. Sabe, o que eu reparei no seu conto, que é o único que eu li até o momento, então nem vou me arriscar a fazer uma analise mais ampla da relação dele com os outros da coletãnia, Dana, é que ele sabe sutilmente criticar papeis de gênero sem se prender a gêneros. Você tem humanos que são tidos como inferiores, como ferramentas, e inclusive citados como seres utilizados apenas para o prazer sexual dos outros, mas isso independe do gênero dos personagens necessariamente, o que torna a critica menos descarada, mas não menos interessante. Resulta em uma literatura pela igualdade, que é exatamente a principal mensagem do feminismo - mesmo sem recorrer a personagens exclusivamente femininas para transmitir a mensagem.

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  4. Menina, foi a melhor análise que alguém fez do meu conto! =D

    Acho que se a coletânea botar as pessoas para pensar e isso as fizer repensar não só os papéis de gênero como a própria produção literária, nosso trabalho está feito. Só de ver como tem gente pensando e falando, "poxa, de fato, não é difícil fazer algo diferente ou inclusivo, é só sair da zona de conforto".

    E poder entrar em um nicho tão machista e ainda dominado por homens e bagunçar um pouco as coisas é necessário justamente para isso, para fazer o diferente, para quebrar o mais do mesmo.

    Ansiosa pela parte 2, a Missão. =D

    Abraço!

    momentumsaga.com

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  5. Estou degustando a obra, lendo aos poucos. Quando tive contato com o projeto através do Momentum Saga da Sybylla, fiquei encantado com a ideia, mas principalmente curioso. O que esse pessoal (muitos dos quais eu conhecia vagamente através do Momentum Saga), tinha aprontado? Mal sabia eu onde tinha me metido. Como eu disse para a Sybylla assim que terminei de ler "Codinome Electra", eu me considerava um cara livre de preconceitos. Mas levei um soco quando, perto do fim do conto, descobri a - por assim dizer - verdadeira natureza da Electra. Esse pequeno trecho me desestabilizou de uma maneira incrível e fascinante. E a medida que ia lendo a obra, ia me encantando e me assombrando com a qualidade e a força de cada conto. A sutileza do Alex Luna, toda aquela ação no seu conto, Dana, o delírio fascinante nas palavras do conto do Ben Hazrael. E por falar no conto do Ben: Caraca! Que conto é esse?! Poucas vezes na minha vida me emocionei tanto com um texto. Melhor: com uma personagem! Uma delícia de conto que nos põe dentro da mente da Karina iluminando aos poucos e sem pressa toda a realidade (ou realidades) a partir da percepção dela. Simplesmente lindo, apesar de angustiante também.
    Ainda não terminei de ler os contos (e por isso mesmo não li a parte da resenha sobre o conto da Aline Valek), mas estou ansioso para ler todos. Mas como disse no começo, estou degustando os contos, apreciando cada um deles sem pressa.
    Parabéns a Dana pela excelente resenha e parabéns a cada um dos envolvidos no projeto!

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